Linha Direta

Alemanha financia formação de imãs "made in Germany" visando maior integração de muçulmanos

Governo alemão começou a “formar” imãs profissionais “Made in Germany” com dinheiro público.
Governo alemão começou a “formar” imãs profissionais “Made in Germany” com dinheiro público. AP - Martin Meissner

A Alemanha inaugurou na terça-feira (15) seu primeiro centro de formação de religiosos muçulmanos com apoio estatal. A iniciativa visa formar imãs "made in Germany", mais integrados à sociedade alemã, com uma visão mais liberal e atenta aos valores ocidentais.

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Marcio Damasceno, correspondente da RFI em Berlim

Um dos principais telejornais do país chegou a chamar a inauguração de uma "pequena revolução" na vida dos entre 5,3 e 5,6 milhões de muçulmanos alemães, parcela que corresponde a cerca de 6,5% da população do país. 

Nas mesquitas alemãs, normalmente, a língua falada é turco ou árabe. Isso ocorre não só porque são os idiomas de muitos dos fiéis, mas porque, em grande maioria, os religiosos que fazem os cultos muçulmanos na Alemanha são enviados de outros países, principalmente a Turquia, que é de vem a remuneração deles.

Na maior parte dos casos, estes imãs vivem na Alemanha durante quatro ou cinco anos, alguns com vistos de turista, e são considerados estrangeiros no contexto social e cultural. Eles não conhecem a cultura do país e a realidade social. Também não conseguem atender muitos jovens fiéis que não dominam direito a língua turca, por exemplo.

Agenda política turca

Outro problema é que muitas vezes os quadros religiosos das mesquitas na Alemanha são funcionários do Estado turco e têm uma "agenda política" própria, que faz aumentar a influência política de Ancara na Alemanha. 

Metade dos entre dois mil e 2.500 imãs atuantes na Alemanha pertence à organização turca Ditib, que é a maior federação de mesquitas no país. A entidade depende diretamente do Ministério da Cultura de Ancara e gere quase mil comunidades locais. Há, inclusive, casos reportados de imãs dessa entidade turca que atuam na perseguição de dissidentes do governo turco que vivem na Alemanha.

Integração com a sociedade alemã

O curso de imã dura dois anos e é aberto a quem já tem um bacharelado em teologia islâmica ou diploma equivalente. Ele é financiado em parte pelo governo federal e o governo estadual da Baixa Saxônia. A formação inclui estágios práticos, técnicas de pregação, recitação do Corão, práticas religiosas e educação política.  

A primeira turma, que está começando agora, é composta de 55 pessoas, sendo que 19 são mulheres. A ideia é que, com um curso em alemão, seja promovido um islã mais enraizado na sociedade, que observe valores e o modo de vida do país. 

Também existe a preocupação de responder ao problema da radicalização dos muçulmanos, que muitas vezes ocorrem em mesquitas do país. Por isso, esses imãs a serem formados no novo centro devem representar um islamismo mais liberal, atento aos valores da Constituição alemã. 

Críticas de conservadores

A iniciativa é apenas um começo, mas não tem apoio da maioria das entidades islâmicas no país, parte delas de perfil mais conservador. A formação de imãs tem apoio financeiro do Estado alemão tem provocado críticas de alguns religiosos islâmicos porque vai contra o princípio segundo o qual as comunidades religiosas são as únicas habilitadas para formar sacerdotes.  

Duas das federações islâmicas mais importantes, como o Ditib e a Milli Gorus, não apoiam o centro de formação em Osnabruck. O Ditib, aliás, lançou no ano passado um programa próprio de formação de imãs em território alemão. 

Outro problema que ainda não parece ter sido solucionado ainda é onde esses imãs vão trabalhar, já que a grande maioria das mesquitas alemãs estão sob controle dessas federações islâmicas estrangeiras, que são avessas à formação de religiosos na Alemanha. 

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