Linha Direta

Inauguração de concessionária da Ferrari irrita venezuelanos e expõe contrastes do país

Áudio 05:19
Com uma queda de cerca de 30% do produto Interno Bruto (PIB) e o aumento dos preços em mais de 3.713%. Por volta de 55% da população economicamente ativa sem trabalho levou a Venezuela em 2020 a ser o país com maior colapso econômico, maior hiperinflação e a maior taxa de desemprego do mundo.
Com uma queda de cerca de 30% do produto Interno Bruto (PIB) e o aumento dos preços em mais de 3.713%. Por volta de 55% da população economicamente ativa sem trabalho levou a Venezuela em 2020 a ser o país com maior colapso econômico, maior hiperinflação e a maior taxa de desemprego do mundo. REUTERS - MANAURE QUINTERO
Por: Elianah Jorge
13 min

A inauguração da concessionária Ferrari em um sofisticado bairro de Caracas inquietou os venezuelanos. Os veículos, fora do alcance para grande parte da população, geraram mais revolta do que admiração. A poucos metros da loja, uma família revirava o lixo em busca de comida; uma cena que traduz a dura realidade de milhares de venezuelanos. Esse contraste entre uma minoria com alto poder de compra enquanto muitos se encontram em situação de extrema pobreza é o retrato de uma Venezuela dolarizada e em hiperinflação.

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Por Elianah Jorge, correspondente da RFI na Venezuela

A notícia da inauguração de um novo ponto de vendas da Maranallo Motosports, dedicado à venda da famosa marca italiana de carros de luxo italiana deu origem a muitas polêmicas.

Na concessionária, o veículo mais barato custa cerca de US$ 255 mil (R$ 1,386 milhão) e o mais caro, U$ 1,5 milhão (R$ 8,156 milhões)*.

Em um país empobrecido, com escassez de combustível e estradas que mais parecem ter sido bombardeadas por causa da falta de manutenção, a importação das Ferraris “pode fazer parte das manipulações para mostrar que na Venezuela há uma nova onda de prosperidade e reduzir o foco e a atenção da opinião pública no empobrecimento generalizado da população e os problemas da pobreza e da imigração”, diz Victor Álvarez, economista e ex-ministro de Indústrias do governo de Hugo Chávez.

O ex-ministro de Chávez, que também foi diretor da PDVSA, a estatal venezuelana de petróleo, explica que esta é uma das caras do “'capitalismo de clientes' em que a outorga e os favores das isenções de impostos e licenças de importação são dados àqueles que jogam o jogo do regime”.

Na visão do ex-ministro, as perspectivas para a economia venezuelana em 2021 “apontam que as sanções comerciais e financeiras trarão a abertura do mercado interno, a liberalização econômica e a privatização de empresas públicas. Isso significa uma mudança econômica sem mudança política, é o que vem acontecendo no país”.

Reajustar a economia de olho nas urnas

Especialistas apontam que, sem adversários políticos no parlamento de maioria chavista, resta ao governo reajustar a economia em 2021 preparando o terreno para as eleições locais previstas para a segunda metade deste ano. 

“Para sobreviver, o governo se verá obrigado a levantar os controles e flexibilizar cada vez mais as regulações para estimular o investimento privado. A abertura aos investimentos estrangeiros deverá recair nos setores de petróleo, gás e mineração”, explica Victor Álvarez.

O economistra não descarta a privatização de empresas públicas deficitárias, algumas expropriadas durante o governo Chávez (1999-2013) e que “terminaram quebradas pelo burocratismo e pela corrupção, e hoje são uma carga para um Estado que não pode sustentá-las”.

“Esta será uma via para o governo recuperar a arrecadação de impostos sobre a renda e sobre produtos, e assim moderar a emissão de dinheiro inflacionário e evitar o custo político em um ano de eleições para governadores e prefeitos”.

Para dar legitimidade a essa votação, o governo tende a buscar melhores resultados após a alta abstenção na eleição anterior. Para isso é preciso reconquistar a base do chavismo, composta por eleitores das classes C, D e E.   

A indústria do petróleo, combalida pela falta de manutenção, corrupção e pelas sanções, viu a extração cair para menos de 500 mil barris por dia. Em outras épocas o país produzia cerca de três milhões diariamente.

“Isso reduziu a entrada de moeda estrangeira no país e os demais benefícios oriundos das transações petrolíferas, afetando o gasto público”, explica Victor.

Álvarez especifica que “as empresas fecharam o exercício fiscal com perdas. Com a economia contraída, a arrecadação de impostos minguou e não há como financiar o gasto público”.

2020 ficará marcado na história econômica do país

O ano passado será lembrado como um dos piores da economia venezuelana, quando a dieta básica foi baseada em carboidratos por meio de poucos alimentos acessíveis ao bolso da população

“A queda de cerca de 30% do Produto Interno Bruto (PIB), o aumento dos preços em mais de 3.713%, e com 54,4% da população economicamente ativa sem trabalho, fizeram da Venezuela de 2020 o país com maior colapso econômico, maior hiperinflação e a maior taxa de desemprego do mundo”, detalha o economista.

Boa parte dos que sofrem com a retração econômica e a perda do poder aquisitivo são os funcionários públicos e os aposentados.

De acordo com o Observatório Venezuelano de Finanças, ligado à gestão anterior da Assembleia Nacional (2015-2020), a inflação de dezembro passado foi de 21,2%, e a inflação acumulada em 2020 chegou a 3.713%.

Sem dados oficiais, a Universidade Católica Andrés Bello publica periodicamente a Encovi, a pesquisa que detalha a situação de vida no país. A última análise aponta que a contração da economia junto com o aumento do desemprego e a hiperinflação geram um empobrecimento de mais de 80% da população.

Por sua vez, o Centro de Documentação e Análise Social (CENDAS), que mede o custo da alimentação no país, informou que em dezembro eram necessários U$ 294 para a compra da cesta básica. O salário mínimo venezuelano vale 800 mil bolívares, menos que um dólar.

A moeda norte-americana vem progressivamente substituindo o bolívar em quase todas as transações no país.

“Para estimular o investimento estrangeiro e importações que gerem moeda estrangeira, o Banco Central da Venezuela terá que revisar a política econômica para frear a evolução do tipo de cambio”, diz Victor Álvarez.

A disparidade entre o dólar e o bolívar castiga a competitividade internacional das exportações privadas não petrolíferas. Atualmente um dólar equivale a Bs 1.561.382,13, de acordo com o Banco Central da Venezuela.

Para acabar com a escassez de produtos, no final de 2019 o governo de Nicolás Maduro flexibilizou as importações. A medida acabou com as filas e encheu as prateleiras. No entanto, “essa abertura comercial arruinou a produção agrícola nacional”.

A disponibilidade de bens e produtos alimentícios deverá ser mantida durante 2021. No cotidiano ela é traduzida por imagens de supermercados cheios dos mais variados produtos e quase vazio de clientes. 

Empresariado sofre

Os empresários venezuelanos sofrem não apenas com a disparidade cambial, mas também com a deficiência na infraestrutura do país. Eles precisam lidar com os constantes cortes de energia elétrica, agora com a escassez de gasolina neste país sócio-fundador da Organização de Países Produtores de Petróleo (OPEP), e também com a falta de gás.    

“Na Venezuela não é fácil produzir para exportar. A má qualidade dos serviços públicos e a infraestrutura geram um custo excedente que impacta na competitividade internacional. A estes fatores é somado um tipo de cambio excessivo que não permite cobrir os custos internos de produção. Isso inviabiliza a produção para exportar e gerar os ingressos que não chegam através do petróleo”, explica o ex-ministro.

Victor Álvarez acredita que a vacinação contra a covid-19 terá consequências na recuperação da economia global e também na venezuelana. “Os imigrantes venezuelanos poderiam recuperar seus trabalhos para reestabelecer o envio de remessas, o que pode ajudar a reanimar o consumo interno, que será a principal força motriz da economia”.

De acordo com um comunicado da Organização dos Estados Americanos (OEA) o êxodo venezuelano pode chegar a mais de sete milhões de pessoas em 2021.

* Os valores foram atualizados em relação à versão inicial 

 

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