Cultura

HQ francês mostra visão de europeus dos linchamentos de rua no Brasil

Áudio 09:03
Capa do HQ "Lynchages Ordinaires" (Linchamentos Ordinários, em tradução livre) publicado pela editora francesa La Boîte à Bulles.
Capa do HQ "Lynchages Ordinaires" (Linchamentos Ordinários, em tradução livre) publicado pela editora francesa La Boîte à Bulles. © Reprodução

A editora francesa La Boîte à Bulles lançou recentemente a obra "Lynchages Ordinaires" (Linchamentos Ordinários, em tradução livre), uma história em quadrinhos que fala sobre esse violento fenômeno de rua no Brasil e faz um paralelo com os cancelamentos on-line, que se tornaram comuns nas redes sociais.

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O livro traz a história de Johan, um ativista ambiental francês que resolve viajar ao Brasil depois de uma ruptura amorosa. Em pleno Carnaval, ele desembarca no Rio de Janeiro, onde é testemunha de um linchamento na rua.

Na capital fluminense, ele conhece Marcela, uma brasileira que milita contra a violência urbana. Ao ser estimulado a denunciar as cenas que vivenciou, Johan é levado a uma reflexão sobre as consequências de seu próprio comportamento nas redes sociais.

Para realizar o projeto, os dois autores da história - Léa Ducré e Benjamin Hoguet - e as quadrinistas Héloïse Chochois e Victoria Denys viajaram ao Rio de Janeiro em fevereiro de 2018. Lá, eles se encontraram com a jornalista francesa Morgann Jezequel, que apoiou a redação do roteiro.

Cena do HQ "Lynchages Ordinaires" (Linchamentos Ordinários, em tradução livre), da editora francesa La Boîte à Bulles.
Cena do HQ "Lynchages Ordinaires" (Linchamentos Ordinários, em tradução livre), da editora francesa La Boîte à Bulles. © La Boîte à Bulles

Hoguet contou à RFI que a motivação surgiu sobre o interesse em comum sobre multidões. "É verdade que quando se fala de multidão e Brasil, a gente pensa na alegria do Carnaval. E foi impactante para nós, como europeus, descobrir que no Brasil há todo esse fenômeno de massa gerado por falhas da Justiça do Estado, que se transforma em justiça popular", diz.

O desafio do grupo de entender a complexidade dos linchamentos de rua e suas causas está retratado no livro. "Neste mês que passamos no Rio, começamos a falar com brasileiros para compreender melhor tudo isso. E isso se reflete na escolha do personagem principal do livro, um jovem francês, que chega ao Brasil e descobre esse fenômeno: o que é um pouco o espelho da nossa experiência por lá", afirma o co-autor da obra.

Paisagens, arquitetura e Carnaval do Rio

As quadrinistas Héloïse Chochois e Victoria Denys assinam a parte gráfica de "Lynchages Ordinaires". Para retratar as paisagens, a arquitetura e o Carnaval do Rio, um longo trabalho foi realizado pelas desenhistas.

"Durante esse mês no Rio, em fevereiro de 2018, pudemos entrevistar várias pessoas. Também fizemos pesquisas, fotos e colhemos informações para que pudéssemos desenhar a cidade. E quando voltamos à França começamos a colocar no papel as diferentes histórias que recolhemos por lá", conta Victoria.

Héloïse destaca uma particularidade deste trabalho realizado "a quatro mãos": "O que nos interessou como tema e também de maneira gráfica foram as multidões e o anonimato dentro delas. Foi uma temática que nos sensibilizou e que pudemos desenvolver: as diferenças entre uma multidão extremamente feliz no Carnaval do Rio e uma multidão impulsionada a cometer violências por uma reação de massa, de forma anônima".

HQ conta a história de Johan, ativista ambiental francês que visita o Rio de Janeiro.
HQ conta a história de Johan, ativista ambiental francês que visita o Rio de Janeiro. © La Boîte à Bulles

Já a jornalista francesa Morgann Jezequel, radicada no Rio de Janeiro, apoiou a redação do roteiro do HQ, fornecendo elementos para a contextualização do grupo, além de fazer a seleção das entrevistas que ajudaram na criação dos personagens e nas histórias vividas por eles na obra.

"A equipe nunca tinha pisado no Brasil, então precisei explicar o funcionamento da justiça brasileira, as relações entre as diferentes classes de população no Brasil, a atuação da polícia... Eu já estava há um tempo no Brasil e já tinha assistido a cenas de linchamento e tinha impedido também linchamentos de acontecer", salienta.

Para Morgann, o fenômeno tanto assusta quanto instiga: "Foi interessante esse trabalho para entender as razões de porque o Brasil tem recordes de linchamentos populares por ano. Também foi uma época de uso intenso das redes sociais e de linchamentos virtuais. Na época, a gente ainda não falava 'cancelamento', mas era isso que acontecia com as pessoas na internet".

Cena de um linchamento de rua no HQ "Lynchages Ordinaires".
Cena de um linchamento de rua no HQ "Lynchages Ordinaires". © La Boîte à Bulles

Assassinato de Marielle Franco

"Lynchages Ordinaires" também trata de um fato que chocou o mundo em 2018, o assassinato da vereadora Marielle Franco. "Também quisemos falar de Marielle Franco porque é alguém que, através de sua vida e - infelizmente - através de sua morte, também conseguiu reunir multidões em torno de algo positivo: a defesa de reivindicações importantes", afirma Benjamin Hoguet.

Segundo o co-autor do HQ, trazer a história da vereadora dá ao livro "um clima de esperança". "Nosso objetivo é mostrar que a multidão pode ser nefasta - como nos casos de linchamentos - mas também pode ser extremamente positiva quando se reúne em torno ideais importantes, como os defendidos por Marielle Franco", conclui.

"Lynchages Ordinaires" retrata a imensa comoção que a morte de Marielle Franco gerou no Brasil.
"Lynchages Ordinaires" retrata a imensa comoção que a morte de Marielle Franco gerou no Brasil. © La Boîte à Bulles

 

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