A Semana na Imprensa

Muitos franceses não querem voltar ao trabalho como antes quando a pandemia acabar

Áudio 02:50
Capa da revista Le Point, traz manchete sobre "Estes franceses que não querem mais trabalhar..."
Capa da revista Le Point, traz manchete sobre "Estes franceses que não querem mais trabalhar..." © Fotomontagem RFI

A reportagem de capa da revista francesa Le Point desta semana analisou um fenômeno cada vez mais presente no país: o fato de que, com a retomada aos poucos de uma vida normal na França após a pandemia, muita gente se acostumou a ficar em casa e não quer mais voltar ao trabalho como antes.

Publicidade

Com a melhora da situação sanitária, desde o início de junho os moradores da França que beneficiaram de um regime de férias coletivas para evitar o contágio voltaram para seus trabalhos.

Aqueles que estavam em regime remoto [home office] também retomam aos poucos suas atividades presenciais. No entanto, aponta a reportagem, nem todos estão contentes com essa situação. Segundo uma pesquisa de opinião recente citada pela revista, 48% dos assalariados do país estariam desmotivados com a volta à vida profissional que tinham antes.

De acordo com Le Point, essa situação é visível principalmente na área de restaurantes, que ficaram fechados durante meses. Nesse período, garçons, cozinheiros e outros funcionários ficaram em casa, recebendo 84% do salário líquido, graças ao sistema implementado pelo governo para enfrentar a pandemia. Nesses meses de folga forçada, alguns aproveitaram para pensar no sentido da vida e na importância real do trabalho. “Muitos se perguntam se vale a pena se esforçar tanto”, resume o texto.

“Eu descobri uma vida de família que não conhecia”, relata uma garçonete que trabalhava há 20 anos em um restaurante. “Apreciei essa situação e agora não quero voltar à vida de antes”, desabafa a jovem, que já se prepara para retomar os estudos para, mais tarde, poder trabalhar em creches e continuar aproveitando os seus fins de semana.

Ela não é a única nessa situação, e muitos patrões tem visto seus funcionários pedir demissão para mudar o ritmo de vida. Alguns setores, como o turismo, do qual depende 9% do PIB francês, viram parte da mão-de-obra ir embora e já encontram dificuldades para recrutar novos funcionários.

Trabalho remoto

Esse desânimo generalizado é particularmente presente entre os profissionais em situação mais precária, com contratos instáveis ou atividades insalubres. Mas também é notável entre os que atuam confortavelmente em escritórios, e que tomaram gosto pelo trabalho à distância.

Como uma gerente da área de finanças ouvida pela reportagem, que diz ter se acostumado a poder cuidar da casa às 10h da manhã e trabalhar no horário do almoço, sem que isso atrapalhe sua performance profissional. Agora, ela não entende porque deveria renunciar a essa nova qualidade de vida.

A jovem ficou tão acostumada que conseguiu uma licença médica no momento em que deveria voltar ao trabalho presencial. “Sei que não vou poder escapar por muito tempo, mas não consigo imaginar retomar uma atividade de mais de dois dias por semana no escritório”, calcula.

Especialistas ouvidos relatam que muita gente aproveitou a ocasião para se lançar em atividades como autônomo, como uma alternativa para continuar trabalhando em casa. O único problema, é que, nesses casos, a remuneração nem sempre é a mesma.

"Mudei de cidade sem avisar o patrão"

Le Point também conta que é cada vez mais frequente o caso de famílias que decidiram mudar totalmente de vida, abandonando os grandes centros para viver e trabalhar a distância no interior do país. Muitas vezes sem avisar os patrões.

É o caso de uma jovem ouvida pela revista, que trabalha no setor editorial. Ela conta que vendeu seu apartamento na capital e, de forma quase impulsiva, comprou uma casinha com jardim no Sudeste. “Meus chefes acham que eu estou em Paris. Não sei como vou dizer para eles”, confessa. “Uma hora serei obrigada a comparecer no escritório. Então contarei tudo e tentarei negociar uma nova organização do meu trabalho”, planeja, sem medo.

Le Point explica que a problemática do home office está no centro das discussões das grandes empresas, que já se questionam sobre como levarão em conta esse “efeito colateral” da pandemia.

Porém, para setores que exigem uma presença física, a situação é mais complicada, pois a debandada dos empregados que se questionam sobre o sentido da vida e não querem voltar ao trabalho como antes pode ter um impacto pesado na economia do país, aponta o texto.

“Após uma recessão inédita, como a França vai financiar seu sistema de aposentadoria, de proteção social, de serviços para idoso, ou os investimentos na educação e na infraestrutura se todos decidirem trabalhar menos e produzir menos”, questiona Le Point, sem encontrar uma resposta para essa difícil equação.

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.