O Mundo Agora

Na Europa, a pandemia altera o cotidiano a fundo perdido

Áudio 04:57
Pedestres na Avenida  Champs-Elysées em Paris, em 24/02/2021.
Pedestres na Avenida Champs-Elysées em Paris, em 24/02/2021. AP - Michel Euler

Muito se tem falado, escrito, televisionado, filmado, etc. sobre as macro-alterações que a Pandemia do Corona-Vírus trouxe, está trazendo e ainda vai trazer para a vida econômica, política, cultural e social do planeta, e da Europa em particular. Algumas previsões são otimistas, prevendo um mundo mais consciente sobre os problemas ambientais, por exemplo, que têm enorme importância política no continente. Outras nem tanto, advertindo, no caso da Europa, sobre os riscos de uma desagregação relativa ou radical da União Europeia.

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Flávio Aguiar, de Berlim

Ainda outras são declaradamente pessimistas, vendo a Europa como um território comprimido entre os novos termos das disputas entre Estados Unidos, Rússia e China, algo prenunciado pela atual “Guerra das Vacinas” entre laboratórios e países.

Nestes termos, o impacto da atual pandemia que, dependendo do país e da região, já está na sua segunda, terceira ou até quarta onda, é enorme e ainda está para ser dimensionado.

Por exemplo, neste 1° de Maio, sindicatos e movimentos sociais se valeram de diferentes estratégias para comemorar o Dia do Trabalhador. Em Paris e Istambul, optaram por voltar às grandes manifestações. Já na Alemanha, as manifestações se fragmentaram em várias pequenas concentrações: mais de 40, apenas em Berlim.

Desinformação e teorias conspiratórias

Cresceu a desconfiança em relação a governantes de todos os pontos cardeais e informações sobre a própria pandemia. A disseminação de teses sobre conspirações de todos os tipos, ligadas à pandemia, se avolumou, indo desde aquelas que acusam a China de ter fabricado o vírus para ajudá-la a dominar o mundo até as que veem, nas medidas sanitárias, uma verdadeira tramoia dos Estados e governantes para dominar autoritariamente a vida dos cidadãos comuns. Esta nova condição tem a ver com o atual desenho das redes que cobrem o planeta valendo-se da velocidade acelerada das comunicações e da informação.

Uma breve comparação com o universo da chamada Gripe Espanhola ilustra o caso. Aquela pandemia dominou o mundo entre o começo de 1918 e meados de 1920, deixando um rastro de 500 milhões de infectados (um terço da população mundial) e uma estimativa de letalidade que varia entre 17 e 100 milhões de mortes. Mas a Gripe Espanhola viajava de navio entre os continentes e países, ou ainda de trem pelo interior deles. Viajava através do telégrafo e dos jornais: não havia televisão nem internet, e o rádio era ainda uma novidade juvenil.

Assim mesmo houve teorias conspiratórias: uma delas acusava a Alemanha de ter inventado a gripe e disseminado seu vírus através das aspirinas fabricadas pelo laboratório Bayer. As informações científicas e médicas eram muito mais limitadas: os vírus eram pequenos demais para serem vistos nos microscópios, e por isto muitos acharam, durante muito tempo, que a gripe era disseminada por uma bactéria.

Alterações da vida cotidiana

Hoje a paisagem planetária é muito diferente, e isto ajuda a entender por que esta pandemia, a do coronavírus está alterando na raiz também a micro-paisagem da vida cotidiana das pessoas, na Europa, este verdadeiro ponto intermediário de encontro entre os vários continentes.

Em primeiro lugar, as informações viajam com uma velocidade e com um volume realmente assustadores, atingindo tudo e todos desde a cabeceira matinal da cama, nos noticiários de rádio, até os telejornais de antes e depois do jantar, à noite, passando pelo bombardeio da internet durante o dia. As notícias angustiantes sobre os desastres sanitários do Brasil e da Índia são acompanhadas hora a hora, o dia inteiro.

Traz isto uma segurança para os cidadãos europeus? Não, pelo contrário, porque sabe-se que a atual pandemia não viaja mais de navio ou trem, mas de avião, em que pesem as medidas restritivas de voos.

Em segundo lugar, isto se soma a uma sensação que profissionais das áreas de psicologia, psiquiatria, psicanálise e antropologia vem chamando de “definhamento”, “languishing” em inglês, língua em que o conceito foi disseminado inicialmente.

A palavra descreve uma situação intermediária entre o bem-estar e a depressão, em que o ou a paciente, embora não padeça de impulsos suicidas ou de inércia, sofre uma sensação de pequenez ou de relativa impotência diante da catástrofe que se abate sobre o mundo.

Mal comparando, imaginemos a sensação de quem se deu conta, nos anos 50 do século passado, de que a bomba que martirizou Hiroshima e Nagasaki, no distante Japão, não estava, na verdade, tão longe assim de seu próprio lar. E isto é particularmente importante num continente atravessado por informações de todos os pontos cardeais do mundo, como a Europa, com a sensação de estar no meio, sublinho, no meio delas e dos conflitos mundiais.

Mudanças provocadas pelo lockdown

Para completar este quadro complexo, o confinamento a que as pessoas melhor informadas, ao contrário dos negacionistas, se submetem, vem produzindo alguns efeitos bizarros, para dizer o mínimo.

Alguns deles são positivos, de maior liberdade. Reportagens publicadas na mídia britânica dão conta de como o isolamento voltou a liberar muitas mulheres da constrição de se sentirem obrigadas a usar sutiãs no trabalho, como no caso das feministas dos anos 60 do século passado. Algumas vão ao ponto de dizer que, quando voltarem ao trabalho presencial, não usarão mais o sutiã em hipótese nenhuma, nem que tenham de mudar de emprego. Outras, mais cautelosas, dizem que vão comprar números maiores, para se protegerem da eventual maledicência machista, e ao mesmo tempo se livrarem do desconforto de usar algo mais apertado.

Um campo surpreendente destas mudanças diz respeito à higiene pessoal. Já se sabe que, em geral, europeus e europeias costumam tomar menos banhos e duchas do que homens e mulheres nas Américas, do Alaska à Patagônia, passando pelo Brasil. Pois o “home office” da pandemia diminuiu mais ainda os números das estatísticas do banho!

Pesquisas preliminares mostram que aumentou - e muito - a quantidade diária de lavagens das mãos - há quem diga até que a Bíblia deveria reabilitar Pôncio Pilatos. Mas a quantidade semanal de banhos e duchas caiu, bem como a de troca de roupas íntimas, segundo pesquisa da agência também britânica YouGov. Há interpretações que veem nesta tendência uma busca de descontração diante do estresse suplementar que o confinamento traz, sobretudo para as pessoas que vivem sozinhas.

Diminuição da libido? 

E quanto aos que vivem juntos, seja em que opção sexual for? Ao contrario do que se poderia supor, pesquisas também preliminares afirmam que, em geral, devido àquela sensação de “definhamento”, a libido tende a diminuir, não a aumentar. O caso fica óbvio para aquelas pessoas que vivem em situação conjugal com filhos ao redor, sem o recurso da escola ou de avós providenciais, recurso que na Europa é mais raro do que no Brasil, por exemplo.

Mas mesmo para pessoas que vivem conjugalmente sem os miúdos, como se diz em Portugal, para cuidar, a libido, o desejo sexual, não parece aumentar, em muitos casos. Não me refiro aqui a casos patológicos, como os que registram a aumento da violência doméstica depois da pandemia. Me refiro ao fato de que muitos consultórios psicológicos ou outros vêm registrando que a convivência forçada e quase que exclusiva entre duas pessoas pode conduzir a uma sensação de que o desejo por alguém pode perder o atrativo de ser uma escolha livre - e que o confinamento resultante da pandemia aumentou esta sensação negativa.

O que será da vida, daqui por diante? Eis uma pergunta, como dizia um amigo e colega da Universidade de São Paulo, que equivale a “uma faca de muitos gumes”. Certamente ela obterá, no futuro, um verdadeiro mar  ainda incógnito de respostas.       

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