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Linha Direta

Principal desafio de novo presidente do Peru será conquistar confiança

Áudio 05:58
Francisco Sagasti, um ex-funcionário do Banco Mundial cuja aparência lembra a do personagem 'Dom Quixote', chegou à presidência do Peru com o enorme desafio de administrar um país atingido por uma crise política e uma pandemia devastadora que provocou uma forte recessão.
Francisco Sagasti, um ex-funcionário do Banco Mundial cuja aparência lembra a do personagem 'Dom Quixote', chegou à presidência do Peru com o enorme desafio de administrar um país atingido por uma crise política e uma pandemia devastadora que provocou uma forte recessão. AP - Rodrigo Abd
Por: RFI
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14 min

O parlamentar de centro Francisco Sagasti, eleito ontem presidente do Congresso peruano, toma posse nesta terça-feira (17) na Presidência do país, segundo prevê a Constituição, depois de 48 horas de um vácuo de poder. O novo chefe de Estado, o terceiro em oito dias, precisa ganhar a confiança de uma população que suspeita do Parlamento e que aprendeu a exercer pressão em grandes manifestações.

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Márcio Resende, correspondente em Buenos Aires

O engenheiro Francisco Sagasti, 76 anos, ex-funcionário do Banco Mundial e estreante na política, terá oito meses de mandato para transitar por um estreito desfiladeiro, assediado pelas crises ampliadas pela pandemia do novo coronavírus.

Sagasti assume o cargo de presidente do Peru às 16h em Lima (18h em Brasília), pondo fim ao vácuo criado pela renúncia de Manuel Merino, no domingo (15), encurralado por protestos, depois de apenas cinco dias no cargo.

O novo presidente foi eleito pelo Congresso nesta segunda-feira (16) com 97 dos 130 votos possíveis. Tornou-se presidente do Parlamento, mas, por sucessão constitucional, já que o país ficou sem presidente, sem vice e até sem presidente do Congresso, automaticamente assumirá o governo. Sagasti será o terceiro presidente do Peru em oito dias e o quinto em menos de três anos. Ele era um dos nove legisladores que preenchiam os requisitos de consenso legislativo e popular. O novo presidente precisava ser um dos 19 legisladores que, há uma semana, votaram contra a destituição do ex-presidente Martín Vizcarra. Nenhum podia ser suspeito de corrupção.

"Tinha de assumir alguém que tivesse sido contra a destituição. Havia 19 legisladores. Desses, restavam apenas nove porque os outros dez têm problemas com a Justiça. Todos os demais legisladores são vistos pela sociedade como responsáveis pela crise, uma evidência do desprestígio do Congresso peruano", sublinha o cientista político Fernando Tuesta, da Universidade Católica do Peru.

Entre a pandemia e as eleições

A agenda do novo presidente, para apenas oito meses de mandato – até 28 de julho –, será mínima, mas não menos desafiante. Sagasti terá de administrar uma pandemia que faz do Peru o 12° país do mundo em número de contaminados pela Covid-19, com 937 mil casos positivos e 35 mil mortos. A epidemia provocou uma crise econômica histórica. O PIB peruano chegou a despencar 30,2% no segundo trimestre, e a previsão para o ano de 2020 é de uma retração de 13,9%, segundo o FMI. Além de combater essas crises ampliadas, Sagasti terá de conduzir um processo eleitoral até 11 de abril.

"De que vale um presidente que terá de lidar com um Congresso com as mesmas formas, com os mesmos critérios, com os mesmos interesses? Por isso, é preciso um acordo político que passe pela crise econômica, pela crise sanitária e pelas eleições. O governo não poderá ir além disso", indica Tuesta.

Por mais que o novo presidente seja bem-sucedido, o país vai viver numa transição. E a frágil governabilidade paralisa os investimentos à espera de uma definição.

O novo presidente percebe essa limitação. Em seu primeiro discurso aos legisladores, Sagasti deu a tônica do que será o discurso de posse à população. Baseia-se em dois pilares: união e confiança. Ele irá transitar num estreito caminho entre um Parlamento questionado e uma sociedade que interpretou a destituição do ex-presidente Martín Vizcarra como um golpe parlamentar.

"Não vamos fazer o que já sabemos que não podemos fazer no curto tempo que a História nos concedeu. O Congresso tem de se concentrar em tarefas muito específicas para que algum dia o cidadão possa dizer que esse Congresso o representa. Todos vocês são representantes de uma sociedade ansiosa, preocupada e angustiada", apontou Sagasti.

"Oferecemos o que falta ao nosso país neste momento: confiança. Agiremos da maneira que dizemos. Faremos tudo o que for possível para devolver a confiança à sociedade", prometeu.

Sob observação das ruas

Apesar de vir do mesmo Congresso, Sagasti tem um longo currículo profissional. Engenheiro industrial com mestrado e doutorado na Universidade da Pensilvânia, ele ocupou cargos em grandes organismos internacionais, como Unesco, BID, Banco Mundial, Cepal e OEA. Tem 20 livros e estudos sobre Ciência e Tecnologia. Por não ser um político de carreira, o centrista tem menos chances de estar envolvido com casos de corrupção, uma marca de todos os presidentes peruanos ao longo dos últimos 35 anos.

A demanda popular é ampla, mas basicamente passa pela honestidade e por mais democracia. O cansaço social ganhou magnitude com a pandemia. Essa indignação popular levou milhares de pessoas às ruas nos últimos dias, deixando um saldo de dois mortos (de 22 e de 24 anos), 114 feridos e duas pessoas ainda desaparecidas.

Sagasti não tem o mesmo passado de Manuel Merino. Por isso, as primeiras reações foram de tranquilidade nas ruas, bem diferente de uma semana atrás, quando uma convulsão social rejeitava Merino.

"As primeiras reações são de alívio. Houve buzinas, aplausos e gritos de alegria nas ruas. Para além do impressionante currículo, o novo presidente parece entender que as autoridades têm de estar em sintonia política com as demandas da sociedade, algo que tem faltado no Peru, por isso, esta crise de legitimidade que o país vive", compara Santiago Mariani, cientista político peruano da Universidade do Pacífico.

Manuel Merino tinha assumido o poder na terça-feira passada, depois que o Parlamento destituíra o então presidente Martín Vizcarra. Por sua vez, Vizcarra tinha sido vice-presidente de Pedro Pablo Kuczynski, que governou de julho de 2016 a março de 2018, quando renunciou, após as denúncias de compra de votos de legisladores para evitar sua queda, motivada por supostos subornos recebidos da empreiteira brasileira Odebrecht. Vizcarra foi destituído há uma semana sob suspeita de ter recebido US$ 640 mil entre 2013 e 2014, quando era governador da região de Moquegua.

Legisladores arrependidos

Vários legisladores que votaram pela destituição de Vizcarra se arrependeram e pediram perdão em público.

"Queremos pedir desculpas à população pelo erro político que cometemos e por levar o país a uma crise desnecessária e indesejável. É necessário que este Congresso reconheça o erro e que peça desculpas à população", disse o parlamentar César Combina na entrada do Congresso.

Além disso, a figura usada para destituir Vizcarra, a "incapacidade moral permanente", é um conceito amplo e difuso que os legisladores têm usado por uma maioria opositora como extorsão para manter o controle político sobre um presidente sob o risco de ser removido.

"O Congresso também registrou que a sociedade está mobilizada. Até agora não ouviram as demandas sociais. Colocaram o país nesta crise ao forçar uma destituição, demonstrando distância com a sociedade. Se isso não mudar, as pessoas vão continuar a protestar até serem ouvidas", adverte o analista Mariani.

Na quarta-feira (18), o Tribunal Constitucional deve se pronunciar para delimitar em quais circunstâncias a "incapacidade moral permanente" pode ser usada contra um presidente.

As seis grandes manifestações ocorridas em seis dias marcaram um ponto de inflexão no Peru. Pela primeira vez na história do país, uma multidão saiu todos os dias nas ruas, decidida a acabar com um governo considerado sem legitimidade.

"Quando os acordos e consensos são trocados por interesses e forçam as regras, rompem a democracia, geram crises e levam as pessoas às ruas", observa Mariani.

Nesse enredo, Sagasti chega à Presidência não por uma manobra política, mas por ter sido contra a manobra. Tem o benefício da dúvida e começa a ser avaliado a partir de agora.

"Francisco Sagasti não foi escolhido porque o Congresso o considera o melhor. Não tiveram outra escolha. Isso preocupa porque o país precisa de um acordo político de governabilidade. Caso contrário, vamos continuar com o enfrentamento de poderes. Sagasti vai precisar de apoio parlamentar para aprovar medidas no Congresso", prevê o analista Fernando Tuesta.

 

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