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Projeto criado em Lisboa estuda a presença de personagens portuguesas da ficção brasileira

Áudio 03:59
Capa do livro "Desamores da portuguesa" e página de apresentação do site do projeto Portugueses de papel.
Capa do livro "Desamores da portuguesa" e página de apresentação do site do projeto Portugueses de papel. © Arquivo pessoal / Captura de tela

“Portugueses de papel” faz parte do Brasil: literatura, memória e diálogos com Portugal, um grupo de investigação que integra o Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias (CLEPUL) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. O projeto consiste num dicionário online de personagens portuguesas da ficção brasileira, que é constantemente atualizado. A iniciativa envolve cerca de 150 pesquisadores ligados a universidades da Europa, do Brasil e dos Estados Unidos.

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De Lisboa, Fábia Belém.

Na lista do projeto estão romances, novelas e contos da ficção brasileira escritos desde o século XIX. Os pesquisadores já leram e analisaram mais de 1.350 obras. Destas, 131 trazem personagens portuguesas - cerca de 10% do que foi lido até o momento. E foram esses livros que ganharam sínteses - verbetes redigidos pelos pesquisadores, e publicados no dicionário do site do Portugueses de papel. Além da riqueza de informações sobre a obra, cada verbete traz um estudo apurado das personagens nascidas em Portugal.

Quem coordena o projeto é a professora aposentada Vania Pinheiro Chaves, carioca que vive há 48 anos em Lisboa. Responsável pelo grupo de Investigação Brasil: literatura, memória e diálogos com Portugal, ela conta que o “Portugueses de papel” é um sonho antigo.

Profª. Vania Pinheiro Chaves
Profª. Vania Pinheiro Chaves © Arquivo pessoal

“Isso nasceu há muitos e muitos anos na minha cabeça, a ideia de estudar essa presença portuguesa na literatura brasileira, até porque, sendo eu uma professora brasileira residente e trabalhando em Portugal, o interesse pelas relações luso-brasileiras foi uma constante no meu trabalho. Só que eu não tinha tempo pra me dedicar a isso”, lembra.

O sonho da década de 70 da professora e pesquisadora só começou a ganhar forma em 2010, quando o assunto foi acolhido como tema do pós-doutorado do então estudante Juvenal Batella, também brasileiro e criador do nome “Portugueses de papel”. Em 2013, o projeto foi finalmente oficializado, e desde então vem sendo coordenado por Vania Pinheiro Chaves, a partir do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias (CLEPUL) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Além de trabalhar na coordenação, ela também divide a direção do projeto com as professoras Jacqueline Penjon (Sorbonne Nouvelle) e Ana Maria Lisboa de Mello (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Pinheiro Chaves salienta que o interesse do projeto não é, apenas, a “alta literatura”, mas tudo o que foi produzido no Brasil. Ela conta que a lista de livros tem crescido muito graças a pesquisadores que descobrem escritores de determinados estados, cujas obras não constam da história da literatura brasileira. 

“São autores que desapareceram, que ficaram esquecidos porque não vieram daquele centro Rio - São Paulo, que é o grande centro de produção. [Eles] editaram localmente, foram conhecidos no seu tempo, hoje em dia são desconhecidos.”

Desamores da portuguesa

Das 356 personagens portuguesas encontradas até hoje pelos pesquisadores do projeto, sete estão no romance “Desamores da portuguesa”, publicado em 2018 pela Ímã Editorial. A obra é da jornalista e escritora pernambucana Marta Barbosa Stephens, que há sete anos vive em Inglaterra.

A Escritora e jornalista Marta Barbosa Stephens e seu livro "Desamores da portuguesa"
A Escritora e jornalista Marta Barbosa Stephens e seu livro "Desamores da portuguesa" © Arquivo pessoal

A decisão de criar uma história com forte presença de personagens nascidas em Portugal se deve a um encontro da escritora com uma portuguesa que vivia há alguns anos em Inglaterra.

“Não é a portuguesa do meu livro, mas me chocou profundamente quando ela me falou que não falava inglês, e que continuava sobrevivendo ali há cinco anos convivendo só com os familiares, com um pequeno grupo”, explica Stephens.

Ela conta que o seu romance, além de trazer experiências de amor e desamor, revela “como pano de fundo” as vivências do que é ser imigrante e “da importância de falar o idioma e de entender as pessoas ao seu redor”.

Ao destacar a importância do “Portugueses de papel”para a literatura contemporânea brasileira, a escritora sublinha que “a gente tem que se aproximar mais, entender cada vez mais que a unidade da língua nos permite sermos maiores e mais fortes”.

A professora e pesquisadora gaúcha Débora Mutter foi quem leu, analisou e escreveu o verbete sobre o livro “Desamores da portuguesa”. Integrante do projeto “Portugueses de papel” desde 2019, ela diz que a presença portuguesa nas obras dos séculos XX e XXI revela-se, em geral, por meio de personagens secundários.

Profª. Débora Mutter
Profª. Débora Mutter © Arquivo pessoal

“Aparecem sempre alguns personagens um pouco estereotipados - o português da padaria, da mercearia. E a portuguesa, no caso [do livro ] da Marta, ela rompe esses estereótipos. Por isso eu me interessei tanto por ela”, explica.

Contribuições

Na opinião de Débora Mutter, os verbetes acabam por estimular as pessoas a quererem ler os livros, “e a partir do livro vão conhecer muito mais daquilo que aquele livro traz, que é o universo de Portugal, do Brasil. Enfim, eu acho que nós estamos, dessa forma, contribuindo para ambos os países.”

Para a coordenadora do projeto, professora Vania Pinheiro Chaves, as contribuições são muitas. Ela destaca, primeiro, o poder que o “Portugueses de papel” tem de repor, na história da literatura brasileira, obras de ficção em prosa já esquecidas, “que tiveram alguma importância na sua época ou nem isso, mas que existiram”. Ela ainda chama a atenção para o fato de a iniciativa também permitir o acesso a uma vasta fonte de conhecimento.

“Permitir que outros pesquisadores estudem essas obras, estudem essas personagens e façam variados tipos de trabalhos - trabalhos que não são só literários, também podem ser sociológicos, também podem ser históricos”, sugere.

E se alguém pensa que o “Portugueses de papel” tem data para terminar, Vania Pinheiro Chaves avisa: “O nosso projeto não tem data para terminar. Se alguém quiser poderá continuar quando eu parar de trabalhar, porque a literatura brasileira não para de produzir. A base de dados está no ar, e tem a possibilidade de crescer com qualquer outro pesquisador de qualquer lugar do mundo que esteja interessado em dar continuidade a esse projeto.”

Um sonho de uma carreira

Tendo pensado, na década de 70, “num trabalho desse gênero, que ligasse Brasil e Portugal”, conta a professora Vania: “São 50 anos a pensar o que é que se podia fazer pra relacionar o Brasil e Portugal do ponto de vista literário. Então, ter conseguido realizar esse projeto, eu acho que foi, pronto, um sonho de uma carreira, não é?”.

Sim, um grande sonho realizado.

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