Linha Direta

Israel vai às urnas pela quarta vez em dois anos e votação é vista como "referendo" sobre Netanyahu

Áudio 05:22
Um judeu ultra-ortodoxo vota nas eleições parlamentares de Israel em Bnei Brak, Israel, terça-feira, março. 23, 2021.
Um judeu ultra-ortodoxo vota nas eleições parlamentares de Israel em Bnei Brak, Israel, terça-feira, março. 23, 2021. AP - Oded Balilty

Os eleitores israelenses vão às urnas nesta terça-feira, 23 de março, em mais uma votação apenas um ano depois das últimas eleições, em março de 2020, e pela quarta vez desde 2019, quando houve pleitos em abril e setembro daquele ano. Mais de 6,5 milhões de eleitores potenciais poderão votar em 13 mil 500 urnas espalhadas por todo o país.

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Daniela Kresch, correspondente da RFI em Israel

O que está em jogo é a continuidade do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, há 12 anos consecutivos no poder como líder do partido conservador Likud. A votação é quase como referendo sobre o premiê, que tem apoiadores leais, mas também opositores ferrenhos.

Em seu favor, Netanyahu tem o sucesso da campanha de vacinação em Israel, onde cerca de 80% dos israelenses com mais de 16 anos já receberam as duas doses das vacinas da Pfizer/BioNTech ou da Moderna ou já se recuperaram da Covid-19. 

 A vacinação em massa, que começou em dezembro do ano passado, levou a uma queda drástica no número de doentes e de mortes por coronavírus. Israel já vive uma espécie de volta à normalidade, com comércio e serviços quase que totalmente reabertos e menos restrições.

Outro trunfo político do premiê – o mais longevo da história de Israel – foi ter costurado os chamados “Acordos de Abraão”, de normalização das relações diplomáticas com Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Marrocos e Sudão.

Contra ele, no entanto, pesam as três acusações por corrupção que Netanyahu enfrenta na Justiça israelense. A sensação, pelo menos dos opositores, é de que o líder israelense estaria disposto a tudo – incluindo enfraquecer o Poder Judiciário – para conseguir imunidade diante dos indiciamentos ou um indulto caso seja condenado.

Pesquisas mostram cenário complicado

As principais pesquisas de intenção de voto apresentam um cenário complicado para Netanyahu e também para a oposição. Treze partidos disputam as 120 cadeiras do Knesset, o Parlamento em Jerusalém. O mais votado terá a chance, primeiro, de formar uma coalizão de governo com, no mínimo, 61 cadeiras. Sem esse número-chave, não há governo.

As pesquisas preveem que o Likud, o partido de Netanyahu, será o mais votado, recebendo algo em torno de 30 cadeiras. Mas, para conseguir montar uma coalizão viável e duradoura – coisa que não conseguiu nas três últimas rodadas –, ele terá que cortejar outros partidos até chegar a 61 assentos.

Só que, segundo as enquetes, o bloco de partidos pró-Netanyahu só conseguirá 51 cadeiras. Por outro lado, o bloco dos partidos anti-Netanyahu só contará com 56 cadeiras. Quer dizer: no xadrez político que é o parlamentarismo israelense, a conta não parece fechar para nenhum dos lados, porque dois partidos hesitam em se alinhar a qualquer um dos blocos.

Se não houver coalizão viável, pode acontecer o que tem ocorrido já há 2 anos: meses de impasse até que falhem todas as tentativas de formação de um governo e, então, a convocação de novas eleições. Já há quem fale em um 5º pleito até o final deste ano. Isso beneficiaria Netanyahu, que continuaria no poder como primeiro-ministro interino.

Mas muitos acreditam que o premiê pode estar próximo de seu fim político porque no bloco de partidos opositores estão, pela primeira vez, líderes de própria direita que ele representa. Antes, só a esquerda fazia parte dessa oposição.

Esses líderes de direita, como o ex-parlamentar do Likud Guideon Saar, consideram que Netanyahu – que semeou uma espécie de culto à sua personalidade – é um perigo à democracia. Talvez se unam a partidos de centro e de esquerda só com o objetivo de substituir o primeiro-ministro.

Questão palestina em segundo plano

Quando se trata de plataformas políticas, ideologias como ser pró ou contra o processo de paz com os palestinos estão em segundo plano diante de um pleito que diz respeito basicamente à popularidade e ao caráter de Benjamin Netanyahu – o político mais hábil dos últimos 20 anos, em Israel.

A verdade é que os israelenses estão cada vez mais ariscos quando o assunto é negociações de paz com os palestinos. Depois que Israel se retirou da Faixa de Gaza, em 2005, houve uma grande decepção com o fortalecimento do grupo islâmico Hamas e o aumento dos lançamentos de bombas e foguetes contra cidades próximas à fronteira com Gaza.

Os confrontos com o Hamas, o maior deles em 2014, e eventuais ataques terroristas atribuídos a palestinos da Cisjordânia ocupada, levaram a maioria dos israelenses ao ceticismo nessa questão. A maioria não acredita numa solução para esse conflito que já dura quase um século e só quer um líder que garanta calmaria no país, mesmo que temporária.

 

 

 

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