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Brasil-Mundo

Pandemia acelerou mudanças no setor de HQ, diz designer e especialista brasileiro Bruno Porto

Áudio 04:23
Encontro de Tipografia de Portugal 2018
Encontro de Tipografia de Portugal 2018 © Arquivo Pessoal
Por: Vivian Oswald
11 min

A pandemia do novo coronavírus mudou hábitos e mercados pelo mundo, inclusive o de leitura das histórias em quadrinhos (HQ). Especialista em quadrinhos, o designer gráfico carioca Bruno Porto, radicado na Haia, na Holanda, há dois anos, onde faz o seu doutorado sobre o tema, afirma que o novo coronavírus acelerou as mudanças que o setor já vinha passando.

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Vivian Oswald, correspondente da RFI em Londres

As revistas digitais ganharam visibilidade e muito mais público este ano. Em vários países, houve interrupção na distribuição das revistas impressas e o fechamento, mesmo que temporário, das livrarias especializadas — as chamadas gibiterias, ou comicshops. No âmbito digital, editoras e plataformas começaram a oferecer mais opções de títulos, de pacotes de assinatura para, a um só tempo, não perder os leitores já fidelizados aos personagens e atrair novos consumidores.

Nos Estados Unidos, são mais comuns as versões digitais de quadrinhos que foram ou que serão impressos, o que corresponde a cerca de 10% do total das vendas de gibis. Se usarmos como base os números de 2018, foram aproximadamente US$ 100 milhões de um mercado que faturou pouco mais de US$ 1 bilhão. Os chamados Mobile Comics, quadrinhos feitos para serem lidos em dispositivos celulares, é um mercado de quase US$ 900 milhões só na Ásia, onde eles são muito populares.

Os HQs americanos digitais são frequentemente usados para testar uma ideia, um personagem, ou um nicho de público. Essas edições, chamadas de Digital First, também são usadas como brinde gratuito, ou como forma de atender uma demanda que não seria grande o suficiente para justificar uma reimpressão. Por exemplo, no lançamento de um filme novo da Marvel, eles podem fazer uma edição completa com tudo que já foi publicado sobre o personagem deste filme com  mais de mil páginas, por menos de US$ 20.

Plataformas brasileiras

"No Brasil há cada vez mais quadrinistas experimentando publicar nas plataformas de Mobile Comics como a Tapas e a WebToon. Na semana passada, eu participei de uma banca de formatura da Escola de Belas Artes da UFRJ justamente de um projeto de uma plataforma para quadrinhos digitais voltada para autores independentes. Outra indicação disso é que os projetos de quadrinhos nas plataformas de financiamento coletivo, como o Catarse, passaram a ter opções de edições digitais das publicações", conta Bruno Porto. O quadrinho digital não apenas economiza custo de impressão e de envio da publicação, mas neste momento atual, poupa ida à gráfica, ao correio, manuseio de pacotes para quem envia e para quem recebe, é mais prático e seguro.

Quando houve a paralisação da distribuição e lockdown das comic shops, as grandes editoras, como Marvel e DC, redirecionaram alguns dos lançamentos que estavam previstos para saírem impressos  para o Digital First, por que não faria sentido produzir sem poder vender.

Por coincidência, a HQ americana “The Resistance", que tratava de uma pandemia que matou 400 milhões de pessoas, ia ser publicada no começo deste ano. Mas foi atropelada pela pandemia do novo coronavírus e seu lançamento acabou se limitando ao mundo digital. Bruno lembra que a AWA Studios, que publica a revista, inicialmente fez como as demais editoras: colocou a publicação à venda no digital, mas logo suspendeu a estratégia, para não prejudicar as comic shops que perderam, não apenas a circulação do público, como tiveram a distribuição de novos produtos interrompidas.

"Daí, eles optaram por dividir as primeiras edições da série e ir publicando aos poucos, gratuitamente, nas plataformas de Mobile Comics. Aparentemente deu tão certo que mesmo depois que a distribuição foi normalizada continuaram publicando ali e começaram a buscar profissionais para novos títulos visando especificamente essa mídia”, explicou Bruno.

Fragilidade do modelo tradicional

A crise causada pela pandemia revelou a fragilidade de um modelo de negócios sustentado pela venda mensal quase exclusivamente em gibiterias. A viabilidade do suporte digital acabou por abrir um caminho para a diversificação.

"Pragmaticamente falando, não há grandes mudanças na produção de uma HQ impressa ou de uma Digital First, mas os quadrinistas mencionam ter que tomar alguns cuidados técnicos. No guia de produção da comiXology Originals, o selo da maior distribuidora de quadrinhos digitais - a comiXology - que hoje pertence à Amazon, orienta a não fazer páginas duplas ou sobreposição de quadros, pois interfere com a tecnologia que eles utilizam. Mas a narrativa sequencial muda mesmo é nos Mobile Comics, pois o conceito de página desaparece, e a leitura dos quadros é feita mais no sentido vertical, com a barra de rolamento subindo, do que no horizontal, como das tirinhas de jornal.  Então o quadrinista tem que mudar a forma de pensar a leitura quadro a quadro", salienta o designer.

A comiXology é a principal distribuidora de quadrinhos digitais, com 75 mil títulos de 12 editoras americanas e européias, em um modelo de negócios híbrido da indústria da música e de filmes.

"Você pode comprar os gibis individualmente ou fazer uma assinatura - pelo preço mensal equivalente a dois gibis - que te dá direito a um catálogo de 4 mil revistas. Na última década, calcula-se que eles venderam mais de 200 milhões de quadrinhos digitais, e isso não inclui os quadrinhos chineses nem os mangás japoneses”, afirma Bruno.

As principais plataformas de Mobile Comics funcionam principalmente no sistema de assinatura — mensal ou anual — que é o que está sendo seguido na Europa, principalmente por editoras do mercado franco-belgas. Focando um público mais jovem, de 15 a 25 anos, que literalmente vive no celular, eles até adotam um vocabulário mais próximo a realidade desse público, que é o de séries de canais de tv e de streaming. As plataformas publicam séries em “temporadas” com  24 “episódios” semanais. Os três primeiros episódios são gratuitos, os demais, apenas para assinantes.

"Não acho que os quadrinhos impressos vão acabar, como o livro, o teatro, o rádio, o cinema não acabaram à medida que surgiram novas tecnologias e suportes midiáticos. Mas eles vão mudar… Seja no formato, na periodicidade, no preço, nas temáticas… Na verdade, já estão passando por mudanças. O que essa pandemia talvez tenha feito, tenha sido acelerá-las”, concluiu em tom otimista o especialista, que é fã de HQ desde criança, assim como filho pequeno.

 

Designer e especialista em quadrinhos Bruno Porto
Designer e especialista em quadrinhos Bruno Porto © Arquivo pessoal

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