Esportes

"Quero defender a seleção argentina", diz primeira jogadora transgênero profissional do futebol feminino do país

Áudio 06:00
Mara Gómez tornou-se a primeira jogadora trans no futebol feminino da Primeira Divisão
Mara Gómez tornou-se a primeira jogadora trans no futebol feminino da Primeira Divisão © Cortesía de Mara Gómez

Mara Gomez entrou para a história do futebol da Argentina ao ser a primeira jogadora transgênero a disputar a principal liga feminina do país como profissional. Pouco mais de um mês de sua celebrada estreia nos gramados, ela falou em uma entrevista exclusiva à RFI por que escolheu o futebol como esporte, lembrou da longa trajetória de luta contra as discriminações e ainda seu grande sonho, o de defender a seleção feminina argentina. 

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“ Foi exatamente numa fase da minha vida em que me encontrava emocional e psicologicamente mal, por questões que tinham a ver com as discriminações e preconceitos que vivia no dia a dia. Eu estava em um estágio de transição com a percepção de mim mesma, com minha sexualidade, com meu gênero”, diz.

Nesta fase em que se sentia “bastante vulnerável emocionalmente”, a jovem lembra que recorreu inicialmente ao futebol como uma terapia. “Percebi que era bom para mim porque às vezes me fazia esquecer muitas coisas. Sempre disse que era como um anestésico para a dor porque me sentia mal. Encontrei no futebol um controle emocional que era o que eu precisava, e se tornou um vício. Precisava praticá-lo para ficar bem e até hoje é um estilo de vida para mim”, declarou na entrevista por telefone ao ao jornalista Carlos Pizarro da RFI.

Mara Gomez diz que na época não sabia muito bem praticar o esporte, mas o fato de se sentir acolhida  no grupo de amigas a fez continuar no futebol. Aos 18 anos, ela disputou sua primeira competição de uma liga amadora de futebol feminino. No currículo estão passagens por várias equipes até o convite de um contrato pelo clube atual, o Villa San Carlos, da 1ª divisão, que precisava reforçar a equipe para escapar do rebaixamento. Mas havia um obstáculo: o reconhecimento como profissional. O processo burocrático foi longo. Começou em janeiro, foi interrompido pela pandemia e só retomado no final do ano passado. Com o sinal verde da Federação Argentina de Futebol (AFA) ela pode estrear no dia 7 de dezembro do ano passado.

“Foi um processo de aprendizagem para mim, como jogadora de futebol e como pessoa. E tive a oportunidade de ser aceita pela Federação de futebol argentina para poder fazer parte do futebol profissional. Isso mostra uma evolução social, em questões de direito e conquistas. Este é o resultado de anos de luta de gerações passadas que lutaram para serem reconhecidas e reconhecidas na sociedade”.

A decisão da Federação Argentina de Futebol está amparada em uma lei de identidade de gênero adotada no país em 2012 e considerada uma das mais avançadas do mundo. A lei permite às pessoas transgênero que sejam tratadas de acordo com o gênero com o qual elas se identificam. A lei garante de maneira mais simples e gratuita a retificação do sexo e mudança de nome e de gênero nos documentos administrativos.

“Hoje aqui na Argentina temos uma lei de identidade de gênero que nos protege, que diz que devemos ser tratados em qualquer instituição pública ou privada de acordo com a própria percepção que temos. Eu me vejo como uma mulher. Este é o início de um futuro melhor para as próximas gerações. O futebol para mim, além de competitivo, pode ser uma área de inclusão, de controle emocional, de disciplina, cumpre muitas funções”, diz.

Vantagem física

Além da Lei de Identidade de Gênero, a equipe de Villa San Carlos também ficou otimista na autorização da Federação Argentina porque os testes comprovaram que os níveis de testosterona em mara Gomez estavam no limite autorizado para as atletas do futebol feminino. A jogadora contesta também as críticas de quem vê uma suposta vantagem física nos atletas transgênero.

“Infelizmente, quando fazem uma avaliação biológica, chegam à conclusão de que o corpo do homem tem certas vantagens físicas, como velocidade e força, o que seria uma vantagem para competir com as mulheres. Mas isso é apenas um paradigma, pois mesmo que tenhamos velocidade e força por natureza, isso não significa que sejamos um bom jogador de futebol ou de qualquer esporte sem praticá-lo. Cada jogador, jogadora ou atleta tem que ter experiência, através do treinamento”, defende

“Existem muitos jogadores que têm mais vantagens físicas como altura ou massa muscular, mas marcam a diferença pelas qualidades e técnicas que possuem como atleta. E além disso, o futebol é um esporte coletivo, não se trata de quem corre mais rápido ou bate com mais força na bola, mas qual time faz o gol. São muitas as questões que devem ser superadas a partir desses paradigmas, da suposta vantagem. Se uma equipe feminina que está há muitos anos jogando na primeira divisão de uma liga é colocada para jogar com uma equipe masculina que não joga futebol, a vantagem é para as mulheres pela experiência, pelo treinamento, pela qualidade do jogo”,acrescenta.

Como sinal de respeito, apoio e boas vindas ao futebol profissional feminino, na partida de estreia da jogadora, em 7 de dezembro, Mara Gomez recebeu uma camiseta com o número 10 da equipe adversária, Lanus. Um gesto muito simbólico que emocionou a atleta. A partida terminou com uma goleada de 7 a 1 do Lanus sobre o Villa San Carlos,  equipe de Mara Gomez.

Mas a partida entrou para a história não pelo placar. Consciente de que se tornou uma referência para muitas pessoas transgêneros, a não apenas no seu próprio país, Mara Gomez espera que sua trajetória abra muitas portas para outras gerações e sirva para combater a discriminação contra as pessoas trans não apenas no esporte, mas em toda a sociedade 

“Cabe a mim ser uma referência mundial, não só como jogadora de futebol, mas como pessoa. Através da minha história, para que as pessoas comecem a conhecer minha luta, e ver o quanto foi difícil chegar aqui. Como jogadora trans, uma pessoa trans, também sou uma referência para as evoluções sociais. Hoje represento uma evolução no meu país, talvez internacional e espero que minha história e meu nome viajem pelo mundo e por outros países”, diz.

Sonho: defender seleção argentina

Aos 23 anos, a atacante espera mais do que ajudar seu time a se manter na Primeira Divisão do futebol feminino argentino. Ela tem ambição de jogar em outros países onde o futebol feminino é mais desenvolvido e, claro, como qualquer jogadora, vestir a famosa camiseta albiceleste. 

“É algo que eu adoraria, poder viajar e jogar em outros países. E talvez um dia representar a Argentina em uma competição internacional. Mas por enquanto continuo desfrutando dessa etapa, de atuar na principal divisão do país. Mas quero sim, ser uma jogadora de outros países e defender a seleção argentina”, conclui.

 

 

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