Acessar o conteúdo principal
Esportes

Conhecidos pela boa preparação, técnicos europeus são tendência no futebol brasileiro

Áudio 06:40
O ex-técnico do Flamengo, Jorge Jesus, festejando junto aos jogadores do Flamengo após vencer a final do campeonato estadual do Rio de Janeiro no estádio do Maracanã, Rio de Janeiro, Brasil, quarta-feira, 15 de julho de 2020. O Flamengo venceu por 1x0.
O ex-técnico do Flamengo, Jorge Jesus, festejando junto aos jogadores do Flamengo após vencer a final do campeonato estadual do Rio de Janeiro no estádio do Maracanã, Rio de Janeiro, Brasil, quarta-feira, 15 de julho de 2020. O Flamengo venceu por 1x0. AP - Leo Correa
Por: Tiago Leme
16 min

Ao fim do primeiro turno do atual Campeonato Brasileiro, os três primeiros colocados na tabela têm técnicos estrangeiros. Neste momento, seis dos 20 clubes da Série A são treinados por profissionais vindos de outros países, um recorde no Brasil. Essa “invasão” gringa tem muito a ver com o sucesso do português Jorge Jesus no Flamengo no ano passado, trabalho que deixou o time carioca um patamar acima dos adversários e rendeu cinco títulos, incluindo a Taça Libertadores da América.

Publicidade

A reportagem da RFI conversou com alguns jornalistas e pessoas ligadas ao futebol para tentar entender qual é o grande diferencial dos treinadores estrangeiros, em relação aos brasileiros. Entre as principais virtudes citadas, estão o maior estudo em busca de novas teorias e modernidades, e também um jogo com maior intensidade e mais variações táticas em campo.

Jorge Jesus saiu e voltou para o Benfica, mas o Flamengo contratou o espanhol Domènec Torrent, e o clube do Rio de Janeiro está nas três primeiras posições do Brasileirão, junto com o Internacional, treinado pelo argentino Eduardo Coudet, e o Atlético-MG, dirigido pelo também argentino Jorge Sampaoli, que já tinha se destacado no Santos em 2019. Além deles, na última semana o Palmeiras apresentou o português Abel Ferreira, que chegou para substituir Vanderlei Luxemburgo. O Vasco também é comandado por um português, Ricardo Sá Pinto, enquanto o Botafogo acabou de contratar o argentino Ramón Díaz. Já o Santos começou o campeonato sob o comando do português Jesualdo Ferreira, que acabou demitido e deu lugar a Cuca.

O jornalista brasileiro Bruno Andrade, que mora em Lisboa e acompanha de perto o futebol português, lembrou que times brasileiros já há algum tempo apostam principalmente em técnicos argentinos e uruguaios. Entre os exemplos estão nomes como Filpo Nuñes no Palmeiras dos anos 1960 e 1970, Daniel Passarella no Corinthians em 2005 e mais recentemente Diego Aguirre no Inter, Atlético-MG e São Paulo, entre vários outros. No entanto, a presença de mais europeus no país agora, o que era raro, é uma novidade interessante. Antes, poucos passaram pelo Brasil, como o alemão Lothar Matthäus, no Atlético-PR, os portugueses Paulo Bento no Cruzeiro e Sérgio Vieira no Athletico-PR e o húngaro Béla Guttmann no São Paulo nos anos 50.

“Já não é de hoje que o futebol do Brasil aposta bastante em treinadores sul-americanos, mas é bem verdade e é impossível não relacionar, o fato de hoje os clubes no Brasil olharem com carinho para treinadores europeus. Tem tudo a ver com aquilo que fez muito bem o Jorge Jesus no Flamengo. É impossível mesmo não relacionar isso. O que o Jesus fez e o legado que deixou tem feito com que os clubes grandes do Brasil apostem em treinadores europeus. O próprio Flamengo quando perde o Jesus para o Benfica define que o novo treinador tem que ser europeu, preferencialmente português. Lá atrás tentou o Carlos Carvalhal, não conseguiu e daí em diante foi atrás do Domènec Torrent”, afirmou.

Portugal tem tradição em técnicos

Bruno explicou que Portugal tem tradição de exportar técnicos há décadas já, não só agora para o Brasil, mas também para outros países da própria Europa, da África e da Ásia.

“Em relação àquilo que os portugueses entregam, diferentemente por exemplo do treinador brasileiro, eu vejo que a escola portuguesa é do plano teórico, há muitos anos que o futebol português cresceu por conta disso, do estudo, de modernizar, de buscar novas práticas. Isso foi colocado em prática lá atrás ainda, há muito anos, mais ou menos uns 30 anos, com o Jesualdo Ferreira e também com o Carlos Queiroz, hoje treinador da seleção colombiana. Foram eles que trouxeram esse perfil do português de estudar mais, de buscar novidades, de buscar se informar, não à toa são chamados de professores. E toda essa juventude, essa geração de treinadores portugueses que começa lá atrás com José Mourinho e Jorge Jesus, e hoje passa por Abel Ferreira, Nuno Espírito Santo, Leonardo Jardim, o Luís Castro também no Shakhtar Donetsk, o Pedro Martins no Olympiacos. Ou seja, todos esses treinadores jovens e promissores do futebol português olham com carinho essas referências. Porque são treinadores que, claro, na prática também são muito bons, mas acima de tudo são teóricos, tem aquele lado acadêmico de estudar, de se modernizar, então eu vejo que isso é o grande diferencial do treinador português”.

Muitos técnicos do Brasil são criticados justamente por não terem métodos de trabalho atualizados, por estudarem pouco inovações táticas e ficarem presos ao passado. O jornalista Pedro Henrique Torre, repórter da ESPN Brasil e que vive o dia a dia do Flamengo, também destacou o jogo mais ofensivo e mais coletivo dos técnicos estrangeiros, e essa superioridade sobre os brasileiros.

“Por que essa onda de técnicos estrangeiros no Brasil? Acho que essa pergunta nem é muito difícil de responder, simplesmente por causa da defasagem dos técnicos brasileiros, baseados em um modelo de jogo apenas. Um jogo mais feio, um jogo mais retrancado, baseado mais nos contra-ataques, com algumas individualidades, do que um jogo coletivo bem jogado, ao contrário do que acontece no mundo. Você vê belas equipes no mundo destacadas por isso já há bastante tempo. Você tem o Manchester City com o Guardiola, o próprio Barcelona do Guardiola, há muito tempo atrás. O Bayern atualmente, que teve uma passagem com o Guardiola, mas esse último desempenho na Champions, um time muito coletivo, lembrando também a própria seleção alemã em 2014, que era muito coletiva, sem nenhuma individualidade fora do eixo. Então, por isso há essa enxurrada, não se acredita mais que o técnico brasileiro é capaz de promover mudanças, um futebol mais atualizado que possa superar com ideias o seu adversário. Os estrangeiros vieram para cá, começaram a fazer sucesso com o Jorge Jesus e o Sampaoli também distribuindo um jogo coletivo muito bom, então por isso essa aposta de grande parte dos clubes brasileiros nesses treinadores estrangeiros. É difícil a gente generalizar uma categoria inteira, mas acredito também que de fato os treinadores estrangeiros são bem mais preparados que a grande maioria dos brasileiros”.

Pedro ainda apontou que a intensidade com o que o Flamengo de Jorge Jesus jogava era muito acima do que normalmente ocorre nas equipes do futebol brasileiro.

“O que mais me impressionou no trabalho do Jorge Jesus, que foi de um nível de excelência realmente absurdo, deixou o Flamengo com mais títulos, cinco, do que derrotas, que foram quatro, em pouco mais de um ano de trabalho. O que mais me impressionou foi que ele cumpriu o que ele disse tão logo ele chegou no Brasil. Ele falou: ‘quero um time com mais intensidade sem a bola, uma grande organização defensiva’. Então foi isso que ele promoveu aqui, era um Flamengo muito intenso, que atropelava os rivais, esse nível de intensidade ficou muito distinto para o nível que era apresentado aqui no Brasil. Tanto que fez subir um pouco o sarrafo para este ano. Acho que a grande diferença deles para os brasileiros é esse entendimento tático do jogo, eles observam melhor a partida, têm ideias, têm variações. O Flamengo do Jorge Jesus e tanto com o Domènec Torrent, embora em níveis diferentes, eles variam de 4-4-2 para 4-2-3-1, eles apelam para um 3-5-2, no meio da partida mesmo eles conseguem ter uma variação e se adaptar melhor aos adversários, embora tenham distinção em relação ao trabalho do português e do catalão”, completou.

Apresentado no Palmeiras durante a última semana, o jovem técnico Abel Ferreira, de 41 anos, chamou a atenção pelo bom trabalho que realizou no Braga, de Portugal, e depois no PAOK, da Grécia. Antes dele, porém, o clube paulista quase acertou com outro europeu, o espanhol Miguel Ángel Ramírez, que está no Independiente del Valle, do Equador. Em entrevista coletiva, Abel falou sobre o segredo do sucesso da escola portuguesa, mas também elogiou os brasileiros. 

Individualidade e conhecimento compatilhado

“Partilha de conhecimento. O que eu quero dizer com partilha de conhecimento? Eu posso dizer que tive o Guto Ferreira a festejar comigo em Portugal, no Braga. Tive o Thiago Larghi e outros treinadores, como eu fiz, fui ver grandes treinadores também treinar, como nós portugueses fazemos, partilhamos ideias, conceitos, ideias de jogo, formas de atacar, formas de defender. Agora cada um, por isso que eu não gosto de me comparar com ninguém, porque eu sou eu, cada um depois gera o seu próprio conhecimento, cada um depois gera a sua própria ideia de jogo”, disse Abel.

Apesar dessa “invasão” estrangeira no Brasil, de fato é necessário analisar o trabalho de cada treinador individualmente. Nem todos terão o mesmo desempenho de Jorge Jesus e alguns podem fracassar. Os próprios portugueses fazem um alerta quanto a isso, como contou Bruno Andrade.

“Os treinadores portugueses treinadores olham para o Brasil como um mercado muito interessante, por estar frente a frente com o país que mais entrega mão de obra, no caso jovens jogadores com muito talento. Em relação aos jornalistas, torcedores, olham essa onda com um pouco de reticência, até porque acham que muito disso é claro, acontece por conta daquilo que o Jorge Jesus fez, mas há aqui um temor por parte dos portugueses de que o brasileiro olhe para Portugal e ache que qualquer treinador português vai funcionar bem no Brasil, que qualquer treinador português é bom. A escola é muito boa, é verdade, mas há exceções, há treinadores portugueses que não têm um perfil interessante, que não têm bons trabalhos. Eles temem um pouco que o Brasil exagere em buscar muitos treinadores portugueses somente pelo sucesso do Jorge Jesus, e não por aquilo que esses treinadores de fato podem entregar”.

 

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.

Página não encontrada

O conteúdo ao qual você tenta acessar não existe ou não está mais disponível.