Libertação de executiva da Huawei não muda dinâmica preocupante de escalada entre EUA e China

Áudio 04:10
Meng Wanzhou (centro), filha do fundador do grupo de telecomunicações chinês Huawei, passou três anos em prisão domiciliar no Canadá.
Meng Wanzhou (centro), filha do fundador do grupo de telecomunicações chinês Huawei, passou três anos em prisão domiciliar no Canadá. REUTERS - TAE HOON KIM

A liberação de Meng Wanzhou para que ela retornasse à China representou um marco em uma das primeiras crises entre Estados Unidos e China, envolvendo, naturalmente, o Canadá. Em uma disputa que durou três anos, a libertação de Meng veio junto com a de dois canadenses, Michael Kovrig e Michael Spavor, que haviam sido presos na China, sob alegação de espionagem. 

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Thiago de Aragão, analista político

Por mais que a detenção de Meng em Vancouver tenha ocorrido por uma decisão americana, com colaboração canadense, a prisão dos canadenses colocou uma imensa pressão em cima do primeiro-ministro Justin Trudeau. 

O ponto central da libertação de Meng foi o acordo com a Procuradoria americana, no qual a herdeira do grupo de telecomunicações Huawei admitiu que violou sanções de vendas para o Irã. Essa confissão teve um efeito meramente simbólico, pois ela acabou sendo libertada e a margem do que os EUA podem fazer a partir de agora é limitada. É importante ressaltar a pressão feita pelo governo canadense para que o caso tivesse uma conclusão rápida, já que Trudeau estava sendo emparedado pela opinião pública, aliados e adversários políticos para dar um desfecho positivo para os canadenses presos na China. 

Por mais que este caso seja um exemplo de convergência entre EUA e China, nada muda nas tensões vividas pelos dois países. A China considera uma profunda humilhação a prisão de Meng e, mesmo com a liberação, a percepção em relação aos EUA piorou. Para Pequim, a prisão foi uma forma de expor publicamente uma cidadã chinesa e levar o país ao constrangimento. 

Pequim e o Aukus

Mesmo com a boa notícia para Pequim, a semana que passou foi conturbada para a China. O acordo de submarinos entre EUA, Reino Unido e Austrália (Aukus) obrigou Pequim a remodelar sua estratégia naval para a região. Além disso, a crise do grupo imobiliário Evergrande e a crise energética fizeram com que a libertação de Meng fosse apenas uma gota em um oceano de dificuldades pelas quais a China atravessa. 

O "capítulo Meng" foi um dos grandes marcos do início das recentes tensões entre China e EUA. Tantos atritos aconteceram de lá para cá, que nesses três anos o caso acabou sendo quase esquecido. Foi solucionado, mas não muda em nada a dinâmica preocupante dessa escalada que vemos entre as duas superpotências.

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