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Veterinário brasileiro fala da paixão pelas corridas de cavalos no Catar

Áudio 04:50
A paixão de Silvio pelos cavalos começou desde cedo, no Haras Morada do Sol, que pertence ao pai dele, em Salesópolis, no interior de São Paulo.
A paixão de Silvio pelos cavalos começou desde cedo, no Haras Morada do Sol, que pertence ao pai dele, em Salesópolis, no interior de São Paulo. © Fotomontagem com arquivo Pessoal
Por: Tiago Leme
11 min

No final do próximo ano, pela primeira vez na história, um país árabe vai sediar uma Copa do Mundo de futebol. Do dia 21 de novembro a 18 de dezembro de 2022, o Catar receberá 32 seleções para a disputa, mas a população local ainda tenta tomar gosto pelo esporte mais popular no planeta. Por enquanto, os cataris têm outras modalidades bastante tradicionais como grandes paixões nacionais: as corridas de cavalo, de camelo e a falcoaria. 

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Tiago Leme, correspondente da RFI em Doha

Vivendo em Doha desde 2010, Silvio Arroyo Filho, paulista de Mogi das Cruzes, é veterinário de equinos e trabalha com cavalos de enduro e de corridas de resistência, no Al Shaqab, um dos maiores e mais importantes centros equestres do mundo.

Ele explica que a modalidade disputada na região desértica está ligada aos antepassados do povo árabe. Atualmente, é um esporte de elite, que atrai os xeques muçulmanos, a família real e gente com bastante dinheiro. Para se ter uma ideia, um cavalo de competição pode custar até € 1 milhão (R$ 6,5 milhões).

“A relação com os cavalos para eles é algo muito intrínseco. Cavalo, falcão e camelo são animais sagrados. O petróleo foi descoberto na região entre o final da década de 60 e o começo de 70. Os cataris tem só 50, 60 anos de civilização moderna, com dinheiro, investindo", explica Silvio. " Antigamente eles eram nômades e os cavalos ajudaram muito nessa época. Principalmente o cavalo árabe, o mais famoso das raças, que formou praticamente todas as outras raças. É como uma retribuição por tudo que esses animais deram para eles. É algo cultural mesmo”, afirma o brasileiro.

Silvio também é veterinário da seleção nacional de enduro do Catar, modalidade com provas oficiais de até 160 km de distância. Por conta disso, ele viaja com frequência por vários países durante campeonatos mundiais e asiáticos. Nesses dez anos morando em Doha, ele já teve a oportunidade de encontrar e ter como chefe de equipe, por exemplo, o xeque Abdullah Bin Khalifa Al Thani, que foi o primeiro ministro do país por 11 anos, tio do atual Emir Tamim bin Hamad bin Khalifa Al Thani.

A paixão de Silvio pelos cavalos começou desde cedo, no Haras Morada do Sol, que pertence ao pai dele, em Salesópolis, no interior de São Paulo. Mais tarde, já trabalhando como veterinário durante os Jogos Equestres Mundiais no Brasil, em 2010, ele recebeu um convite para se mudar para o Oriente Médio e aceitou o desafio.

Silvio também é veterinário da seleção nacional de enduro do Catar, modalidade com provas oficiais de até 160 km de distância.
Silvio também é veterinário da seleção nacional de enduro do Catar, modalidade com provas oficiais de até 160 km de distância. © Arquivo pessoal

“Quando eu recebi a proposta, vim pra cá sem pensar muito, pois é onde está o esporte de mais alto nível. Minha adaptação foi fácil porque eu já tinha tido a oportunidade de viajar antes para cá, já tinha sentido como era o clima, a cultura, como funcionava toda essa região do mundo, além de conhecer treinadores e outros árabes. Então, quando a gente chega aqui e não toma um susto tão grande. O mais importante nessa adaptação é a família, mas minha mulher e os filhos se adaptaram super bem”, contou.

Futebol ainda não é muito popular

Desde 2010, quando o Catar foi escolhido pela Fifa como sede da Copa de 2022, o futebol tenta se popularizar mais no país. Os clubes locais possuem ótima condição financeira e já contrataram craques como o ex-jogador espanhol Xavi, hoje técnico do Al Sadd e um dos embaixadores do Mundial. Apesar disso, os estádios costumam ficar vazios nos jogos da liga catari. Silvio conta que os mais jovens gostam mais de futebol do que os mais velhos, mas a maioria prefere acompanhar os campeonatos da Europa.

“Eles também gostam bastante de futebol. Mas nem todos, não vão perguntar como foi o jogo de ontem. O pessoal mais novo gosta bastante, acompanha, tem os times daqui, mas a maioria segue o Real Madrid, o Barcelona, o Paris Saint-Germain e os jogos europeus. Eles gostam do futebol, mas acho que camelo, falcão e cavalo tem um espaço maior no coração deles, por conta do passado”.

Minha adaptação foi fácil porque eu já tive a oportunidade de viajar antes para cá, já tinha sentido como era o clima, a cultura, como funcionava toda essa região do mundo, além de conhecer treinadores e outros árabes.
Minha adaptação foi fácil porque eu já tive a oportunidade de viajar antes para cá, já tinha sentido como era o clima, a cultura, como funcionava toda essa região do mundo, além de conhecer treinadores e outros árabes. © Arquivo pessoal

Torcedor fanático do Palmeiras, mesmo longe do Brasil há dez anos, ele continua acompanhando o time do coração e esteve no estádio no Mundial de Clubes no Qatar em fevereiro, quando o clube paulista foi eliminado na semifinal e o Bayern de Munique conquistou o título. No tempo livre, o futebol é seu esporte favorito. Mas é o trabalho nas corridas de cavalo que levou Silvio ao mundo árabe, o lugar certo para quem gosta deste tipo de esporte tão pouco valorizado entre os brasileiros.

“Aqui no Oriente Médio seria a Fórmula 1 dos cavalos de enduro. Na Europa, tem França e Espanha. Mas nessa região do Oriente Médio, aqui, Dubai, Abu Dhabi e Bahrein, eles investem bastante, tem bastante competitividade, bastante corrida e trazem muita gente de fora para trabalhar no esporte. Então, estar aqui no Oriente Médio trabalhando no esporte que eu amo, que é tão pequeno no Brasil, ter a oportunidade de viver do esporte aqui é muito bom, é maravilhoso”, disse o veterinário.

Atualmente, de acordo com os números oficiais, existem cerca de 1.500 brasileiros morando no Qatar. O país tem uma população de 2,8 milhões de habitantes, dos quais mais de 80% são estrangeiros, imigrantes trabalhadores vindos principalmente da Índia, Bangladesh, Nepal, Egito e Filipinas.

 

 

 

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