Linha Direta

Tensão cresce em Jerusalém e confrontos deixam centenas de feridos

Áudio 05:03
Fim de semana de alta tensão em Jerusalém Oriental, com centenas de feridos
Fim de semana de alta tensão em Jerusalém Oriental, com centenas de feridos AP - Ariel Schalit

A tensão cresce em Jerusalém após três noites de confrontos entre a polícia israelense e manifestantes palestinos que continuaram nesta segunda-feira (10). O temor é que os confrontos que começaram na sexta-feira passada, 7 de maio, descambem para mais uma onda de muita violência entre palestinos israelenses nesse conflito de décadas que, mesmo quando parece dormente, sempre tem o potencial de vir à tona.

Publicidade

Daniela Kresch, correspondente da RFI em Israel

As últimas noites foram de embates em Jerusalém, que ecoaram na Cisjordânia e na fronteira com a Faixa de Gaza. Nesta segunda-feira, o palco dos confrontos foi a Esplanada das Mesquitas. A polícia usou bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha contra os manifestantes, que revidaram com pedras. Pelo menos 215 pessoas ficaram feridas e dezenas foram hospitalizadas, algumas delas em estado grave.

Nos arredores do local, um carro que transportava um grupo de palestinos também foi alvo de ataques. Diante da violência, o Conselho de Segurança da ONU deve se reunir nesta segunda-feira, a pedido da Tunísia.

Na madrugada de domingo (9) para segunda, também houve confrontos na cidade de Haifa, a terceira maior de Israel, que tem uma grande população árabe.

O grupo islâmico Hamas, que controla a Faixa de Gaza, lançou três foguetes contra o sul de Israel, disparando o alerta antibomba na cidade israelense de Sderot. Os acontecimentos lembram o início das duas Intifadas, revoltas populares, contra Israel, em 1987 e em 2000, e os distúrbios derivados da transferência da embaixada dos Estados Unidos para Jerusalém.

Dia de Jerusalém

Mas a situação pode se agravar ainda mais nesta segunda-feira por causa do feriado do Dia de Jerusalém. A data marca o dia em que Israel capturou dos jordanianos a parte oriental de Jerusalém – incluindo a Cidade Velha, com seus locais sagrados – na Guerra dos Seis Dias, em 1967.

Neste feriado, grupos de judeus nacionalistas costumam fazer marchas com a bandeira de Israel pela parte oriental da cidade e visitar o Monte de Tempo – ou Esplanada das Mesquitas para os árabes – para demonstrar a soberania israelense sobre o local. Isso é visto como uma provocação pelos moradores árabes, que não aceitam essa soberania.

O exército israelense aumentou a presença na Cisjordânia, onde militantes do grupo islâmico Hamas estão se movimentando e organizando manifestações anti-Israel.

O clima já estava tenso por causa do mês sagrado dos muçulmanos, o Ramadã, que, este ano, começou em 12 de abril e termina nesta quarta-feira(12). Durante o Ramadã, parte dos cidadãos árabes de Israel e dos 300 mil palestinos de Jerusalém Oriental, que não são cidadãos de Israel, costuma fazer manifestações contra o país.

Este ano, começaram a circular vídeos nas redes sociais com palestinos batendo nos rostos de judeus ultraortodoxos no metrô de Jerusalém e em outros locais públicos. Um grupo de extrema direita radical israelense, o Lehava, reagiu com protestos antimuçulmanos, o que aumentou ainda mais a tensão.

Paralelamente, um parlamentar judeu de extrema direita, Itamar Ben-Gvir, montou uma espécie de “escritório” no bairro árabe de Sheikh Jarrah, na semana passada, irritando os moradores. Nesse bairro, existe uma disputa territorial há décadas, com quatro famílias palestinas em perigo de serem despejadas em breve porque um grupo judaico ultranacionalista alega ser dono das terras onde elas moram.

Além disso, guardas israelenses mataram na sexta-feira (7) dois palestinos que abriram fogo contra uma patrulha da polícia de fronteira. Isso parece ter sido a gota d’água para os distúrbios, que começaram após a reza coletiva de sexta-feira.

Nas últimas três noites, milhares de palestinos e árabes de Israel atacaram policiais e civis em Jerusalém e em Haifa com pedras, coquetéis molotov e bombas caseiras. Eles foram dispersados com bombas de gás lacrimogêneo. Mais de 200 pessoas ficaram feridas, a grande maioria manifestantes.

A liderança palestina tem culpado Israel pela escalada. Em pronunciamento, o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, disse que Israel é responsável pelos distúrbios e demonstrou apoio aos manifestantes, que chamou de “heróis”.

Na Faixa de Gaza, o comandante do Hamas, Mohammed Deif, que não costuma falar muito, ameaçou Israel com palavras de guerra. Desde sábado, o Hamas voltou a lançar foguetes e balões incendiários contra o sul de Israel. Neste domingo, esses balões causaram mais de 30 focos de incêndio em áreas agrícolas e urbanas. O governo egípcio tem tentado acalmar os ânimos para evitar mais violência.

Preocupação

O resto do mundo vê com preocupação os acontecimentos. A chancelaria da Jordânia convocou o embaixador israelense para uma conversa. O Conselho de Segurança da ONU anunciou que deve se reunir nesta segunda-feira para discutir o assunto.

O chamado “Quarteto” – grupo que reúne ONU, Estados Unidos, União Europeia e Rússia —, emitiu uma nota condenando a violência em Jerusalém e pedindo calma aos dois lados.

O Quarteto também exigiu que Israel cancele os despejos das famílias palestinas de Sheikh Jarrah. Países como Turquia, Qatar, Emirados Árabes Unidos e Bahrein também fizeram o mesma exigência. A Suprema Corte de Israel, talvez por causa dessa pressão, adiou os procedimentos sobre esse caso.

Países como Canadá e África do Sul também se pronunciaram. Em Washington, o governo Joe Biden demonstrou uma “profunda preocupação” com os acontecimentos, pedindo que Israel cancele a marcha das bandeiras do Dia de Jerusalém, nesta segunda-feira.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, disse neste domingo que não vai permitir “nenhum distúrbio público violento” em Jerusalém, mas que promete “total liberdade de culto a todas as religiões da cidade”. Sobre as críticas internacionais, Netanyahu afirmou que “Jerusalém é a capital de Israel” e que, como tal, continuará a receber projetos de expansão e construção israelenses.

Mas, além dos novos distúrbios, Netanyahu enfrenta problemas políticos e jurídicos. Após seu fracasso em costurar uma coalizão de governo viável depois das eleições parlamentares de março, ele pode deixar o cargo de primeiro-ministro pela primeira vez em 12 anos. Netanyahu ainda enfrenta um julgamento por três acusações de corrupção que podem levá-lo à cadeia.

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.