Reportagem

“Era de uma magnitude tão inimaginável, que meu raciocínio travou”, diz brasileiro que presenciou 11/9 em Nova York

Áudio 13:20
As torres gêmeas do World Trade Center em chamas, depois de terem sido atingidas por aviões sequestrados por terroristas da rede Al Qaeda em 11 de setembro de 2001.
As torres gêmeas do World Trade Center em chamas, depois de terem sido atingidas por aviões sequestrados por terroristas da rede Al Qaeda em 11 de setembro de 2001. AP - Richard Drew

Neste sábado (11), os Estados Unidos vão lembrar os 20 anos dos ataques do 11 de setembro de 2001. O maior atentado terrorista em território americano mudou o curso da história no país e no mundo. O brasileiro Hélio Bodini, radicado há anos em Nova York, presenciou os ataques contra as torres gêmeas do World Trade Center. Nesse podcast especial da RFI, ele lembra que "a magnitude [da tragédia] era tão inimaginável que travou o raciocínio" dele.

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Luiza Duarte, correspondente da RFI em Nova York

Eram pouco mais de 9h da manhã (pelo horário local) de 11 de setembro de 2001 quando Hélio Bodini, depois de ouvir a notícia dos ataques pela TV, subiu ao terraço de seu prédio em Nova York. O primeiro avião pilotado por um terrorista da Al Qaeda havia atingido a torre norte às 8h46, e o segundo alvejou a torre sul às 9h03.

“Conseguíamos ver as torres gêmeas enfumaçadas, a fumaça saindo. E aí rolou um branco na cabeça de pelo menos 20 a 30 minutos. Eu nunca senti isso na vida. Não conseguia formar uma opinião, tipo: é verdade? É a televisão? É a mídia? Isso está realmente acontecendo? O que é isso? Porque era de uma magnitude tão inimaginável que o nosso raciocínio travou por completo”, recorda Bodini. Agora, o 11 de setembro tem um triplo significado para o brasileiro: é seu aniversário, o dia em que chegou aos Estados Unidos e os atentados.

Vinte anos depois, Hélio acredita, como alguns nova-iorquinos, que a ferida aberta pelos ataques começa a se cicatrizar. “Hoje em dia, a tragédia do 11 de setembro tem o seu peso, mas não é mais uma data pesada. Foi uma data pesada durante 4, 5 anos depois do que aconteceu. E aí passou, vira a página, vamos lá, próximo”, afirma à RFI.

“Nunca esqueça”

Integrantes da Al Qaeda sequestraram e derrubaram três aviões comerciais no World Trade Center, em Nova York, e no Pentágono, em Washington. Um quarto avião sequestrado, que se acreditava ter como alvo o edifício do Capitólio na capital americana, caiu em um campo da Pensilvânia. Os ataques contra as torres gêmeas em Manhattan fizeram 2.753 vítimas. Outras 184 morreram no atentado ao Pentágono e 40 em Shanksville, na Pensilvânia.

Os ataques do 11 de setembro completam 20 anos

O 11 de setembro é uma data muito importante para os nova-iorquinos. A frase “never forget” (nunca esquecer, em português) é usada com frequência para descrever a tragédia. A imprensa americana traz neste aniversário de 20 anos uma série de edições especiais sobre o tema – novos documentários, relatos de sobreviventes e de testemunhas. Americanos com idade suficiente para saber onde estavam e como receberam a notícia dos ataques compartilham um momento de horror. Uma tragédia coletiva.

Segundo uma pesquisa do Pew Center publicada este mês, mais de 90% dos americanos com mais de 30 anos se lembram de como receberam a notícia dos ataques. Muitos viram as torres em chamas na TV.

Aniversário de 20 anos

A cerimônia em homenagem às vítimas de Nova York acontece no Marco Zero, onde estavam localizadas as torres gêmeas, hoje um grande vazio em uma área densamente ocupada por arranha-céus. O memorial dos ataques do 11 de setembro não é só um monumento, mas a própria lápide, o túmulo de cerca de 3 mil pessoas que faleceram no local e que as famílias não puderam enterrar. Mais de mil famílias nunca receberam restos mortais para realizar um funeral de seus entes queridos. Isso dá a dimensão da tragédia.

Neste sábado, os familiares das vítimas vão se reunir no memorial para ler os nomes em voz alta de todos aqueles que perderam a vida nos ataques. O local onde ficava cada uma das torres será iluminado com um feixe de luz. Chamado de “tributo luminoso”, o horizonte de NY é marcado com as torres virtuais todos os anos.

Invasão do Afeganistão 

A operação militar americana no Afeganistão começou menos de um mês depois dos ataques e foi uma resposta direta à chamada “ameaça terrorista”. A narrativa do governo americano era a de colocar fim ao terrorismo e levar a democracia, a liberdade ao país, na época comandado pelo Talibã.

Militares americanos executaram o saudita Osama Bin Laden, fundador da Al Qaeda, mas mesmo depois disso mantiveram tropas no Afeganistão. Vinte anos depois, a saída dos EUA do país foi sangrenta e caótica. O Afeganistão que fica agora sob o domínio talibã não é a democracia que respeita os direitos humanos que o governo americano pretendia construir. As ameaças às minorias são enormes, há incerteza política e econômica e um grande número de refugiados sem destino.

Novas revelações sobre os ataques

Hoje, novas revelações indicam que 36 dias antes dos atentados, a inteligência americana alertou o presidente em exercício na época, George W. Bush, que a Al Qaeda planejava realizar ataques em solo americano. Diversos outros indícios de que um ataque terrorista era iminente e envolvia potencialmente explosivos e aviões foram coletados pela inteligência americana antes de 2001. A administração Bush teria ignorado os alertas.

Na semana do 20° aniversário, o presidente Joe Biden assinou uma Ordem Executiva para tornar público certos documentos antes sigilosos, relativos aos ataques terroristas de 11 de setembro. Nos próximos seis meses, espera-se que sejam revelados relatórios, documentos analíticos e outros registros, incluindo gravações telefônicas e documentos bancários relacionados com os atentados.

Essa era uma das promessas de campanha de Biden. Familiares das vítimas e sobreviventes pressionam o governo americano. Em carta enviada ao democrata, eles pediram ao presidente que evitasse recordar o aniversário dos ataques, caso não tornasse público documentos que eles acreditam poder comprovar o envolvimento de membros do governo da Arábia Saudita com o financiamento dos terroristas da Al Qaeda que realizaram os atentados. A Arábia Saudita nega qualquer envolvimento.

Familiares das vítimas e milhares de pessoas que sofreram ferimentos, empresas e seguradoras estão pedindo bilhões de dólares em danos na Justiça americana, em um processo contra a Arábia Saudita.

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