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Reportagem

“Minha política é de inclusão de comunidades marginalizadas”, diz primeira vereadora afro-americana transgênero dos EUA

Áudio 05:59
Andrea Jenkins, vereadora de Minneapolis foi eleita em 2017.
Andrea Jenkins, vereadora de Minneapolis foi eleita em 2017. © Elcio Ramalho/RFI
Por: Elcio Ramalho
13 min

Andrea Jenkins tem seu lugar reservado na história da política americana por ter sido eleita a primeira mulher transgênero afro-americana para uma Câmara de Vereadores, a de Minneapolis, uma das grandes cidades do país. Recentemente, ela entrou para uma prestigiosa lista de 44 mulheres que estão transformando a política nos Estados Unidos e no mundo. 

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Andrea Jenkins exibe o livro "She represents" (Ela representa, em tradução livre) com uma lista de 44 mulheres que estão mudando a política em todo o mundo.
Andrea Jenkins exibe o livro "She represents" (Ela representa, em tradução livre) com uma lista de 44 mulheres que estão mudando a política em todo o mundo. © Elcio Ramalho/RFI

Do enviado especial a Minneapolis,

Depois de regar cuidadosamente as diversas plantas de seu gabinete no 4° andar do imponente prédio da Câmara de Vereadores de Minneapolis, em sua única visita ao local durante a semana por causa da pandemia, Andrea Jenkins se debruça sobre a pilha de correspondências depositadas na sua mesa. No pacote que mais lhe chama a atenção, ela encontra um exemplar de um livro enviado de presente e, não esconde a imensa surpresa. Três páginas são dedicadas a ela na obra “She represents....” (Ela representa, em tradução livre) da escritora e jornalista Caitlin Donohue, que lista as 44 mulheres que estão mudando a política não apenas nos Estados Unidos, mas em todo mundo.  

Este é o mais novo reconhecimento do trabalho desenvolvido por Andrea, eleita em 2017 com 73% dos votos de seu distrito eleitoral, um sucesso atribuído ao seu longo trabalho junto a comunidades menos favorecidas de Minneapolis. No currículo, está a curadoria de um projeto da história oral dos transgêneros na Universidade de Minnesota e muitos outros projetos desenvolvidos para a comunidade LGBTQI+, que lhe renderam diversos prêmios.

Andrea também trabalhou vários anos como assistente de políticos e da própria Câmara de Vereadores antes de se lançar definitivamente em uma campanha eleitoral como candidata pelo Partido Democrata. Segundo ela, a motivação também veio pelo rumo tomado no país desde a eleição de Donald Trump, em 2016. 

“Decidi me tornar uma representante ou ao menos concorrer à Câmara de Vereadores com o apoio de meus vizinhos porque os problemas de desigualdade na sociedade me afetam demais. Eu quero fazer parte das mudanças atuando nesta mesma arena. O que me motivou também a disputar a eleição foi a liderança que temos atualmente no cargo máximo do governo dos Estados Unidos. Conheço os embates em Washington, não teremos muitas leis nem apoio vindo de lá. Nas cidades estão as maiores inovações, é onde as mudanças acontecem, e quis fazer parte dessas mudanças em nível local”.

Reforma da polícia de Minneapolis

Andrea Jenkins foi eleita pelo distrito de Minneapolis onde o afro-americano George Floyd foi morto, em maio deste ano. A tragédia, segundo ela, serviu para escancarar as desigualdades da sociedade local e do país.

“Essa morte trágica, esse assassinato teve impacto no mundo todo. Ele criou um sentido de urgência para denunciar desigualdades na nossa sociedade e trazer justiça para as comunidades negras e pardas, que têm sido vítimas de racismo, opressão, homofobia e transfobia por muitas décadas e anos. Acho que a pandemia do coronavírus revelou muitas desigualdades e a morte de George Floyd acelerou ainda mais isso. E depois, aqui em Minneapolis, por todo os Estados Unidos e pelo mundo, houve demonstrações de resistência à opressão avassaladora que o capitalismo e os supremacistas brancos impõem à nossa cultura e sociedade”, argumenta. 

Dede a morte de Floyd, Andrea Jenkins tem militado pela reforma da polícia local. Houve muita pressão popular e discussões para abolir a estrutura policial municipal, mas o projeto acabou não prosperando. Segundo a vereadora, é preciso avançar numa reforma em que haja uma realocação de recursos da polícia para outros setores da sociedade.  

“Eu fiz parte de um pedido de realocação de recursos da polícia. E quando falo isso, penso em transferir recursos da polícia local para outras políticas públicas de segurança para a nossa sociedade, como investimentos em mais moradias, empregos, melhor acesso para o sistema de saúde e garantir que as crianças possam ir para as escolas e serem educadas para não se transformarem em vítimas de prisões. Não significa que não devemos ter polícia em nossa sociedade. Nós temos que ter policiais bem treinados para lidar com todo tipo de problemas, que sejam responsáveis por suas ações, e saibam lidar com vários tipos de situações, desde a investigação de crimes violentos, terrorismo e outros assuntos importantes que acontecem o tempo todo“, afirma.

Além de competências bem definidas, segundo a vereadora, é preciso uma mudança no tratamento dispensado pelos policiais aos cidadãos que se sentem discriminados. 

“Precisamos da polícia como parte da nossa sociedade, mas ela deve fazer parte da nossa comunidade. Ela não pode continuar operando como uma força militar. Alguns veem as pessoas que pagam seus salários como inimigos, e parece que os negros e pardos são o alvo de suas hostilidades. Isso tem que acabar. Estamos repensando e criando uma nova realidade para a segurança pública nas nossas comunidades e isso inclui um melhor treinamento das nossas forças policiais”.

Andrea Jenkins, de 59 anos, que também é escritora, poeta, artista e ativista dos direitos dos transgênero, garante que foi eleita por causa de sua plataforma ampla de luta pelo direito de diversas minorias. “Estou muito ciente de que meu trabalho é para que a comunidade LGBTQI+ tenha os mesmos direitos e justiça que qualquer outra pessoa na nossa comunidade. Mas não é uma plataforma específica. Sou muito inclusiva e minhas politicas visam também defender todas as comunidades sub-representadas e marginalizadas, como indocumentados, imigrantes, deficientes, e também problemas relacionados às mulheres para que todos possam ter seus direitos assegurados. Não tenho uma plataforma especifica, mas certamente uso meu trabalho como vereadora para elevar os temas que dizem respeitos às pessoas LGBTQI+”, diz. 

Futuro na política

Aos 59 anos, ela tem um mandato de vereadora garantido até 2021, mas não descarta futuras aventuras na arena política. A experiência em um contexto tão delicado para pessoas que ocupam cargos públicos, seja em que nível for dentro da administração pública, parece lhe dar combustível para tentar caminhos mais ambiciosos. 

“Não sei quantas pessoas em um cargo público tiveram que lidar com uma pandemia global, protestos e manifestações antirracistas ao mesmo tempo. A pandemia tem criado um verdadeiro pesadelo econômico para os políticos. Tem sido muito desafiador trabalhar neste contexto e quero muito continuar no meu papel de vereadora. Mas devo dizer que politica é uma questão de oportunidade. Até o momento, não tenho intenção de me candidatar a nenhum cargo. Mas, se houver oportunidade, estarei pronta para servir à minha comunidade”, conclui.

 

 

 

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