Linha Direta

Equador e Peru vão às urnas com paridade entre dois modelos políticos e econômicos opostos

Áudio 06:03
Os peruanos vão às urnas também no domingo com opções radicais tanto de esquerda quanto de direita.
Os peruanos vão às urnas também no domingo com opções radicais tanto de esquerda quanto de direita. AP - Martin Mejia

No próximo domingo, o Equador será o primeiro país da região a eleger em 2021 um novo presidente. A disputa pode representar mais uma vitória da esquerda, depois de Argentina e Bolívia, ou uma recuperação da direita no mapa político regional.

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No Peru, uma paridade inédita envolve seis candidatos com chances de passar ao segundo turno. São opções radicais da esquerda à extrema direita. Um deles se auto-define como "o Bolsonaro peruano".

Equador, entre dois modelos opostos de país

Neste segundo turno, os equatorianos vão escolher entre dois candidatos que representam modelos políticos e econômicos opostos: de um lado, o esquerdista Andrés Arauz (36) defende o modelo estatal do seu padrinho político, o ex-presidente Rafael Correa (2007-2017). Do outro, o liberal Guillermo Lasso (65) aposta no setor privado.

"Aqui está em jogo duas opções radicalmente diferentes em termos econômicos e políticos. No campo econômico, Andrés Arauz defende o Estado como motor da economia e Guillermo Lasso aposta no livre comércio e na abertura de mercado", explica à RFI o cientista político equatoriano Simón Pachano, da Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais (FLACSO).

"No campo político, o modelo de Arauz é uma volta ao de Rafael Correa: um governo vertical com traços muito autoritários. A proposta de Lasso supõe mais abertura", acrescenta Pachano.

"Temos duas visões totalmente diferentes de país. Com Arauz, será um país mais estatal; com Lasso, um país muito mais mercantil", concorda o analista político Fernando Carrión, também da FLACSO.

Sobrevivência ou morte do "Correísmo"

Outro ponto em jogo é o futuro da corrente política denominada "correísmo", em referência ao ex-presidente Rafael Correa.

"Estamos diante da sobrevivência ou da morte do 'correísmo' que permitiu a base de votos de Arauz, mas, obviamente, sem Correa, isso acaba. Se Arauz perder e Correa ficar ausente do país por mais quatro anos, o 'correísmo' tende a acabar", prevê Pachano.

Rafael Correa mora na Bélgica. Não pode voltar ao Equador sem ser preso devido à condenação de oito anos por corrupção. O seu candidato, Andrés Arauz, promete uma anistia ou um indulto ao ex-presidente, acirrando a disputa eleitoral entre a favor ou contra Rafael Correa.

Para a região, a eleição de domingo no Equador reforçará ou uma tendência de regresso da esquerda ao poder, depois da Argentina (2019) e da Bolívia (2020), ou significará um ponto de inflexão, a partir do qual a direita recupera terreno.

Empate técnico, final aberto

Até o dia 21 de março, tudo se encaminhava para uma vitória do candidato de Rafael Correa, Andrés Arauz, que obteve 32,7% dos votos no primeiro turno, 13 pontos a mais do que Guillermo Lasso, com 19,7%.

Porém, a partir daquela noite do debate presidencial, a tendência se inverteu. Agora, é o ex-banqueiro Guillermo Lasso quem tem uma ligeira vantagem.

"O debate foi crucial, mas Lasso já vinha num movimento para captar votos no centro. Lasso sempre foi um conservador em termos de valores, mas, neste segundo turno, aproximou-se de grupos LGBTI, dizendo-se disposto a escutar as demandas. No campo social, prometeu um aumento do salário mínimo. Foi cuidadoso em não abordar o aborto, um assunto tabu para ele. Mas tratou da questão ambiental, uma bandeira de Yacu Pérez", observa Pachano.

O líder do movimento indígena Pachakutik, Yacu Pérez, ficou com 19,4% no primeiro turno, apenas 0,35% atrás de Lasso. Pérez, um crítico do 'correísmo', preferiu chamar os seus seguidores a anularem o voto a votarem num ex-banqueiro.

Do outro lado, Andrés Arauz também tentou votos no centro, amenizando o discurso.

"Arauz moderou as suas propostas numa tentativa de aproximação à classe média e aos setores econômicos. Repetidamente, garantiu que não 'desdolarizaria' a economia (no Equador, a moeda corrente é o dólar norte-americano), mas não convenceu tanto", avalia Simón Pachano.

"O discurso de Lasso passou a incorporar direitos civis que, inclusive, são contra o seu próprio pensamento como reconhecimento do matrimônio igualitário, os direitos da mulher e questões de identidade indígena. Isso teve impacto", concorda Fernando Carrión.

Arauz esbarrou na polarização a favor e contra Correa. O piso de 33% de votos no primeiro turno era praticamente o seu teto.

"No primeiro turno, Arauz ficou ancorado em Rafael Correa e conseguiu uma base ao redor de 30% dos votos, mas, no segundo turno, Correa significava um lastro", sublinha Carrión.

A diferença de 13 pontos do primeiro turno desapareceu e, segundo algumas sondagens como a da consultora Cedato, Lasso agora teria uma leve vantagem de 34% contra 33% de Arauz. Considerados os votos válidos, Lasso venceria por 52% contra 48%.

No entanto, entre os indecisos, há cerca de 20% que vão definir a eleição. O resultado, portanto, é incerto.

"Os números parecem estar ligeiramente a favor de Lasso, mas existe um empate técnico", indica Pachano.

Bolsonaro peruano

No Peru, dos 18 candidatos, seis têm chances de passar ao segundo turno, devido à fragmentação do sistema político,a partir de uma crise, iniciada em 2016, pela "Lava Jato peruana", como os próprios peruanos definem as consequências da corrupção envolvendo as empreiteiras brasileiras, especialmente a Odebrecht.

Nos últimos três anos, o Peru teve quatro presidentes. Os dois primeiros foram destituídos: o presidente Pedro Pablo Kuczynski, em 2018 e, depois, o seu vice, Martín Vizcarra, em novembro passado. O terceiro, Manuel Merino, renunciou depois de uma semana e o quarto, Francisco Sagasti, conduz um governo provisório.

"Essa pulverização do sistema provocou que qualquer candidato que obtiver mais de 10% dos votos possa chegar ao segundo turno. Por isso, pelo pouco volume de votos, são mini candidatos", explica à RFI o cientista político peruano, Carlos Meléndez, da Universidade Diego Portales do Chile.

"Os candidatos que mais radicalizaram o discurso ganharam visibilidade. Os peruanos querem que todos os políticos saiam do poder. Então, aquele candidato que tem o discurso mais altissonante ganha mais atenção", aponta Meléndez.

Assim, surgiram surpresas como Yonhy Lescano, com um discurso radical de esquerda, ou Rafael López Aliaga, quem se auto-define como o "Bolsonaro peruano" e promove manifestações contra o confinamento determinado pelo presidente.

"Tanto em Lescano quanto em Aliaga, as pessoas que votam procuram essa sensação de optarem pela explosão do sistema", interpreta Meléndez.

No Peru, num sistema político totalmente fragmentado, uma paridade inédita envolve seis candidatos com chances de vitória.Veronica Mendoza, do partido Juntos pelo Peru, Hernando de Soto, do partido Avanza Pais  o ex-goleiro de futebol George Forsyth, candidato presidencial do partido Vitória Nacional, Yonhy Lescano, do partido Acción Popular, Keiko Fujimori, do partido Fuerza Popular, Rafael Lopez Aliaga do partido Renovacion.
No Peru, num sistema político totalmente fragmentado, uma paridade inédita envolve seis candidatos com chances de vitória.Veronica Mendoza, do partido Juntos pelo Peru, Hernando de Soto, do partido Avanza Pais o ex-goleiro de futebol George Forsyth, candidato presidencial do partido Vitória Nacional, Yonhy Lescano, do partido Acción Popular, Keiko Fujimori, do partido Fuerza Popular, Rafael Lopez Aliaga do partido Renovacion. © REUTERS/Sebastian Castaneda and Angela Ponce

Paridade inédita

Segundo a consultora IPSOS, o candidato que lidera a corrida, o esquerdista Yonhy Lescano, tem 10% dos votos. O sexto colocado, o "Bolsonaro peruano", tem 6%. No intervalo de apenas quatro pontos, há seis candidatos com chances, algo inédito no Peru.

Yonhy Lescano (esquerda, 10%), Verónica Mendoza (esquerda, 9%), Hernando de Soto (liberal, 9%), o ex-jogador de futebol George Forsyth (centro-direita 8%), Keiko Fujimori (direita, 8%) e Rafael López Aliaga (extrema direita, 6%) têm chances de continuar na disputa durante o segundo turno, em 6 de junho. O ex-presidente Ollanta Humala (2011-2016) não passa de 2%.

"Os candidatos não têm incentivos para se moderarem. Falam com os seus eleitores. Falam com os seus fundamentalistas. Aliaga fala com o fundamentalista fascista de direita; Mendoza, com a esquerda radical; Lescano fala com o país anti-establishment e Fujimori fala com quem quer mão-dura", afirma Meléndez.

"No segundo turno, vão precisar falar com o resto do país, com aqueles que não são seu público", aponta.

Quem vencer terá um duro desafio: não só continuar no poder até o final do mandato, mas também de recuperar um país que enfrenta a pandemia com escassez de vacinas e no meio de uma crise política e econômica.

A economia peruana encolheu 11% no ano passado. Foi o terceiro pior resultado na América Latina, depois de Venezuela (-30%) e Panamá (-17%).

Além disso, o Peru é, proporcionalmente, o país com mais mortes de Covid-19 na América Latina. Está em 17º no mundo. Pior até do que o Brasil, em 18º.

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