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Brasil-Mundo

Psicoterapeutas brasileiras na Suíça falam das consequências da pandemia no divã

Áudio 03:25
A psicóloga e psicoterapeuta Ariella Machado, que trabalha no Hospital Universitário de Genebra.
A psicóloga e psicoterapeuta Ariella Machado, que trabalha no Hospital Universitário de Genebra. © Arquivo Pessoal
Por: Valéria Maniero
12 min

Psicoterapeutas brasileiras que trabalham na Suíça falam sobre as principais mudanças de comportamento em tempos de pandemia e o que fazer para manter a saúde mental em dia. 

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Valéria Maniero, correspondente da RFI na Suíça 

A RFI conversou com duas psicoterapeutas brasileiras que trabalham na Suíça para saber o que elas têm encontrado nos consultórios nesses tempos de coronavírus. Quais os principais casos entre os pacientes e o que se pode fazer para manter a saúde mental em época de pandemia?  

Ariella Machado, que trabalha como psicóloga no Hospital Universitário de Genebra, no Departamento de Saúde Mental e Psiquiatria, conta que tem visto uma ampliação de sintomas que já existiam antes da crise sanitária: pacientes que apresentam um grau de ansiedade ainda mais elevado, por exemplo. 

Ela identifica ainda “uma tendência também a evitar de frequentar lugares públicos, para justamente não estar em contato com essa ansiedade, que está mais forte do que antes da pandemia”. 

A psicoterapeuta e psiquiatra Milena Antunes Santos, que atua em Lausanne, também destaca o aumento da ansiedade, mas acrescenta que esse transtorno não é o único presente na vida e nos depoimentos dos pacientes nesse momento de crise. 

“Eu chamo de crise porque é uma coisa que altera a vida das pessoas e excede a capacidade delas de lidar [com a situação]. As rotinas e a qualidade das relações entre as pessoas são alteradas. Isso deixa rastro. Na minha prática clínica, o que pude observar, desde o início, foi um nível aumentado de ansiedade. A primeira manifestação que eu vi foi a ansiedade, uma preocupação excessiva, algumas manifestações hipocondríacas ou de fobia. Muito medo de sair e de se encontrar com outras pessoas, como se fossem encontrar o coronavírus em pessoa no momento em que botassem os pés fora de casa”, explica Santos. 

Em resposta à ansiedade e às preocupações, outro sintoma que se tornou mais observado nos divãs foi a insônia, principalmente em relação a pessoas muito preocupadas. Mas esse porblema, na opinião da profissional, não está ligado apenas à ansiedade, mas também ao fato de as pessoas terem suas rotinas alteradas, ficando mais tempo dentro de casa e menos tempo expostas à luz do sol. 

De acordo com a psiquiatra, em um segundo momento, principalmente no período do lockdown no país, foi a vez da depressão invadir os consultórios. 

Para manter a saúde mental 

A partir da experiência em seu consultório e consciente de que as alterações emocionais e psiquícas são extensivas a todo o mundo, Milena Santos dá sugestões de como amenizar os efeitos da crise na saúde mental. A primeira orientação está ligada ao acesso às informações. Para a profissional, é preciso procurar fontes confiáveis de notícias sobre o coronavírus, para evitar as “fake news” e também de ser “bombardeado por mil e uma informações diferentes, que geram mais dúvidas do que respostas”. 

Ela acrescenta que também é importante “quebrar esse movimento de isolamento, e tentar aumentar a comunicação com a família e os amigos, mesmo que estejam distantes”.  

“Eu acompanhei uma senhora que, dentro de sua rotina, estipulou um horário do dia para fazer uma pequena via-sacra de ligações para diversas pessoas. Isso estruturou muito os momentos da vida dela, que poderiam ser de solidão absoluta, e que foram úteis tanto para ela quanto para as pessoas em torno dela”, relata Santos. 

Manter o ritmo de sono, não dormir demais, não ficar muito tempo deitado são outras recomendações dadas pela profissional. 

“Tentar manter uma atividade física, na medida do possível, uma atividade intelectual, social, uma alimentação equilibrada. E atenção aos hábitos, porque durante esse período de confinamento, há a tendência a abusos de alimentos e as também de bebidas alcoólicas”, destaca a psicoterapeuta. 

Outra sugestão da profissional é "tentar ver as coisas de outro jeito": “Quais são os benefícios desse momento de isolamento?”, ela estimula a reflexão. 

“[É preciso] Colocar questões e não simplesmente entrar em uma atitude de negacionismo, mas encarar essa realidade e pensar o que isso pode trazer para mim e para o outro. Imaginar esse esforço de restrição social não apenas como uma coisa que você está perdendo, mas que você está colaborando para evitar uma transmissão, uma progressão da pandemia. E, por último, procurar por ajuda. Que as pessoas não hesitem em procurar um suporte psicoterápico ou psiquiátrico para evitar os efeitos mais nocivos do estresse”, orienta. 

Uma maneira diferente de enfrentar o vírus 

Em plena segunda onda de contaminações na Europa, a psicóloga Ariella Machado afirma já ser possível identificar diferenças no comportamento dos pacientes em relação a um primeiro momento do avanço da pandemia. 

Durante a primeira onda, o medo era muito grande porque havia muitas incógnitas em relação ao vírus, em relação à maneira de contraí-lo e quais seus riscos para a saúde. E esse medo, claro, gerava uma ansiedade muito grande. Então, essa questão de se proteger, de não sair de casa, gerou um grau de ansiedade bastante elevado. Já nessa segunda fase, eu acho que é um pouco menos, porque muitas pessoas foram infectadas. Eu tenho três pacientes que superaram e muito bem esse problema, sem nenhuma sequela. Então, isso muda um pouco a maneira de enfrentar esse vírus. O medo está menos presente, vamos dizer assim”, explica. 

Essa tendência observada pela psicóloga, claro, não é uma norma: “Eu tenho um paciente que tem tendência a comportamentos paranoicos. O fato de ter que sair de casa nessa segunda onda é muito mais problemático. Ver pessoas com máscara desperta certos traumatismos nele, certos sintomas de um estresse pós-traumático. Então, para ele, é muito estressante, por exemplo, estar fora atualmente, o que não era na primeira onda”, descreve.

Para ela, o caso é um grande exemplo de como as pessoas estão enfrentando de maneira diferente a primeira e a segunda ondas. “Umas, com uma certa serenidade, porque nós temos mais conhecimento em relação ao vírus, e outras, de maneira um pouco mais problemática, justamente porque agora a forma de enfrentar, de maneira geral, está sendo diferente”.  

Os mais velhos sentiram mais 

O lockdown, posto em prática no país para diminuir a propagação do vírus, afetou a todos de uma maneira ou de outra, mas principalmente as pessoas mais velhas que vivem em casas de repousos na Suíça, chamadas no país de EMS. Também atuando na área da psicogeriatria, que se refere ao tratamento e à prevenção de doenças mentais em idosos, Santos conta que muitos foram os casos de ansiedade, depressão e insônia identificados neste perfil de paciente. 

“Eles sofreram mais, porque nas casas geriátricas o confinamento começou antes e terminou depois. Então, para muitas dessas pessoas, que já têm uma vida social limitada, foi ainda pior, porque ficaram restritas à vida nos estabelecimentos médico-sociais, que foram muito atingidos. Houve pessoas que não só ficaram gravemente doentes, mas que durante esse período tinham que ficar confinadas em seus quartos, abaladas física e emocionalmente, com mudanças comportamentais que são também ligadas à Covid”, explica.

A profissional conta que alguns idosos saíram dessa experiência bastante traumatizados, mas se recuperaram. Outros, no entanto, não tiveram a mesma sorte.“Muitos faleceram, e isso repercutiu enormemente, porque houve um luto coletivo das pessoas que se davam conta de que o vizinho de quarto tinha falecido”.  

Contato a distância, mas real 

E suas avaliações desse período atípico, as duas profissionais veem de forma positiva algumas mudanças trazidas pelas restrições impostas pelo coronavírus. "Dentro desse caos, houve algo de interessante que foi a prática de atendimentos online. Eu ainda não tenho um distanciamento suficiente para dizer se foi melhor, se foi pior, mas posso dizer que foi muito útil e ajudou muita gente”, afirma Santos. 

Ariella Machado complementa na mesma linha, contando um fato interessante que ocorreu graças ao atendimento a distância: “Eu tive duas pacientes que conseguiram chorar pela primeira vez em psicoterapia quando nós fizemos a sessão por telefone. Às vezes, o fato de não ter o olhar do outro pode facilitar o trabalho. Claro que o presencial é muito importante, mas eu vejo que o fato de trabalhar por meio de vídeo ou telefone é interessante também. Para mim, foi uma surpresa positiva ver que dá para fazer um trabalho profundo de psicoterapia dessa maneira também. Os pacientes puderam ver que esse é um meio possível e até mesmo agradável de ter um segmento psicoterapêutico”. 

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