LINHA DIRETA

Biden trata crise em Cuba de olho em eleitores latinos perdidos para Trump na Flórida

Áudio 04:20
As manifestações de cubanos contra o regime comunista da ilha fazem o presidente dos EUA, Joe Biden, refletir sobre a melhor estratégia a adotar em relação à crise, que pode render frutos eleitorais em 2024.
As manifestações de cubanos contra o regime comunista da ilha fazem o presidente dos EUA, Joe Biden, refletir sobre a melhor estratégia a adotar em relação à crise, que pode render frutos eleitorais em 2024. © RFI

Quando Joe Biden tomou posse, em janeiro passado, a Casa Branca deixou claro que Cuba não era uma prioridade do novo governo. Mas, com os recentes protestos na ilha, o democrata se encontra em uma encruzilhada política. De olho nas eleições de 2024, seu partido quer reconquistar os votos da comunidade hispânica que perdeu para Donald Trump na última votação no estado chave da Flórida, onde se encontra a maior comunidade cubana fora da ilha. 

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Ligia Hougland, correspondente da RFI em Washington

Biden terá de enfrentar um desafio inesperado. A Casa Branca não estava escondendo que seu plano era manter Cuba no banco traseiro. A ideia, aliás, era seguir a tradicional estratégia americana de ignorar os problemas que vêm da América Latina e só promover comentários ou medidas de pouco peso em caso de crise nos países vizinhos ao sul. Agora, com as manifestações dos cubanos contra a crise econômica acentuada pela pandemia de Covid-19 e a repressão política, o presidente americano se encontra em uma situação complicada – e sofre pressão de dois lados. 

Os republicanos no Congresso se aproveitam da situação para acusar Biden de ser simpático ao comunismo, pois está apenas enviando mensagens de um suporte morno aos cubanos que sofrem com a repressão da ditadura, que inclui até a impossibilidade de acessar a internet.

O senador Marco Rubio (Flórida) diz que está na hora de o governo Biden colocar sua famosa capacidade de diplomacia em prática, especialmente ativando a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização dos Estados Americanos (OEA).

“[Biden] precisa pressionar ou envergonhar a comunidade internacional para que condenem e isolem esse regime, e pressionar para que estejam preparados a fim de tomar medidas para evitar um banho de sangue", disse o senador.

Enquanto isso, os democratas mais de esquerda pressionam pelo fim do embargo a Cuba. Assim, lidar com Havana, apesar de ser uma questão de política externa, pode ter um grande impacto na política doméstica dos Estados Unidos.

Pressões na Flórida

A comunidade cubana da Flórida quer ver o fim da ditadura que fez com que essas pessoas ou seus parentes tivessem de deixar a ilha. Esse grupo de eleitores pede que Biden seja mais duro com o regime de Havana. O prefeito de Miami, Francis Suarez, pediu que a Casa Branca considerasse uma intervenção com ataques aéreos contra o governo cubano para ajudar os manifestantes.

Alguns analistas acreditam que essa crise pode até ser uma oportunidade de o Partido Democrata provar que realmente não quer trazer o socialismo para o país, o que foi uma das narrativas que os republicanos usaram com certo sucesso nas últimas eleições. Para reconquistar a Flórida e grande parte da comunidade hispânica do estado, que tradicionalmente vota em democratas, mas migrou para o republicano Trump nas últimas eleições, Biden teria de ser realmente incisivo ao oferecer total apoio aos manifestantes contra o regime comunista.

Fernand Amandi, um democrata especialista em pesquisas, acredita que a crise atual oferece à Casa Branca a possibilidade de eliminar algumas percepções de que o Partido Democrata está dominado pela esquerda radical. Mas, para isso, Biden teria de mostrar seu total apoio à oposição cubana.

Por enquanto, essa manobra não está acontecendo com sucesso. O secretário do Departamento de Segurança Nacional, Alejandro Mayorkas, que inclusive veio na infância para os Estados Unidos como refugiado cubano, anunciou com firmeza, na terça-feira (13), que o país não receberia refugiados da ilha. Essa posição da Casa Branca desagrada tanto aos eleitores conservadores, que se opõem veementemente ao regime de Havana, quanto aos eleitores liberais, que apoiam a abertura das fronteiras para refugiados políticos.

Embargo tende a permanecer

Apesar da forte pressão de grupos de esquerda tanto dos Estados Unidos quanto da comunidade internacional pelo fim do embargo que foi imposto por John Kennedy, em 1962, é improvável que isso aconteça no futuro próximo. O governo Biden não dá sinais de querer alterar o que Trump fez a respeito ao embargo.

Há poucas semanas, a ONU votou mais uma vez – isso se repete há 29 anos – pelo fim do embargo a Cuba, com 184 votos a favor. Os Estados Unidos mantiveram sua tradição de votar contra a resolução. O outro país que votou contra foi Israel.

Em 2016, pela primeira vez, os Estados Unidos se abstiveram do voto. Na ocasião, Barack Obama cogitava uma aproximação com Havana. Mas Trump botou o pé no freio desses planos, e Biden ainda não parece interessado em mudar a política de seu antecessor quanto ao embargo.

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