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Apesar do avanço da vacina Sputnik V, Putin está cada vez mais isolado, afirma revista francesa

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Revista semanal francesa Le Point destaca em reportagem o presidente russo Vladimir Putin, "sozinho no comando".
Revista semanal francesa Le Point destaca em reportagem o presidente russo Vladimir Putin, "sozinho no comando". © Fotomontagem RFI/Adriana de Freitas/ Le POINT

A revista francesa Le Point desta semana traz uma longa reportagem sobre Vladimir Putin. A publicação conta que o presidente russo está cada vez mais isolado, tanto no cenário internacional como dentro do país. Apesar disso, o chefe do Kremlim continua concentrando todos os poderes e investindo em um discurso cada vez mais autoritário, mas também patriótico. Uma retórica que passou a ser incarnada nas últimas semanas pela vacina anticovid Sputnik V.

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A reportagem começa revelando que desde o início da pandemia de Covid-19 Putin praticamente não deixou o Kremlin. Segundo a revista, há um ano o presidente dirige o país de seu escritório, “isolado de qualquer contato externo”. O chefe de Estado participa de programas de televisão, responde a entrevistas, defende o papel da Rússia como potência mundial, mas praticamente não aparece fora de seu gabinete, uma espécie de “bunker” que se tornou a metáfora do país, diz a revista.

Nas suas últimas aparições, a vacina Sputnik V passou a ser o mote dos discursos e o emblema de uma Rússia poderosa que Putin tanto preza. Segundo o presidente, mesmo se no momento da descoberta do imunizante a comunidade internacional dava risada, o produto vem conquistando o mundo. “O patriotismo é o ponto central do futuro da Rússia”, martela o chefe de Estado ao falar da Sputnik V.   

Esse patriotismo também é representado pelos filmes de propaganda rodados recentemente pelo governo. Os vídeos trazem imagens de estudantes em estádio, usando uniformes, em cenas dignas da época soviética, conta Le Point. Sem esquecer as investidas militares do país, que anexou a Crimeia em 2014, interveio na Síria em 2015 e, mais recentemente, assumiu o papel de mediador no conflito entre a Armênia e o Azerbaijão. Putin se posiciona como o “campeão da geopolítica”, comenta a reportagem.   

Economia em crise e rumores de doença

Mas tudo isso esconde uma realidade mais complexa, com um presidente cada vez mais fragilizado. Primeiro internacionalmente, “com a mudança radical de tom de Washington”, ressalta a revista. “As palavras simpáticas de Donald Trump foram substituídas pelos ataques de Joe Biden”, aponta a reportagem, lembrando as declarações recentes do chefe da Casa Branca, que chamou o líder russo de assassino.

Mas dentro do país a situação de Putin não é melhor. “Em vinte anos de poder, ele enfrenta uma grave crise política que levou, apenas em janeiro, 100 mil pessoas a manifestar nas ruas de 110 cidades do país” resume Le Point.

Se o estopim da onda de protestos foi a prisão do opositor Alexeï Navalny, personagem adorado pelos jovens e principal voz da contestação na Rússia, a situação econômica do país é o pano de fundo das manifestações. “O salário da população caiu 11% desde 2012 e o preço dos alimentos explodiu. O açúcar, por exemplo, aumentou 65%”, detalha a reportagem.

Em meio a esse contexto, Putin se cerca como pode, inclusive tentando a qualquer preço se manter no poder. As reformas políticas validadas em março do 2020, em um referendo contestado, dão ao chefe de Estado a possibilidade de continuar sendo reeleito até 2036, além de concederem ao presidente uma imunidade vitalícia.

Mas Le Point lembra que essa imagem de Rússia poderosa e de político praticamente imortal também contribui para calar outros rumores: o de que o presidente de 68 anos sofreria atualmente de leucemia ou de Mal de Parkinson.

 

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