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Indicada para prêmio do World Games, seleção feminina de handebol de praia sonha com Olimpíada

Áudio 06:05
Seleção Brasileira de Beach Handball. Foto 2018
Seleção Brasileira de Beach Handball. Foto 2018 © folhadonoroeste.com.br/Arquivo pessoal

A seleção feminina de handebol de praia foi um dos destaques na competição promovida pela World Games para escolher o melhor atleta de todos os tempos. O prêmio é focado em talentos individuais, mas a seleção brasileira foi a única que concorreu como equipe e disputou indicações com atletas, entre homens e mulheres, de 37 modalidades esportivas. 

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Na votação popular realizada até janeiro, as brasileiras obtiveram um total 17.153  votos e, por pouco, não entram na lista dos dez finalistas que continuam na disputa pelo prêmio. Longe de gerar uma decepção, a simples indicação da seleção para concorrer ao prêmio da Word Games encheu de orgulho os que ajudaram a fazer dessa modalidade, ainda tão pouco reconhecida no Brasil, um exemplo de sucesso.

“É, sem dúvida, um reconhecimento muito importante para a gente. A eleição é pensada para escolher o atleta mais importante de todos os tempos, o mais vencedor. Colocar um time nesse rol de atletas é motivo de muito orgulho”, comenta Marcio Magliano, que durante dez anos foi o treinador da equipe e um dos maiores reponsáveis pela trajetória cheia de troféus e conquistas.

“Quem trabalha com esporte coletivo, passa a vida inteira pregando que o time é que vem primeiro, que é mais importante. E a gente ser reconhecido como time, e não como atleta, é algo extraordinário. Fiquei particularmente feliz por tratar a seleção brasileira como uma entidade única, como um trabalho em equipe bem feito”, acrescenta na entrevista por telefone em entrevista à RFI

Magliano diz que, como a eleição é por votação popular, um dos motivos para o número de votos da seleção brasileira não ter sido mais expressivo e não ter superado outros concorrentes é a pouca base de fãs desenvolvida no país. O esporte, para ele, ainda é muito desconhecido pelos próprios brasileiros.

"Uma grata surpresa"

A pivô Milena Alencar, que está na seleção há quase dez anos, também segue na mesma linha. Ela ajudou a erguer muitos troféus e não escondeu a surpresa em ver a presença da equipe na lista elaborada pelo comitê da World Games. 

“Foi uma grata surpresa e a gente compartilhou essa sensação de reconhecimento, porque a gente passa por muitas dificuldades e treina bastante. O cenário internacional na nossa modalidade vem ficando a cada ano mais difícil, e é mais difícil se manter no topo. Ter esse reconhecimento, entre tantas modalidades e dos naipes tanto masculino quanto feminino, o nosso time como coletivo se destacar e ter essa indicação é muito gratificante”, diz.

Sua companheira na seleção, Camila Ramos de Souza, também expressou sua satisfação em ver o nome na equipe lembrado pelo World Games. “O fato de sermos indicadas já foi bem satisfatório. Apesar de não termos ficados entre os dez, nesta competição de grande porte, de nível internacional, é bastante enriquecedor para nossa modalidade porque muita gente nem conhece”, afirma. 

 

Milena dos Anjos de Alencar
Milena dos Anjos de Alencar © Captura de tela

A seleção brasileira feminina de beach hand, como também é chamado o handebol de praia, é um fenômeno mundial nas quadras de areias. 

Das cinco edições do World Games, entre 2001 e 2017, a equipe conquistou medalhas em todas, sendo três de ouro e duas de bronze. A equipe também é tricampeã mundial, com títulos conquistados em 2006, 2012 e 2014.  

De onde vem o sucesso do handebol de praia do Brasil? Marcio Magliano atribui a dois fatores principais: o clima favorável para a cultura de praia em muitas cidades do país e a separação do handebol de praia do handebol indoor (quadra).

“Temos aqui no Brasil clubes, atletas e treinadores que se dedicam integralmente ao handebol de praia, que já não tem mais relação com handebol (de quadra). Ou se tem, é uma relação frágil, secundária e de lazer”, garante o treinador. “Como tem muitas pessoas se dedicando a isso e um clima que nos permite jogar o ano inteiro, a gente consegue fazer um trabalho de excelência a nível  mundial”, argumenta. 

Não é à toa, em sua opinião, que o Brasil desde 2005 no feminino e 2006 no masculino está no pódio de todas as competições. Mas dentro do país a estrutura ainda deve evoluir. No caso da modalidade feminina, são entre 25 e 30 clubes espalhados pelo país, com destaque para Rio de Janeiro, Paraíba e Rio Grande do Norte.

Sem patrocínio

Como o esporte é amador, clubes, muitos jogadores e dirigentes enfrentam dificuldades por falta de patrocínio, e acabam por meios próprios investindo na modalidade.

Com isso, as atletas da seleção brasileira não conseguem se dedicar 100% ao esporte e precisam conciliar suas atividades profissionais com os treinos. Milena Alencar, de 31 anos, que atua pelo clube APCEF da Paraíba, inclui os treinos na sua rotina de fisioterapeuta, sua atividade profissional.

“É muito difícil viver do handebol de areia. Temos que tocar nossa vida do lado profissional, sem deixar de se dedicar para ser um atleta de alto rendimento e se manter no topo. Esse contexto acaba sendo bem puxado e sacrificante. Então quando estamos numa competição e conseguimos estar no pódio, trazer um resultado para o Brasil e ter reconhecimento, e ver essa indicação para esse prêmio do World Games, a gente vê que o esforço é recompensado”. 

Camila, que começou cedo a jogar handebol de quadra antes de optar pelo beach hand, diz que ainda nos tempos de estudante precisou conciliar as atividades da faculdade de Arquitetura com os treinos e as viagens para participar dos jogos no circuito internacional. Desde que se mudou para Orlando, nos Estados Unidos, precisou se adaptar ainda mais ao calendário da seleção devido a distância. “De início foi complicado conciliar, eu estando aqui e elas, de longe. Quando morava no Brasil, treinava todos os dias, e estando aqui ficou um pouco mais complicado, mas agora está mais tranquilo”, afirma a jogadora que também é arquiteta. 

Marcio Magliano
Marcio Magliano © Captura de tela

Superando dificuldades

O handebol de praia enfrenta ainda a concorrência com o de quadra, ambos vinculados à Confederação Brasileira de Handebol (CBHd). A entidade enfrentou problemas de direção nos últimos anos, com trocas de dirigentes e afastamentos por decisão da justiça. O cenário turbulento repercutiu no planejamento das equipes nacionais. 

Para Magliano, a CBDh tem dado apoio nos últimos 20 anos, com tempo mínimo de treinamentos e estrutura para participação. Mas nas últimas competições faltou dinheiro e investimentos. A seleção feminina teve que se virar atrás de apoio para participar dos World Games em 2017, que terminou como campeã, e do Mundial da Rússia, em 2018. 

“Foi um sacrifício muito além do razoável. Mas foram casos pontuais. Mesmo assim demos um jeito de ir e atrair bons resultados”, lembra o treinador.

“A dificuldade é que não temos nem verba nem incentivos, tem política envolvida. Se tivéssemos mais incentivo, seria melhor”, aponta Camila. 

Com as competições suspensas em 2020, por causa da pandemia, a expectativa é que o processo de vacinação permita viabilizar novas competições no circuito.

Visibilidade e Olimpíada

Magliano, que deixou o cargo em meio à situação conturbada da presidência da confederação, aguarda a eleição do novo presidente da entidade, prevista para o início de fevereiro, para saber se voltará a dirigir a seleção feminina. “Estou sem expectativa, mas se receber o convite, estou a fim de voltar, claro”, diz, esperançoso. 

A motivação do treinador se explica não apenas pela dedicação dos últimos anos, como também pelo potencial de desenvolvimento da modalidade no país. O Brasil já sediou muitas competições com sucesso de público, como o Mundial de 2014, mas ainda falta visibilidade na mídia para popularizar e conquistar mais apoio.

“É um esporte que em todo lugar que a gente vai, consegue cativar o público. A gente só precisa um pouco mais de vontade para fazer acontecer e chegar à televisão e ao grande público”, garante.

A maior expectativa de dirigentes e atletas é que o handebol de praia se torne uma modalidade olímpica. A tentativa para entrar nos Jogos de Paris de 2024 foi frustrada, mas a esperança continua. Uma decisão favorável do Comitê Olímpico Internacional é o que as atletas da seleção mais esperam para poder realizar grandes sonhos e oferecer mais títulos ao Brasil. 

“Temos uma trajetória de muitos títulos. Se a gente tivesse mais incentivo da mídia, a nossa modalidade poderia sair do nível amador e poderia trazer mais retorno para o Brasil, principalmente porque estamos no processo de virar uma modalidade olímpica, e quando se tornar, pode sim trazer medalha. O Brasil poderia investir mais nessa modalidade”, diz Milena.

Aos 32 anos, sua colega de seleção, Camila, diz que, antes de se aposentar das quadras de areia, quer realizar seu maior desejo: “Meu sonho é tornar o beach hand um esporte olímpico, jogar pela seleção e que o Brasil esteja no pódio.  Eu tenho que participar de uma Olimpíada”.

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