ESPORTE EM FOCO

Histórico de superação do Japão pode sinalizar esperança no contexto da pandemia

Áudio 06:03
Os anéis olímpicos durante a cerimônia de abertura das Olimpíadas de Tóquio em 23 de julho de 2021 no Estádio Olímpico da capital japonesa.
Os anéis olímpicos durante a cerimônia de abertura das Olimpíadas de Tóquio em 23 de julho de 2021 no Estádio Olímpico da capital japonesa. Dylan MARTINEZ POOL/AFP

Solidariedade, paz, resiliência e esperança. Essas quatro palavras sintetizam o discurso feito pelo presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Thomas Bach, na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio, realizada na sexta-feira (23). Obviamente o dirigente alemão se referia à pandemia da Covid-19, que fez esta Olimpíada ser adiada por um ano e a transformou em um evento bastante atípico: pela primeira vez na história, os Jogos estão sendo realizados sem público.

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Gilberto Yoshinaga, correspondente da RFI em Tóquio

Thomas Bach, inclusive, comparou a pandemia a um túnel muito escuro e crê que o maior evento esportivo do mundo possa trazer luz a esse túnel. “Estamos unidos para compartilhar este momento juntos. A chama olímpica faz esta luz brilhar”, discursou.

Residente no Japão desde 1989, o advogado brasileiro Etsuo Ishikawa liderou o programa de recepção e aclimatação de parte da delegação olímpica brasileira, na cidade de Hamamatsu (província de Shizuoka). Ele lembra que o adiamento dos Jogos foi como um balde de água gelada na programação que vinha sendo planejada desde 2013, o que exigiu da organização algo a que os japoneses não estão acostumados: o improviso.

“2020 foi realmente um estresse muito grande, refazer toda a programação, a cultura japonesa envolve muito planejamento, muito ensaio, envolve muitas responsabilidades. Se a gente comparar o padrão mundial de responsabilidade, no Japão a régua é um pouco mais acima. Então eles têm um cuidado muito grande com tudo e o Japão teve de lidar com uma coisa que é mais difícil pra eles, que é o improviso”, lembra o advogado. “E, com a ginga brasileira, temos conseguido conciliar bons resultados. Enfim, 2020 foi realmente um balde de água gelada na cabeça de todo mundo que trabalhou durante quatro anos com afinco", disse.

‘Playbook’ estabelece regras de prevenção

Ishikawa reconhece que, com uma campanha de vacinação ainda em andamento no Japão e incertezas quanto aos rumos da pandemia, a realização da Olimpíada não deixa de representar riscos. Uma pesquisa divulgada na segunda-feira (19) pelo jornal japonês Asahi Shimbun apontou que 55% da população japonesa ainda se posicionam contrários à realização do evento. Mas o advogado, que também é consultor do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), lembra que a organização dos Jogos criou um “playbook”, espécie de manual com protocolos e regras rígidas para evitar a disseminação do coronavírus.

“O playbook editado pelo próprio comitê olímpico, endossado pelo governo federal e incrementado pela cidade de Hamamatsu, foi realmente muito rigoroso”, explica. “Esse rigor todo foi exatamente para proteger as delegações brasileiras, para que não houvesse nenhum problema de Covid-19 positivado, o que poderia prematuramente tirar a oportunidade de participar dos Jogos.”

Mesmo com todos os cuidados e restrições preconizados pela organização da Olimpíada, que Ishikawa chama de “bolha”, até este sábado (24) já tinham sido confirmados 123 casos de Covid-19 ligados aos Jogos, incluindo atletas, comissões técnicas, dirigentes e estafes do evento. Ele lembra que essa possibilidade já era considerada, devido ao grande número de pessoas envolvidas. Só o contingente de atletas chega a quase 13 mil, somando-se as 206 delegações participantes.

“Não dá para cravarmos que dentro da bolha haveria uma segurança total, mesmo porque já temos notícias de casos positivados na própria Vila [Olímpica]. Mas é um risco que se está correndo e, naturalmente, isso tem um preço”, acrescenta o advogado. “Todas as delegações internacionais que chegaram para participar dos Jogos têm isso em mente. Todos assinaram um termo de responsabilidade com relação ao cumprimento do que prevê o playbook.”

Atletas lamentam ausência de público

Do ponto de vista de quem não reside no Japão, o jornalista André Rossi chegou a Tóquio no dia 6 para cumprir os 14 dias de isolamento determinados pelo governo japonês – a tempo de poder trabalhar na cobertura dos Jogos para o portal Olimpíada Todo Dia. Ao menos entre os atletas brasileiros, ele diz ter notado uma grande preocupação com os cuidados sanitários. Afinal, contrair o coronavírus significaria a automática eliminação da competição.

“A percepção que tenho dos atletas, a respeito da pandemia, é que eles entendem tudo o que têm de fazer e estão respeitando tudo pelos motivos óbvios, mas principalmente porque sabem que, se eles pegarem [a Covid-19], estão fora dos Jogos. É como se fosse uma lesão.”

De acordo com o jornalista, a grande unanimidade entre os atletas brasileiros parece ser a lamentação com relação à ausência de público nos locais de competição. "A única coisa que eles lamentam, e que é compreensível, é a falta de público, é terem de competir sem público”, conta. “Eles lamentam e percebe-se que é uma coisa verdadeira. Compreendem e não acham que isso vai ser um diferencial para ir bem ou ir mal nas provas, mas lamentam o fato de não ter público.”

Japão possui histórico de superações

A Olimpíada de Tóquio ainda está em seus primeiros dias e os rumos da pandemia ainda são incertos em todo o planeta. Em consonância com o discurso do presidente do COI, o advogado Ishikawa lembra que o Japão possui um histórico de superações que pode fazer do arquipélago, mais uma vez, um exemplo inspirador para o resto do mundo.

"Dentro da história mundial, o Japão sempre foi acometido por tragédias naturais. A gente vê numa história mais recente a questão do próprio terremoto, do tsunami, e sem falar na questão da guerra, da bomba atômica, aquela coisa toda, e o Japão se recuperando ao longo dos anos, sempre depois de uma tragédia”, recapitula. “Há um ditado que diz que depois da tempestade vem a bonança. O Japão, sempre que se vê em uma situação muito difícil, consegue, com muita dedicação, foco, empenho e sacrifico de toda a população, superá-la", sublinha.

Principal desafio é não haver percalços

Já o jornalista André Rossi, que elogia a estrutura e o nível de organização da Olimpíada, também reconhece o Japão como exemplo de superação. Mas prefere ser mais cauteloso em comentários sobre a pandemia e acredita que o principal desafio do momento é que os Jogos sejam realizados sem grandes percalços. Depois da Olimpíada, que será encerrada em 8 de agosto, Tóquio ainda sediará a Paralimpíada, entre os dias 24 de agosto e 5 de setembro.

“Acredito que, quando passarem os Jogos, e Deus queira que tudo dê certo da melhor maneira possível, sem nada mais grave ou uma explosão de casos em geral... Se isso acontecer, creio que vai ser um grande alívio, tanto para as autoridades quanto para o povo japonês e o mundo em geral: ‘Ufa, conseguimos fazer [a Olimpíada]’", avalia.

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