China x EUA: Revista Le Point mostra preparativos para guerra no estreito de Taiwan

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Revista Le Point traz reportagem de capa sobre os preparativos para uma guerra entre China e EUA por causa de Taiwan.
Revista Le Point traz reportagem de capa sobre os preparativos para uma guerra entre China e EUA por causa de Taiwan. © Fotomontagem RFI/ Adriana de Freitas

A edição semanal da revista francesa Le Point mostra como a China e os Estados Unidos se preparam para uma guerra no estreito de Taiwan, no mar da China Meridional, onde as duas superpotências estão reunindo tropas, navios de guerra e aviões de combate. "Uma única faísca pode provocar relâmpagos na região e deflagrar um choque global", adverte a reportagem. 

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Segundo Le Point, analistas que consideravam a tese de uma invasão a Taiwan alarmista agora veem como possível, senão provável, no final da década, quando a China poderá ter ultrapassado os Estados Unidos econômica e militarmente. Apesar das ameaças, o governo taiwanês tem deixado a porta aberta para negociações e trocas comerciais com Pequim.

Para entender a tensão na região, é preciso retornar a 1949, ano da vitória da Revolução Chinesa. Com a ascensão do socialista Mao-Tsé Tung ao poder em Pequim, o nacionalista Chiang Kai-shek, que governava o país desde 1927, refugiou-se com cerca de 2 milhões de chineses na ilha de Taiwan ou Formosa, situada a 130 km do litoral da parte continental da China. Na ilha, formou-se um governo autônomo que recebeu o apoio dos Estados Unidos. Desde então, a China ficou dividida em duas partes: na área continental, os comunistas fundaram a República Popular da China, enquanto a China Nacionalista ficou limitada a Taiwan.

A questão é que este pequeno Estado, sem reconhecimento internacional, vive "num limbo único no mundo", destaca a Le Point. Taiwan não goza de independência completa, tampouco se submete às ordens de Pequim. Esse status quo perdurou durante décadas, até ser ameaçado pelo projeto expansionista do presidente chinês, Xi Jinping.

"Quanto tempo essa situação pode durar?", pergunta a Le Point. Questionado recentemente na Assembleia, o ministro da Defesa de Taiwan, Chiu Kuo-cheng, arriscou-se a dar uma data para uma invasão: 2025, quando a China poderia "reduzir o custo e o desgaste ao mínimo". Mas os Estados Unidos, que mantêm uma posição ambígua, não descartam a "promessa" de ajudar Taiwan, conforme declarou o presidente Joe Biden em entrevista à TV CNN, em outubro. 

Para dar confiança à população, as autoridades taiwanesas encomendaram US$ 5 bilhões em armas pesadas dos Estados Unidos em 2020, e US$ 750 milhões em equipamentos adicionais em 2021. Taiwan também investe em seu programa nacional de defesa, com a construção de aviões de combate, submarinos, drones e mísseis.

Maioria não se sente mais chinesa, mas fala mandarim

A maioria da população da ilha não se sente mais chinesa, apesar de falar mandarim e ser descendente do grupo étnico Han. Entre os residentes, 66% se consideram apenas taiwaneses, 28% chineses e taiwaneses e apenas 4% exclusivamente chineses.

"Ninguém pode forçar Taiwan a seguir o caminho que a China traçou para nós", avisa a presidente Tsai Ing-wen, do Partido Democrático Progressista, no poder desde 2016. 

Especialistas ouvidos pela Le Point notam, entretanto, um fato curioso. Apesar da ameaça de guerra, os taiwaneses não estão psicologicamente preocupados com essa eventualidade. Uma pesquisa recente da Brookings Institution, um think tank americano, mostrou que apenas 57,6% dos taiwaneses veem a guerra como uma "possibilidade". Do total de entrevistados, 79% percebem que as atividades militares chinesas aumentaram nos últimos seis meses, mas apenas 30% dizem que estão mais preocupados com isso.

Em Taipei, a explicação mais frequente a esse paradoxo é que depois de três gerações enfrentando a hostilidade chinesa, os taiwaneses estão cansados. Eles guardam uma tranquilidade na alma que poucos analistas conseguem interpretar, conclui a Le Point.

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