“Marechal twitto”: populista esloveno assume presidência da União Europeia

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Um desafio para a UE que será presidida por um governo de ultradireita, dirigido por Janez Jansa, próximo do premiê da Hungria, Victor Orban.
Um desafio para a UE que será presidida por um governo de ultradireita, dirigido por Janez Jansa, próximo do premiê da Hungria, Victor Orban. AP - John Thys

A Eslovênia assume nesta quinta-feira (1º) a presidência rotativa da União Europeia, durante os próximos seis meses. É a segunda vez que este pequeno país dos Balcãs, com apenas dois milhões de habitantes, vai estar no comando do bloco europeu. A grande preocupação de Bruxelas é saber como o governo ultraconservador do primeiro-ministro esloveno, Janez Jansa, que tem adotado uma retórica populista e xenófoba, vai conduzir essa tarefa. 

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Letícia Fonseca-Sourander, correspondente da RFI em Bruxelas

Grande admirador do primeiro-ministro populista da Hungria, Viktor Orbán, e do ex-presidente dos EUA Donald Trump, o premiê esloveno recebeu o apelido de marechal “Twitto”, em referência ao ex-ditador Tito, da Iugoslávia, e pelos ataques frequentes, principalmente contra a imprensa, lançados em sua conta no Twitter. O dirigente esloveno usa a plataforma de maneira frenética, com cerca de 100 postagens por dia, para denegrir seus inimigos políticos, espalhar mensagens misóginas e promover suas teorias de conspiração.

Pouco conhecido do cenário político europeu, o dirigente, de 62 anos, assumiu o poder pela terceira vez em março do ano passado. Em 2018, o Partido Democrata Esloveno (SDS), do qual é líder, venceu as eleições legislativas e ele foi reeleito deputado com o slogan “Eslovênia em primeiro lugar”, se inspirando em seu ídolo Trump. Além de climatocético, o premiê da Eslovênia é abertamente xenófobo e tem recebido total apoio de Orbán, um dos políticos mais críticos da imigração na Europa.

Dias antes de assumir a presidência rotativa da União Europeia, Janez Jansa provocou polêmica ao anunciar que pretende distribuir abotoaduras com a efígie de uma pantera aos membros do Conselho Europeu. O problema é que, na Eslovênia, a imagem é muitas vezes associada aos movimentos ultranacionalistas.

Da esquerda para a direita

Como Viktor Orbán, Janez Jansa se converteu tardiamente à extrema-direita. Ele começou sua carreira política em partidos da esquerda, e após a queda da União Soviética, era uma das principais figuras da democracia eslovena. Nos anos 2000, foi aos poucos se virando para a direita. Sua transformação mais radical se deu durante a crise econômica da Europa, em 2012, e se aprofundou com a crise migratória, em 2015.

Em 2013, Jansa foi condenado a 10 anos de prisão e uma multa de € 37 mil por suspeita de corrupção e tráfico de influência em um caso que envolvia a venda de blindados finlandeses para as forças armadas da Eslovênia. Ele cumpriu menos de seis meses da pena. Em 2015, acabou absolvido pelo Tribunal Constitucional do país.

Desafios da presidência eslovena da UE

Em primeiro lugar, o maior desafio não só de Bruxelas, mas também dos diplomatas eslovenos, será lidar com um premiê polêmico, de extrema direita, que a princípio deveria nortear a agenda do Conselho Europeu, de maneira imparcial, nos próximos seis meses. Porém, a estreita ligação de Janez Jansa com o ultraconservador primeiro-ministro da Hungria pode impulsionar os interesses de Budapeste e isso apavora a União Europeia.

Entre as prioridades da presidência rotativa da Eslovênia, estão o aumento da coordenação para a política na área de saúde, a melhora do sistema de gestão de crises, incluindo o combate aos ciberataques, além de assegurar que o fundo de reconstrução pós-pandemia da União Europeia chegue aos países mais afetados do continente para reativar suas economias. É esperado que a Eslovênia realize uma cúpula sobre a integração dos Balcãs Ocidentais e, provavelmente, a abertura das negociações de adesão da Macedônia do Norte e Albânia ao bloco europeu deve ser desbloqueada.

Eurodeputados querem bloquear fundos para a Eslovênnia

Esta semana, deputados do Parlamento Europeu pediram que os fundos comunitários enviados para a Eslovênia sejam suspensos. Eles acreditam que os valores fundamentais da UE não estão sendo respeitados e que a mídia e o Judiciário no país estão sendo “obstruídos”. Os eurodeputados alertaram para o fracasso das autoridades eslovenas em indicar promotores para a Procuradoria-Geral Europeia, responsável em detectar e identificar fraudes envolvendo os fundos do bloco, como uma “séria deficiência do sistema jurídico esloveno”.

O Parlamento Europeu também alertou para os ataques à liberdade de imprensa no país, como os que têm ocorrido na Hungria e Polônia. Segundo a Comissão de Liberdades Cívicas do legislativo europeu, há dúvidas sobre a capacidade da presidência eslovena conseguir levar adiante os processos relacionados com violações do Estado de direito, quando o próprio primeiro-ministro e seus apoiadores criticam frequentemente jornalistas e veículos de comunicação, criando um “clima assustador”.

Na capital Ljubljana, centenas de pessoas se reúnem todas às sextas-feiras em frente ao Parlamento para protestar contra o governo de Janez Jansa, principalmente por seus ataques à liberdade de imprensa. Recentemente, os fundos do Estado destinados à agência de notícias pública, a STA, geraram críticas por parte da Comissão Europeia. Segundo o governo, o financiamento está suspenso porque a agência não enviou os documentos necessários. Os fundos do governo representam metade do orçamento da agência de notícias eslovena.

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