Linha Direta

Cessar-fogo entre Israel e Hamas provoca alívio em israelenses e comemorações na Faixa de Gaza

Áudio 06:37
Cessar-fogo entre Israel e Hamas entra em vigor
Cessar-fogo entre Israel e Hamas entra em vigor AP - Adel Hana

Um cessar-fogo entre o exército de Israel e o grupo islâmico Hamas, que controla a Faixa de Gaza, entrou em vigor na madrugada desta sexta-feira (21) depois de 11 dias de ataques mútuos e quase 250 mortos, a maioria palestinos. A trégua começou às 2h pelo horário de Tel Aviv (20h de quinta-feira pelo horário de Brasília). 

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Daniela Kresch, correspondente da RFI em Tel Aviv

O acordo de cessar-fogo foi anunciado na noite de quinta-feira (20) em comunicado do Gabinete de Segurança israelense, que aceitou a trégua mediada pelo Egito. A decisão foi tomada em reunião do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu com os chefes do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, da Agência de Segurança de Israel, do Mossad e do Conselho de Segurança Nacional.

Até o anúncio do compromisso, o Hamas disparou 40 foguetes contra Israel. Quando a trégua entrou em vigor, milhares de palestinos saíram às ruas de Gaza para comemorar, lançando fogos de artifício. Já em Israel, o clima não é de euforia, mas de alívio e esperança pela volta da normalidade.

A moderação foi do Egito, mas com muita assistência internacional da parte de representantes de vários países e organizações. O governo americano foi fundamental. O presidente Joe Biden conversou por telefone na quinta-feira com o presidente egípcio, Abdel Fattah al-Sisi, enquanto a vice-presidente Kamala Harris conversou com o rei Abdullah, da Jordânia. 

EUA sob pressão

Biden estava sob pressão da ala mais progressista do Partido Democrata, já que demonstrou resistência em condenar publicamente os ataques israelenses. Em pelo menos seis conversas com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que não poderia apoiar o país por muito tempo diante das crescentes críticas.

Em pronunciamento após o anúncio, Biden disse que está comprometido a fornecer ajuda humanitária a Gaza e que fará de tudo para fortalecer o governo da Autoridade Palestina, na Cisjordânia, mais moderado. O presidente americano também voltou a afirmar que Israel tem direito de se defender do Hamas. Já o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, saudou a trégua.

As Nações Unidas foram importantes na costura do cessar-fogo. O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, afirmou, durante reunião emergencial do Conselho de Segurança da ONU, na quinta-feira, que houve uma movimentação diplomática grande envolvendo Egito, Jordânia e Qatar, com ajuda de parceiros-chave da comunidade internacional.

Na reunião do Conselho de Segurança, o chanceler palestino, Riyad al-Maliki, acusou Israel de crimes de guerra. Já Antonio Guterres apontou a responsabilidade do grupo palestino Hamas no conflito.

Quase 250 mortos

É difícil calcular os danos dessa rodada de hostilidades. De acordo com as Forças de Defesa de israelenss, o Hamas lançou mais de 4.000 mísseis, foguetes e morteiros contra Israel desde 10 de maio, quando fez o primeiro disparo contra Jerusalém. A principal alegação foi a de que Israel estaria cerceando a liberdade de culto de fiéis muçulmanos na cidade, o que Tel Aviv nega veementemente. Israel respondeu com milhares de ataques aéreos e de artilharia contra Gaza. 

O número de vítimas fatais e os danos na infraestrutura local foram maiores em Gaza. Segundo dados do Hamas, os ataques israelenses mataram 232 palestinos, incluindo 65 crianças. Foram destruídas centenas de casas e a infraestrutura de túneis subterrâneos onde a liderança do grupo islâmico costuma se esconder e atuar. 

Diversos prédios foram demolidos, incluindo uma torre onde funcionavam as redações dos canais de TV Al Jazeera e Associated Press, o que resultou em críticas internacionais. Nenhum jornalista morreu porque Israel alertou antecipadamente para o ataque. Tel Aviv afirma que o prédio também era usado pelo Hamas para comunicação interna e externa. 

Em Israel, foram 12 mortos, incluindo duas crianças. Três dos óbitos eram trabalhadores estrangeiros, dois tailandeses e um filipino. Só não houve mais mortes por causa do sistema antiaéreo israelense Domo de Ferro, que interceptou 90% dos projéteis palestinos no ar. 

Os foguetes do Hamas também destruíram ou danificaram centenas de casas e apartamentos em todo o sul e centro de Israel. Cerca de 6 milhões de pessoas passaram a última semana sob o alvo do grupo islâmico, tendo que se abrigar em bunkers a cada bombardeio.

Cessar-fogo delicado

O ministro da Defesa de Israel, Benny Gantz, afirmou que a situação, a partir de agora, será determinada pela “realidade na prática”, deixando a entender que Israel continuará com sua política de manter a calmaria se o Hamas fizer o mesmo. Mas, segundo ele, se o grupo islâmico ou outras facções extremistas dispararem algum foguete, morteiro, míssil ou balão incendiário contra Israel, o exército “estará pronto para proteger os cidadãos israelenses”.

Apesar de uma sensação de alívio em Israel, alguns líderes de direita criticaram a decisão de Netanyahu e da cúpula de segurança de aceitar um cessar-fogo incondicional. O líder do partido Nova Esperança, Guideon Sa’ar, por exemplo, expressou sua decepção, afirmando que Tel Aviv não obteve nenhuma vantagem tática contra o Hamas nos 11 dias de combates.

Poucos acreditam que a trégua de agora durará muito tempo, afinal, esse foi o quarto grande conflito entre Israel e o Hamas desde 2008. A julgar pela experiência do passado, as hostilidades podem ser retomadas em alguns anos – alternando momentos de mais tranquilidade com mais tensos. 

É preciso esperar para saber se o conflito também deixará marcas indeléveis no relacionamento entre os cidadãos da maioria judaica e da minoria árabe de Israel. Nos últimos dias, cidadãos dos dois grupos entraram em confronto de forma inédita em meio a arruaças e tentativas de linchamento mútuas.

Também não está claro se a trégua em Gaza acalmará os moradores de Jerusalém Oriental e da Cisjordânia. Nesta sexta-feira (21), houve confrontos entre palestinos e soldados israelenses no Portão de Damasco, na Cidade Velha de Jerusalém.

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