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Economia

Embaixador do Brasil na França aposta em mudança no comando do Congresso para destravar reformas

Áudio 04:52
Luís Fernando Serra, embaixador do Brasil na França.
Luís Fernando Serra, embaixador do Brasil na França. © RFI
Por: Maria Paula Carvalho
12 min

No momento em que divergências afligem as relações entre o Brasil e a França, um encontro virtual promovido para celebrar os 12 anos da Câmara de Comércio do Brasil na França (CCBF) nesta segunda-feira (14) procurou acalmar os investidores estrangeiros e destacar os pontos de convergência entre os dois parceiros.

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O presidente do conselho de administração da francesa Engie, do ramo de energia, e atual presidente da CCBF, Jean-Pierre Clamadieu, lembrou que o Brasil recompensa investidores de longo prazo. Ele citou o exemplo de uma das precursoras do ramo farmacêutico a se lançar no mercado brasileiro. “O Brasil sempre reconheceu os investidores fiéis de longo termo. A Rhône-Poulenc no Brasil é uma história que começou em 1916 ou 1917, acompanhou vários períodos da economia e continuou sendo uma das joias desse grupo. O Brasil sabe recompensar aqueles que têm visão de longo termo e são fiéis”, afirmou.

“Hoje, eu sou presidente do conselho de administração da Engie, para quem o Brasil é muito importante. Em termos de contribuição de resultados, é o segundo país para o grupo", revelou Clamadieu, acrescentando que “o ambiente de negócios brasileiro é de grande qualidade e com um grande potencial de crescimento”.

Para o executivo, “a visão do Brasil pode ser diferente para quem está há mais tempo no país e para quem quer entrar agora e tem a impressão de ser um mercado complexo.”  O empresário ainda destacou a importância de o Brasil seguir em frente com as reformas tributária e fiscal para incentivar o avanço econômico.

Presidente da CCBF, Jean-Pierre Clamadieu
Presidente da CCBF, Jean-Pierre Clamadieu © CCBF

Objetivo: dobrar o volume negociado

Durante o evento, o embaixador do Brasil na França, Luís Fernando Serra, lançou o objetivo de dobrar o atual volume de comércio bilateral e alcançar novamente a marca de US$ 10 bilhões, atingida em 2013. Hoje, o fluxo comercial está abaixo de US$ 5 bilhões, o que Serra considera aquém das potencialidades de ambos os países.

“Atualmente, o déficit da balança comercial entre Brasil e França é de cerca de US$ 1 bilhão. Isso representa muito pouco se comparado ao superávit de US$ 47 bilhões na balança comercial do Brasil”, comparou. “Eu prefiro ter um déficit duas vezes maior do que um fluxo parado como está hoje, estimado em US$ 5 bilhões”, afirmou o embaixador.

Mesmo citando as previsões de queda no PIB e o aumento do desemprego, Serra apresentou uma visão otimista para 2021, ao enumerar dados da economia brasileira que possam orientar e atrair investidores franceses. O embaixador citou que “a taxa Selic deve ficar em 2% em 2021, a inflação prevista pelo Banco Central é de 3,54% ao fim de 2020, portanto abaixo da meta de 4% fixada pelo governo” e que o país tem “reservas internacionais de US$ 355 bilhões”.

Luís Fernando Serra também destacou o crescimento de 7,7% da economia brasileira no terceiro trimestre deste ano e o recente desempenho positivo da Bovespa. “É com convicção que eu afirmo que o ano de 2021 será o da recuperação econômica para o país e que o mercado brasileiro continuará a ser estratégico para as empresas francesas”, disse.

Ambiente político mais favorável

Atualmente, os investimentos franceses no Brasil somam cerca de US$ 37 bilhões. Os empresários esperam por reformas que possam destravar a economia. Sobre a aprovação de tais medidas necessárias para o crescimento do Brasil, o embaixador revelou esperar um ambiente político mais favorável no Congresso Nacional a partir do ano que vem.

“Há três canteiros de reformas nesse momento no Brasil: fiscal, administrativa e política. Eu creio que haverá condições mais favoráveis, a partir de fevereiro, com as eleições para a presidência da Câmara dos Deputados e do Senado. Vai depender do resultado dessas eleições, mas o governo federal tem esperança de que a nova presidência da Câmara seja mais favorável ao governo do que a atual”, explica.

“Nós sabemos bem que o presidente da Câmara dos Deputados tinha a esperança de se tornar uma espécie de primeiro-ministro, quando o Brasil é um país presidencialista”, observa Serra. “Não há primeiro-ministro no Brasil, mas o presidente da Câmara dos Deputados age como se assim fosse”, acrescentou, sem citar o nome de Rodrigo Maia (DEM).

Serra ainda recomendou aos investidores estrangeiros a estarem atentos às “oportunidades de investimento que surgirão em 2021”. De acordo com o embaixador, um programa de parceria de investimentos (PPI) deverá alavancar negócios em 24 setores-chave como produção e distribuição de energia, petróleo e gás e mobilidade urbana. Serra também citou um futuro plano de privatizações de empresas deficitárias.

O embaixador do Brasil na França, Luís Fernando Serra
O embaixador do Brasil na França, Luís Fernando Serra © Arquivo Pessoal

Amazônia, sempre um assunto quente

Quando questionado se as ações do governo brasileiro em relação à Amazônia poderiam afetar as relações internacionais, Luís Fernando Serra saiu em defesa do Executivo. “O governo Bolsonaro não mudou nada no Código Florestal brasileiro, que é de 2012, e que reserva 80% do bioma da Amazônia. Um proprietário rural na Amazônia só pode cultivar 20% da sua propriedade. Isso é único no mundo e nos faz crer que a Amazônia continuará como está por muitos anos,” respondeu o embaixador do Brasil na França.

Enquanto isso, na Europa, entidades ligadas à preservação ambiental pedem ações concretas contra as queimadas e, inclusive, ameaçam a recusa do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, assinado no ano passado entre os dois blocos. 

“Não há uma política de Estado de desmatar a Amazônia, porque nós seguimos o Código Florestal. Sabemos que muitas ONGS não conhecem a realidade de 23 milhões de brasileiros que habitam a Amazônia. Muitos pensam que há um vazio demográfico na região e que só há 700 mil indígenas lá. Mas isso não é verdade, pois há uma população quase do tamanho da população da Austrália”, explica Serra.

“Se não há atividade econômica para essas pessoas ou um prêmio para a preservação da floresta, elas vão desmatar, porque essas pessoas conhecem o preço da madeira, que é preciosa. Para preservar a floresta, eles têm de ter outra coisa a mais para fazer do que desmatar”, admite.

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