Linha Direta

Boris Johnson empurra responsabilidade de máscaras para empresas e comércio

Áudio 04:47
Em Londres, mais de um terço da população ainda não tomou a primeira dose da vacina contra a Covid-19.
Em Londres, mais de um terço da população ainda não tomou a primeira dose da vacina contra a Covid-19. REUTERS - HENRY NICHOLLS

Com mais de 50 mil novos casos diários de contaminação pelo coronavírus, o Reino Unido começa a semana sem restrições sanitárias. Em uma mistura de entusiasmo e desconfiança, depois de tantos meses de pandemia, o público pode voltar a lotar as grandes produções nos tradicionais palcos de teatro londrinos a partir desta segunda-feira (19).

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Muitas peças já estão com ingressos lotados para a alegria de quem já não aguentava mais a limitada vida pandêmica. Para especialistas e críticos, contudo, o Reino Unido desafia as estatísticas num momento em que o número de novas contaminações pelo coronavírus cresce aos saltos por conta da variante Delta.

No entanto, o "dia da liberdade", como vinham chamando os tabloides britânicos, é marcado por uma saia justa do governo: o primeiro-ministro Boris Johnson e o secretário do Tesouro, Rishi Sunak, estão em quarentena depois de ter tido contato com o secretário de Saúde, Sajid Javid, que está com a Covid-19. 

Mesmo assim, o primeiro-ministro não abriu mão de seguir com o calendário. A ansiedade de reabrir a economia é maior do que o que parece ser uma inevitável quarta onda da epidemia. Para se resguardar e evitar ser ele — mais uma vez — o estraga-prazeres, Johnson manteve a data, mas passou para as empresas e os próprios cidadãos o ônus de seguir com medidas restritivas.

Com o fim da obrigatoriedade do uso de máscaras e do distanciamento social, caberá à sociedade decidir o que fazer a partir desta segunda-feira. A prefeitura de Londres já avisou que é para os usuários continuarem usando máscaras nos transportes públicos. A capital é comandada pelos trabalhistas, oposição aos conservadores de Johnson.

A rede de supermercados Tesco, uma das maiores do país, também pediu  aos clientes por e-mail que sigam com máscaras durante as compras. Nos salões de cabeleireiros, a opção também foi pela manutenção das medidas sanitárias.

Vacinação está atrasada em Londres

Enquanto 88% da população na Inglaterra já recebeu a primeira dose da vacina, e 68% estão totalmente imunizados, a situação é desigual pelo país. Em Londres, mais de um terço da população não tomou a primeira dose. Neste fim de semana, foi intensificada a campanha para que os londrinos se apresentassem nos postos de vacinação, muitos deles temporários, abertos às pressas para estimular o atendimento. Teme-se que os casos diários cheguem a 100 mil ou 200 mil infectados, segundo estimativas do próprio governo.

Especialistas se preparam para a quarta onda e já se fala em novas restrições a partir de outubro. A Escócia seguirá com a obrigatoriedade das máscaras, assim como o País de Gales. O fato é que o governo de Johnson está em apuros. Não foi preciso esperar muito tempo para se entender os riscos. Com os três principais nomes do governo isolados por conta do vírus nos próximos dias, a população assiste perplexa à desejada retomada de uma vida mais normal.

No gabinete de Johnson, aventou-se a possibilidade de o primeiro-ministro e o secretário do Tesouro não permanecerem isolados como parte de um "programa piloto". De acordo com esse programa, pessoas poderiam ser liberadas da quarentena obrigatória, posterior ao contato com contaminados, após novo teste. Mas a tensão é tal que, menos de duas horas depois do anúncio, temendo uma repercussão negativa, os próprios ministros avisaram que não há por que seguirem regras distintas do resto do público.

Mortes e hospitalizações podem se agravar

Com o início do período de férias de verão na Europa, os britânicos começam a viajar. Os especialistas vão acompanhar com lupa os números. As mortes e hospitalizações têm subido, mas em menor velocidade, em função dos altos índices de vacinação. É com isso que o governo está contando em seu favor daqui para a frente. Mesmo assim, existe uma expectativa de mais de 2 mil internações por dia no auge da nova onda, o que vai aumentar a pressão sobre o sistema de saúde nacional na época em que as doenças respiratórias requerem leitos para pacientes.

No resto na Europa, países como Espanha e Portugal começam a retomar as restrições. Na Holanda, o governo se desculpou por reabrir cedo demais. O medo dos líderes europeus é de fadiga mental e de consequências sobre a saúde da população.

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