Meio Ambiente

Árvores: como elas podem refrescar cidades cada vez mais quentes

Áudio 06:46
Singapura, onde verdadeiras árvores de 40 metros são plantadas dentro dos prédios, é considerada referência mundial de vegetalização urbana.
Singapura, onde verdadeiras árvores de 40 metros são plantadas dentro dos prédios, é considerada referência mundial de vegetalização urbana. © Wikipédia
Por: Lúcia Müzell
13 min

As previsões dos climatologistas não deixam dúvida: na melhor das hipóteses, o planeta deverá suportar um aumento de cerca de 2°C da temperatura global, até o fim do século. Isso significa não apenas que deveremos adicionar essa alta às marcações atuais dos termômetros, como teremos de aguentar mais eventos climáticos extremos, como as ondas de calor.

Publicidade

Nos grandes centros urbanos, o concreto e o asfalto acentuam o problema: escuros, eles armazenam o calor. Já os imóveis impedem o ar de circular – juntos, os dois fatores transformam as cidades em fornos.

Para combater um transtorno que a ciência antecipa como certo, prefeituras como as de Paris, Milão ou Seul colocam as árvores no foco do planejamento urbano do futuro. A simples presença delas já traz um alívio quando, sob o sol, a sensação térmica ultrapassa os 40°C.

O paisagista Philippe Niez atua em grandes projetos urbanísticos em diversos países, inclusive na África. Ele explica que, além da sombra, o fenômeno da evapotranspiração resulta em mais frescor quando estamos próximos às árvores.

"É porque elas transpiram, e ao transpirar, elas liberam pequenas partículas de água, que capturam o calor”, afirma. "Lembro que, uma vez, quando eu passeava em Dacar, peguei uma ruazinha que acabava na praia e passei sob uma acácia do Senegal, e a diferença de temperatura entre estar no sol e embaixo desta árvore era entre 3 a 4 graus. É uma árvore que deveria ser mais utilizada em uma cidade como Dacar”, comenta.

Philippe Niez, jardineiro-desenhista paisagista, diretor da agência de paisagismo Niez Studios.
Philippe Niez, jardineiro-desenhista paisagista, diretor da agência de paisagismo Niez Studios. © Captura de tela

O arquiteto Philippe Rahm lembra o quanto, ao longo da história, a arquitetura buscou combater as altas temperaturas em países quentes e áridos como os mediterrâneos. Na Espanha ou no Marrocos, as ruas são mais estreitas e as praças têm sempre uma fonte ou um chafariz para acentuar esse efeito de frescor que as árvores também proporcionam.

270 árvores por pessoa

Autor de Histoire naturelle de l’architecture: Comment le climat, les épidémies et l'énergie ont façonné la ville et les bâtiments (“História natural da arquitetura: Como o clima, as epidemias e a energia moldaram a cidade e os prédios”, em tradução livre), Rahm observa que as árvores desempenham um papel importante contra a poluição, que reprime o calor dentro das cidades, ao gerar o famoso efeito estufa.

"Temos que ter em mente que é preciso 270 árvores para absorver o CO2 que cada um de nós gera por dia. Ou seja, precisamos de muitas árvores. Se plantamos 10 no nosso jardim, elas sequer cobrem o nosso consumo de CO2”, salienta. "É por isso que as grandes florestas são importantes, a Amazônica, ou todo o plâncton nos mares, que são imensas quantidades de plantas para absorver o CO2.”

Philippe Rahm, arquiteto, autor de História Natural da Arquitetura: Como o clima, as epidemias e a energia mudaram a cidade e os prédios.
Philippe Rahm, arquiteto, autor de História Natural da Arquitetura: Como o clima, as epidemias e a energia mudaram a cidade e os prédios. © Fotomontagem RFI/Adriana de Freitas/Capturas de tela

Philippe Niez frisa ainda a importância de serem escolhidas árvores adaptadas ao clima de cada região – Paris, por exemplo, é repleta de castanheiras que, no auge do verão, em agosto, já começam a perder as folhas.

"As plantas são verdadeiros ares-condicionados, embora eu ache esse termo um pouco bobo”, diz o paisagista. "Foram elas que criaram a atmosfera na qual estamos, durante milhões e milhões de anos, e estamos destruindo isso. As florestas primárias hoje só representam 7% da superfície da Terra.”

Corredores para circulação do ar

Neste aspecto, os dois especialistas destacam o quanto a Ásia tem a ensinar para o Ocidente – primeiro, por preservar mais as florestas, mas também por integrar melhor a vegetação no urbanismo. Singapura, onde verdadeiras árvores de 40 metros são plantadas dentro dos prédios, é considerada referência mundial de vegetalização urbana.

A capital sul-coreana lançou, em 2020, um plano de US$ 15 milhões para não apenas arborizar mais a cidade, como utilizar as árvores para melhorar a circulação do ar e, assim, atenuar o calor.

“A ideia de criar corredores de vento é que eles podem acontecer graças a diferenças de temperaturas interligadas. Por exemplo: plantamos bastante árvores em um lugar e criamos um arranjo, conectado a um outro lugar da cidade. Esse tipo de solução é uma das que mais dão resultado para refrescar as cidades”, indica Philippe Rahm. "A Ásia está na ponta desse tipo de projeto, mas todas as grandes cidades do mundo estão refletindo sobre isso, porque as mudanças climáticas estão tornando-as mais quentes.”

Os especialistas destacam ainda que para ser eficaz, o projeto urbanístico precisa contar com árvores de grande porte – as jardineiras embelezam uma cidade, mas não contribuem para atenuar o calor. Em Paris, onde diversos projetos prometem tornar a capital francesa mais verde, a prefeitura quer acabar com estacionamentos subterrâneos na área central para dar espaço às raízes profundas das árvores na superfície. É o que deve acontecer em áreas como em frente à Ópera ou da própria prefeitura, em pleno coração da Cidade Luz.

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.