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Cineasta lança documentário crítico sobre as heranças que a Copa do Mundo de 2014 deixou para o Brasil

Áudio 05:46
Ivanildo Lopes (centro) morreu antes de receber uma nova casa.
Ivanildo Lopes (centro) morreu antes de receber uma nova casa. © Divulgação

Uma mistura de sentimentos: a paixão pelo futebol, a emoção de receber o mundo para a Copa e o impacto com consequências para toda a vida. O documentário "Os Donos da Casa" mostra como a Copa de 2014 transformou o dia a dia de diversos brasileiros e teve estreia mundial nesta sexta-feira (2), no Festival Internacional de Cinema de Santa Bárbara (SBIFF), na Califórnia. Por causa da pandemia, a projeção aconteceu em um cinema drive-in.  Este é o primeiro longa-metragem da cineasta brasileira Carla Dauden, que mora em Los Angeles. 

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Cleide Klock, correspondente da RFI em Los Angeles

A diretora começou as filmagens 50 dias antes do início dos jogos. Ela registrou os protestos pré-Copa em quatro cidades, acompanhou a população assistindo aos jogos pelas ruas e também a vida de quatro brasileiros impactados antes, durante e depois do evento. A obra traz questões para reflexão: valeu a pena essa Copa do Mundo no Brasil? O que significa esse contraste de um país com as nossas carências e os megaestádios que construímos?

Carla Dauden, diretora
Carla Dauden, diretora © Divulgação

"É difícil falar que é uma crítica à Copa do Mundo. Eu acho que é tão complexo. É uma questão tão complicada porque tem isso: o amor pelo esporte, o amor pelo futebol", define a diretora. "Eu diria que é uma crítica à maneira como a Copa foi realizada no Brasil e, com certeza, é uma crítica à Fifa, ao poder monopolista da federação internacional, que tem todo o poder no mundo do futebol, dita as regras. É uma instituição corrupta, que chega aos países, arma seu circo, faz seu dinheiro e é considerada uma organização sem fins lucrativos com bilhões na conta. Esse é um dos pontos bem fortes do documentário", diz. 

Os personagens

O nome do filme faz uma menção aos quatro personagens principais que abriram as próprias casas para contar suas histórias.

Ivanildo Lopes teve a casa destruída por estar no caminho de uma das obras de infraestrutura em Fortaleza, que não ficou pronta a tempo da Copa, e faz parte das 250 mil pessoas afetadas pelas remoções. Marta Gomes trabalhou como ambulante no Fifa Fan Fest e viu no evento a esperança de mudar de vida e comprar o tão sonhado carro. Daniel Leon é agente de turismo, leva fãs para todas as Copas e é um dos fundadores da torcida canarinho. O menino Matheus Esteves, de 11 anos na época, era morador de uma comunidade no Rio de Janeiro, com vista para o Maracanã, e sonhava em ser jogador de futebol. 

Além de acompanhá-los por quase três meses em 2014, Carla os encontrou, novamente, durante a Copa de 2018, na Rússia.

"Para mim, acabar esse filme agora é surreal porque é uma parte muito grande da minha vida que termina. A gente continuou em contato com os personagens, quatro anos depois voltamos para filmar, foi um processo muito longo mesmo. Mas muito gratificante também, porque à medida que o filme foi crescendo e maturando, eu também fui. Eu aprendi muito com esse processo, com as pessoas e grupos que eu conheci", relata Carla. 

As histórias pessoais são alinhavadas com comentários de importantes nomes do jornalismo esportivo e investigativo, como o britânico Andrew Jennings e os brasileiros Juca Kfouri, Jamil Chade e Fernanda Gentil, além do ex-líder do comitê de governança da Fifa Miguel Maduro e o ativista Argemiro Almeida.

O começo

A ideia de fazer o documentário surgiu a partir da vontade da cineasta de não ir ao Brasil durante a Copa do Mundo. Vivendo nos Estados Unidos, Carla assistia de longe, com um olhar crítico, ao que acontecia no Brasil na época. A construção de obras gigantescas e caríssimas num país que dá pouca infraestrutura para a maioria de seus habitantes e a explosão de manifestações pelas ruas fez com que a diretora postasse, nas redes sociais, um vídeo dizendo as razões pelas quais não iria para a grande festa do futebol, tão esperada pelos brasileiros.

O vídeo viralizou em poucas horas e Carla acabou se envolvendo com o assunto, o que fez com que ela mudasse de ideia e quisesse ver de perto o que estava acontecendo, para entender o sentimento que pairava no país. 

A diretora começou a falar com os grupos locais, os comitês populares e de articulação nacional que estavam na linha de frente de apoio a pessoas afetadas. "Depois de um tempo, vendo a Copa de aproximando, eu falei 'quero ir e ver essas histórias de perto, deixar essas pessoas contarem as histórias delas'", revela Carla.

O documentário mostra a simbologia da quebra da ilusão de que tudo iria mudar, que o Brasil iria para frente, sem esquecer dos inesquecíveis e insuperáveis 7 x 1, que também deixaram a realidade ainda mais dura.

"O filme mostra essa esperança do brasileiro e infelizmente, na minha opinião, as coisas só pioraram desde então. E a gente tem hoje em dia não só politicamente um caos no país, mas estádios abandonados, obras de infraestrutura que não foram terminadas e muitas pessoas que tiveram as vida impactadas para sempre. Delas, a gente não pode esquecer", ressalta a diretora. 

 

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