Meio Ambiente

Projeto francês enfrenta percalços para devolver animais de zoológicos para natureza

Áudio 05:50
Um rinoceronte negro de 28 anos no Zoológico de Pont-Scorff, no oeste da França, em 27 de dezembro de 2019.
Um rinoceronte negro de 28 anos no Zoológico de Pont-Scorff, no oeste da França, em 27 de dezembro de 2019. AFP - DAMIEN MEYER
Por: Lúcia Müzell
12 min

A iniciativa é nobre mas o caminho se mostra mais tortuoso do que o previsto. Um ano depois de comprar um zoológico decadente para promover o retorno à vida selvagem dos animais do local, a organização francesa Rewild ainda não conseguiu reintroduzir nenhum bicho na natureza – e passou grande parte deste primeiro ano resolvendo problemas judiciais e sanitários.

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O projeto ganhou os holofotes na França no fim de 2019. Em poucos dias, um grupo de associações de proteção dos animais conseguiu juntar quase € 700 mil em doações on-line para se tornar o novo proprietário do zoológico do parque de Pont-Scorff, na Bretanha, no noroeste do país. O próximo passo seria preparar os cerca de 560 animais mantidos em cativeiro para retornar ao seu ambiente natural.

"A nossa maior prioridade são os animais da África e da Ásia, que suportam muito mal o clima europeu. Agora, estamos em pleno inverno e eles precisam ficar trancados a maior parte do tempo porque faz frio demais fora para eles”, explica a copresidente e porta-voz da Rewild, Lamya Essenlali. "Eles vivem em condições absolutamente inadaptadas para eles. Ter animais de clima quente no norte da Europa significa fabricar sofrimento.”

Lamya Essemlali, Lorane Mouzon e Perrine Crosmary, co-presidentes do grupo de ONGs "Rewild", posam para uma foto no Zoológico de Pont-Scorff, no oeste da França, em 27 de dezembro de 2019. -
Lamya Essemlali, Lorane Mouzon e Perrine Crosmary, co-presidentes do grupo de ONGs "Rewild", posam para uma foto no Zoológico de Pont-Scorff, no oeste da França, em 27 de dezembro de 2019. - AFP - DAMIEN MEYER

Espaços inadequados

Lamya relata que alguns dos bichos viviam sem acesso ao sol, ou a um local para poderem se isolar ou reproduzir. O primeiro passo foi acabar com a entrada dos mais de 200 mil visitantes por ano, para poder readaptar os espaços.

"O fato de manter os animais em condições para eles serem expostos é contraditório com o processo de reabilitação e retorno à vida selvagem que nos comprometemos. Num zoológico normal, os animais não têm o direito de se esconder do público e os seus instintos naturais ficam reprimidos: eles precisam estar sempre expostos e o local é feito de maneira a providenciar isso”, afirma. "Nós mudamos isso totalmente. As nossas jaulas são organizadas de maneira a atender às necessidades dos animais, e não as do público”, ressalta a copresidente.

Reações à iniciativa

A nova política, porém, gerou inimigos. O Rewild se tornou alvo de um cerco das entidades que promovem atrações com animais em cativeiro – aquários, circos e outros zoológicos tradicionais. Brotaram denúncias de irregularidades sanitárias, que a organização rebate afirmando que já existiam muito antes de se tornarem os novos donos.

Os críticos alegam, ainda, que a reintegração dos bichos na natureza não passa de ilusão. Segundo eles, raros são os casos de animais nascidos em cativeiro capazes de voltar a uma vida selvagem – via de regra, apenas os grandes predadores conseguiriam sobreviver.

A entidade da ONU ligada ao tema (União Internacional de Conservação da Natureza) adverte que a transferência de um animal deve garantir o benefício para a preservação da espécie ou de um ecossistema. Ou seja, se ele tem mais chances de sobreviver em cativeiro, essa alternativa deve prevalecer sobre o seu bem-estar, pelo menos quando se tratam se espécies ameaçadas de extinção.

Rewild, um projeto da Bretanha para devolver animais selvagens de zoológico. Na foto, um rinoceronte negro de 28 anos no Zoológico de Pont-Scorff, no oeste da França, em 27 de dezembro de 2019.
Rewild, um projeto da Bretanha para devolver animais selvagens de zoológico. Na foto, um rinoceronte negro de 28 anos no Zoológico de Pont-Scorff, no oeste da França, em 27 de dezembro de 2019. AFP - DAMIEN MEYER

Lamya afirma que a organização é orientada por especialistas em fauna selvagem e os planos de retorno à natureza de cada animal respondem a três critérios: comportamentais, sanitários e genéticos. “Alguns zoológicos estão fazendo de tudo para nos impedir de soltar os animais, nem que seja só para nos impedir de mostrar que isso é possível. Mas essa possibilidade está comprovada”, indica. "Trabalhamos em colaboração com o zoológico Aspinall da Inglaterra, que já devolveu para a vida selvagem cerca de 60 gorilas, rinocerontes, leopardos – e todos tinham nascido na Inglaterra.”

Tartarugas autorizadas a partir

As primeiras contempladas devem ser duas tartarugas de Seychelles, que já receberam autorização para partir e serem recepcionadas no arquipélago. A porta-voz reconhece os percalços, que segundo ela geraram "gastos enormes de dinheiro, tempo e energia” e desviaram o foco do objetivo do projeto. Para completar, o fim da venda de ingressos, que gerava a renda do antigo estabelecimento, coincidiu com o início da pandemia de coronavírus.

"Mesmo que, hoje, nenhum animal tenha saído ainda, muita coisa foi feita: muitos avanços para melhorar o dia a dia dos animais que vivem aqui, para podermos soltá-los um dia”, sublinha a ativista.

Lamya lembra ainda que algumas das espécies sequer existem fora dos zoológicos, como os tigres brancos, resultado de uma manipulação genética pela consanguinidade. Nestes casos, só restaria o caminho de viverem em um santuário ou refúgio.

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