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"RNA mensageiro permite criação de medicamentos que eram inviáveis", diz CEO da Moderna

Áudio 03:17
O francês Stéphane Bancel, CEO da Moderna, diz que o mRNA abre uma nova era para a indústria farmacêutica.
O francês Stéphane Bancel, CEO da Moderna, diz que o mRNA abre uma nova era para a indústria farmacêutica. AFP - IVAN COURONNE

Em entrevista à revista l'Obs, o francês Stéphane Bancel, CEO da empresa de biotecnologia Moderna, fala sobre as perspectivas de desenvolvimento de medicamentos, antes inviáveis, que poderão ser fabricados com base na molécula de RNA mensageiro. 

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À primeira vista, essa nova tecnologia, utilizada com sucesso nas vacinas da Moderna e da Pfizer/BioNTech contra a Covid-19, tem a aparência de um produto de ficção científica. Mas, na verdade, a indústria farmacêutica desenvolve esse processo há, no mínimo, dez anos.  

A principal característica da molécula de mRNA produzida por meio da engenharia genética é que ela transporta instruções para que as células do nosso corpo produzam determinadas proteínas, que estimulam nosso sistema imunológico a reagir à presença de um elemento estranho, por exemplo, um vírus. O mRNA, naturalmente presente nas células vivas - seja qual for a espécie -, é composto por quatro nucleotídeos: A, C, G e U. Dependendo da forma como essas quatro letras são combinadas, cria-se um código diferente, capaz de levar instruções para a fabricação de proteínas distintas que interessem os cientistas no combate a uma doença. 

Para tranquilizar aqueles que temem a injeção de uma molécula sintética no organismo, o CEO da Moderna lembra que o mRNA é completamente destruído pelo corpo após 48 horas. Ao contrário do que ocorre nas terapias gênicas, o mRNA não interage com o DNA do núcleo da célula e, assim, não apresenta risco de alterá-lo. A simplicidade desse processo torna a fabricação de medicamentos e vacinas mais rápida e barata, além de dar segurança à estratégia industrial, explica Stéphane Bancel.

Depois do sucesso contra a Covid-19, é provável que o mRNA venha a substituir as vacinas existentes contra a gripe. Esse procedimento molecular também deve melhorar o combate às infecções causadas pelo papilomavírus (HPV). Os imunizantes disponíveis no mercado protegem contra nove cepas do HPV, mas há catorze tipos que podem causar o câncer. 

Bancel fala com entusiasmo de um mRNA que a Moderna desenvolve atualmente em parceria com a AstraZeneca, que codifica a proteína VEGF. Injetado no coração de um paciente enfartado menos de 48 horas após o ataque cardíaco, este medicamento é capaz de revascularizar o tecido muscular danificado do coração. Estudos realizados em porcos mostraram que essa droga pode restaurar a capacidade do coração de bombear o sangue nas mesmas condições anteriores ao enfarte. Esse mRNA é testado em ensaios clínicos de fase 2. 

Remédios contra câncer, doenças autoimunes e degenerativas

Contra o câncer, a Moderna tem cinco moléculas em testes clínicos. "São abordagens terapêuticas em sinergia com os tratamentos praticados em imuno-oncologia, para os quais procuramos melhorar a resposta do paciente", explica o francês. A empresa instalada nos Estados Unidos também desenvolve um mRNA para combater doenças autoimunes, como lúpus, doença de Crohn, uma patologia inflamatória intestinal, e artrite. 

"Acreditamos que seja possível restaurar o equilíbrio natural, acalmando um sistema imunológico acelerado", afirma Bancel na entrevista à L'Obs.

A médio prazo, essa técnica pode abrir um enorme campo na medicina regenerativa, com a perspectiva de tratamentos para doenças como Alzheimer ou esclerose múltipla, bem como a regeneração de órgãos danificados, entre eles o fígado ou o pâncreas.

"Neste momento, nesse tipo de tratamento, o risco biológico ainda é muito alto, mas há um potencial enorme em cinco, dez ou 15 anos. Porque a beleza dessa tecnologia é que você pode aproveitar todas as descobertas de publicações acadêmicas ou científicas ao redor do mundo", conclui o CEO. 

Detentor de 9% do capital da Moderna, Bancel figura no 23º lugar do ranking da revista Forbes de fortunas francesas, com um patrimônio estimado de € 3,5 bilhões.

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