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Em plena onda de Covid-19, cerco se fecha contra Olimpíadas do Japão, a 56 dias do evento

Áudio 07:04
A abertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio está programada para o próximo 23 de julho.
A abertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio está programada para o próximo 23 de julho. AP - Koji Sasahara

Alvo de críticas e questionamentos dentro e fora do Japão devido a uma nova onda de Covid-19 no país, os Jogos Olímpicos de Tóquio-2020 patinam. O evento não conta mais com respaldo econômico, epidemiológico, nem o apoio popular.

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Juliana Sayuri, correspondente da RFI no Japão

A 56 dias da abertura das Olimpíadas, programada para 23 de julho, o discurso oficial indica que sim, os Jogos vão acontecer mesmo que o Japão enfrente uma nova fase da pandemia de Covid-19. 

Na quarta-feira (26), o diretor-executivo da Tóquio-2020, Toshiro Muto, disse que, até agora, o comitê organizador não está cogitando cancelar ou adiar o megaevento esportivo. Dias antes, o presidente do Comitê Olímpico Internacional, Thomas Bach, frisou que os Jogos serão “seguros para todos”.

Entretanto, o discurso não está conseguindo convencer nem engajar espírito olímpico, o que vem acirrando o clima de incerteza que ronda a competição. O próprio Bach cancelou sua visita oficial à metrópole japonesa neste mês por conta da pandemia.

A poucas semanas das Olimpíadas, as pressões pedindo o cancelamento crescem dentro e fora do Japão. Na segunda-feira (24), os Estados Unidos desaconselharam os americanos a viajar ao arquipélago asiático, que vive sua pior onda desde o início da crise sanitária, com aumento de casos, internações, mortes e 10 províncias sob estado de emergência.

No dia seguinte, pesquisadores americanos publicaram um artigo na revista científica New England Journal of Medicine recomendando que a Organização Mundial da Saúde (OMS) convoque um comitê de emergência para aconselhar a organização das Olimpíadas que, segundo eles, não estaria considerando evidências científicas para garantir condições de Jogos minimamente seguros.

Também na terça-feira (25), pesquisadores japoneses do Nomura Research Institute publicaram um estudo indicando que cancelar o evento custaria cerca de ¥ 1,8 trilhão (o equivalente a mais de R$ 90 bilhões). No entanto, destaca o estudo, o custo do cancelamento seria menor do que o de arcar com mais um estado de emergência pós-Jogos. Em 2020, as primeiras medidas de restrição custaram mais de ¥ 6 trilhões; em 2021, as atuais já estão na casa de ¥ 1,9 trilhão. 

Além disso, diz o estudo, a decisão de realizar o evento deveria considerar não só o custo econômico, mas o impacto epidemiológico.

Na quarta-feira (26), foi a vez do Asahi Shimbun, um tradicional jornal japonês e um dos patrocinadores oficiais das Olimpíadas, se manifestar. Em editorial endereçado ao primeiro-ministro Yoshihide Suga, o diário pediu o cancelamento dos Jogos, cravando um posicionamento forte e inédito até então.

Histórico de críticas

Os recentes posicionamentos de epidemiologistas, economistas e jornalistas se somam a outras críticas. Desde 2020 ocorrem protestos e pequenas manifestações contra a realização das Olimpíadas

Pesquisas de agências japonesas indicam que a maioria da população do país não gostaria que elas acontecessem agora. Segundo uma das enquetes, realizada pela Kyodo News em abril, 72% dos entrevistados não querem o evento e 92% temem novas ondas de contágio do coronavírus. 

Um abaixo-assinado, organizado no site Change.Org pelo advogado Kenji Utsunomiya, ex-candidato ao governo de Tóquio, reuniu mais de 400 mil assinaturas contra o evento em 14 dias. 

Outro levantamento, publicado pelo Asahi Shimbun neste mês, indica que 83% dos entrevistados gostariam que a Olimpíada fosse cancelada ou adiada pela segunda vez. Veículos de comunicação como o Asia Nikkei e o Asia Times também publicaram artigos de autores críticos aos Jogos durante a pandemia. Assim, a Tóquio-2020 está seguindo sem respaldo econômico, sem consenso científico internacional, sem apoio popular e cada vez menos apoio de médicos, empresários e até atletas.

Neste mês, médicos de Tóquio publicaram carta aberta ao premiê pedindo o cancelamento. Naoto Ueyama, líder do sindicato médico, citou a possibilidade de se fomentar uma nova variante “olímpica” do vírus. O médico Shigeru Omi, assessor do painel de especialistas do próprio governo japonês, também levantou questões sobre os impactos dos Jogos na estrutura hospitalar do Japão. 

Um levantamento da agência Reuters indicou que 70% das empresas japonesas não são favoráveis às Olimpíadas neste momento. O magnata Hiroshi Mikitan, diretor-executivo da gigante digital Rakuten, definiu o evento como “missão suicida”.

A opinião de competidores também vem à tona. É o caso de Hitomi Niiya, recordista japonesa na prova dos 10 mil metros. “Como atleta, quero competir nos Jogos. Como pessoa, não quero. Honestamente, a vida humana é mais importante do que as Olimpíadas”, disse. 

Futuro político do premiê Suga

Nesta sexta-feira (28), o governo japonês decidiu prolongar mais uma vez o estado de emergência até 20 de junho, quase um mês antes do início dos Jogos Olímpicos. A medida estava inicialmente prevista até 31 de maio.

O Japão contabiliza mais de 730 mil casos e 12 mil mortes por Covid-19, segundo dados da Universidade Johns Hopkins. Entretanto, diferentemente de outros países do G7, o governo japonês está realizando uma campanha de vacinação considerada lenta – até agora, apenas 2,4% de sua população foi inteiramente imunizada com duas doses de vacinas, segundo os últimos dados do projeto Our World in Data, da Universidade Oxford. Nesse contexto, a aprovação do governo Yoshihide Suga cai mês a mês.

Suga assumiu como premiê em setembro, após a renúncia de Shinzo Abe, que se afastou do cargo por motivos de saúde. Em abril, seu índice de aprovação estava na casa de 40%. Em maio, caiu para 31%: um recorde negativo, segundo a pesquisa realizada pelo Mainichi Shimbun e o Social Survey Research Center. 

O primeiro-ministro enfrenta atualmente uma desaprovação de 59%. Especificamente sobre as ações de enfrentamento à pandemia, esse número salta para 69%. Estima-se que o evento esportivo também terá custos políticos, visto que o país terá eleições no segundo semestre desde ano. 

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