Menor proteção da Coronavac deve adiar meta de imunidade de rebanho no Chile

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Atualmente, 83,6% dos chilenos já foram vacinados com uma dose e 71,5% com as duas doses, um número muito próximo da meta de 80% que poderia ser revista.Na imagem,um centro de informação sobre a Covid em Santiado do Chile, em  24 de maio de 2021.
Atualmente, 83,6% dos chilenos já foram vacinados com uma dose e 71,5% com as duas doses, um número muito próximo da meta de 80% que poderia ser revista.Na imagem,um centro de informação sobre a Covid em Santiado do Chile, em 24 de maio de 2021. REUTERS - IVAN ALVARADO

A bem-sucedida campanha de vacinação começa a dar os seus frutos mais visíveis, mas a imunidade de rebanho só deve ser atingida com quase 100% de vacinados devido à menor efetividade da vacina chinesa Coronavac, a mesma aplicada no Brasil e no Uruguai.

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Por Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

O Chile ocupa o pódio das nações que combatem com mais rapidez o coronavírus. Os primeiros sinais de alívio no número de contágios e vítimas se consolidam. A maior parte do país saiu do lockdown, mas a imunidade coletiva deve ser adiada, devido à menor efetividade da Coronavac.

"Muito provavelmente teremos que chegar a uma vacinação próxima de 100% da população para atingirmos os 80% previstos de cobertura de proteção", antecipa à RFI o pediatra e infectologista Miguel O'Ryan, do Instituto Biomédico da Universidade do Chile e membro do Comitê Assessor de Vacinas e Imunizações (CAVEI), do Ministério das Ciências e da Tecnologia do Chile.

"É muito provável que uma vacina como a Coronavac, cuja eficácia contra infecção global está entre 60 e 70%, requeira vacinar 100% da população para atingirmos a meta", explica.

A meta oficial é atingir a imunidade coletiva com 80% da população vacinada, equivalentes a 15,2 milhões de chilenos. Porém, como 70% das doses aplicadas no Chile foram com o imunizante chinês do laboratório Sinovac, a linha de chegada tende a ser adiada para atingir a quase totalidade dos 19 milhões de chilenos.

Em 16 de abril, o Ministério da Saúde do Chile publicou um estudo realizado com 10,5 milhões de habitantes vacinados 14 dias depois da segunda dose da Coronavac. A efetividade da vacina foi de 67% (média entre a variação de 65% a 69%) para prevenir a Covid-19 sintomática. O número é bem inferior aos mais de 95% da Pfizer, a segunda vacina mais aplicada no país.

Proteção de 67%

Atualmente, 83,6% dos chilenos já foram vacinados com uma dose e 71,5% com as duas doses, um número muito próximo da meta de 80% que poderia ser revista.

"A vacinação no Chile usa principalmente a Sinovac. A vacina é o que é. Está mostrando uma efetividade ao redor de 67% contra a infecção sintomática e 85% contra a infecção grave. Não tem 95% como a Pfizer, mas tem 67%", ressalta O'Ryan, numa defesa da vacina que permitiu ao Chile desenvolver uma das campanhas de maior sucesso no mundo, comparável a dos países mais desenvolvidos.

"Era a vacina que estava disponível. Não tínhamos a Pfizer para 15 milhões de chilenos, mas tínhamos uma chance com a Sinovac. Esperamos agora que, com as outras vacinas, possamos cobrir toda a população para entrarmos em agosto e setembro com uma diminuição muito significativa de casos, como a que vemos no Hemisfério Norte", projeta o especialista chileno.

Terceira dose e coronavírus por muitos anos

O Chile deve desenvolver ensaios clínicos com terceiras doses da Coronavac para avaliar o aumento da proteção. "A nosso ver, a Coronavac tem um papel muito importante em ajudar num melhor controle da pandemia. Se vai requerer ou não, alguma dose de reforço com essa ou com outra vacina, isso também vai depender de estudos clínicos sérios. Esperamos desenvolver ensaios clínicos com terceiras doses de vacina para avaliar a segurança e o efeito que eventualmente teria no aumento da resposta imune", indica.

Quanto à instalada figura da imunidade de rebanho, Miguel O'Ryan aconselha abandonar essa ideia e aprender a administrar o vírus. "Temos de deixar de lado a famosa ideia de que a imunidade de rebanho vai conseguir controlar o vírus num curto prazo. A vacinação fará o seu trabalho, conseguindo manter o vírus num baixo nível de circulação e num nível de circulação aceitável para a população", aponta.

"O objetivo final não será eliminar o vírus com imunidade de rebanho, mas conseguir controlar o vírus a um nível máximo que implique poucas infecções graves e que passe a ser um vírus de baixa circulação endêmica por muitos anos, mas claramente administrável pelos países", acrescenta.

Das 26 milhões de doses administradas no país, mais de 18,5 milhões foram da CoronaVac, 5,9 milhões da Pfizer, 925 mil da AstraZeneca e 575 mil da CanSino.

Campanha de vacinação veloz; queda lenta de casos

A vacinação no Chile avança rapidamente desde dezembro. Na semana passada, o país começou a vacinar os menores de 18 anos, mas os números de contágios só começaram a diminuir nos últimos dias.

O tempo de espera para a geração de anticorpos, a menor efetividade da Coronavac, o surgimento de novas variantes ao longo dos últimos meses e um cansaço da população em relação à pandemia, associado a um certo relaxamento nos cuidados entre aqueles que já foram vacinados, são os elementos que os especialistas citam para explicar por que o Chile convive com uma aparente contradição entre uma campanha de vacinação exemplar e um número elevado de casos que forçaram novos lockdowns.

"Acho que pode ter havido um erro inicial de comunicação sobre as expectativas com a campanha de vacinação. Nós, da comunidade científica, sabíamos que o desafio era conseguir que o país tivesse um aumento significativo da vacinação para atravessar o frio. Era uma corrida entre o aumento da vacinação e o aumento da circulação viral no inverno", explica Miguel O'Ryan, sublinhando que "sem vacina, teríamos tido o dobro ou o triplo de casos, como aconteceu no outono-inverno da Europa".

O infectologista, que assessora o governo chileno, explica que o número de casos durante a segunda onda no Chile é semelhante ao da primeira, enquanto nos países vizinhos, como Argentina, Colômbia e Brasil, onde a campanha de vacinação é mais lenta, a segunda onda teve o dobro ou o triplo de casos.

"Na maioria dos países latino-americanos, a segunda onda superou entre duas e três vezes a primeira. No Chile, o número de casos foi equivalente ao da primeira, sendo que agora testamos muito mais. Então, esse é o efeito positivo da vacina que não se percebia", garante.

Comparação com o Hemisfério Norte

A explicação para uma queda veloz de casos no Hemisfério Norte, mas lenta no Chile, passa, segundo Miguel O'Ryan, pelas estações do ano.

"Alguns aspectos do que aconteceu em Israel ou do que está acontecendo no Hemisfério Norte em geral são explicados pelo fato de a vacinação por lá ter acontecido na primavera-verão enquanto nós enfrentamos o outono-inverno. No Hemisfério Norte, o vírus diminuiu até mesmo nos países que não vacinaram nem 30% da população. Foi simplesmente porque entram na primavera-verão", compara.

Isso explicaria porque a vacinação no Chile num ritmo semelhante ao de Israel ou do Reino Unido só começou a dar os primeiros sinais de alívio seis meses depois de ter começado.

"É preciso ter em mente que a vacinação no Chile aconteceu no pico epidêmico do vírus. No Hemisfério Norte, como em Israel, vacinaram com Pfizer que tem maior efetividade contra a infecção", aponta O'Ryan.

Segunda onda superada

Ainda é preciso esperar uma consolidação da tendência vista ao longo da última semana, mas tudo indica que o Chile superou a segunda onda. No final de semana, o país apresentou as taxas de positividade (entre 4% e 5%) mais baixas desde dezembro.

Dos 90% dos chilenos que estavam confinados, apenas 10% continuam sem poder sair de casa. Os contágios diminuíram quase 40% em relação às duas semanas anteriores e 70% em relação a abril. A pressão no sistema de Saúde teve um leve respiro, apesar de ainda estar em 93,5% de ocupação das UTI. Embora seja considerado um número de risco, é a taxa mais baixa desde fevereiro.

Nas últimas 24 horas, foram 2.852 novos casos, longe dos 9.171 registrados em 9 de abril passado. No total, o país contabiliza 1,573 milhão de contágios e 33.249 óbitos, sendo 146 nas últimas 24 horas.

No entanto, o toque de recolher das 22 às 5 h permanece em vigor e as fronteiras continuam fechadas até, pelo menos, 14 de julho. O Chile teme agora o avanço da variante "Delta".

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