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Análise: China, "inimiga imaginária de Trump", jamais teve ambição de hegemonia política e ideológica

Ernesto Lozardo
Ernesto Lozardo © Arquivo Pessoal
Por: Lúcia Müzell
4 min

O democrata Joe Biden vai assumir a Casa Branca com o desafio de reerguer o multilateralismo, golpeado pelo atual líder dos Estados Unidos, Donald Trump. O presidente eleito também promete desarmar as tensões com a China, mas sem encerrar completamente a guerra comercial com Pequim.

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Em entrevista à RFI, o consultor e professor de Economia da Fundação Getúlio Vargas Ernesto Lozardo desconstrói a ameaça de domínio chinês exaltada por Trump para retaliar o país asiático que, segundo ele, é descabida do ponto de vista histórico. A campanha contra a China encontrou eco no Brasil, apesar de os chineses serem os maiores parceiros comerciais do país há mais de 10 anos.

"Trump teve uma missão pessoal de criar um inimigo invisível, e a sociedade menos esclarecida acredita”, ironiza. Lozardo afirma que, ao contrário do que o presidente propaga, a China nunca representou um risco político e econômico global.

"Nunca foi e nunca será. A China nunca teve um projeto de expandir suas fronteiras por um domínio político e ideológico”, explica. "Ela tem um plano global hegemônico, mas não está querendo fazer isso sozinha: quer englobar todos os demais países da Europa, a África, dentro do Belt and Road Initiative, uma iniciativa que, claramente, visa o fortalecimento das instituições internacionais.”

Brasil não é para iniciantes – e a China é para especialistas

O professor explica que, para o próprio desenvolvimento, Pequim tem todo o interesse na harmonização das relações internacionais e a ampliação da cooperação entre os países. “As pessoas acham que o comunismo chinês é como o comunismo da União Soviética. Não tem absolutamente nada a ver”, destaca o ex-presidente do Ipea. "Tom Jobim dizia que o Brasil não era para iniciantes. A China é para especialistas."

O professor da FGV sublinha que americanos e chineses compartilham uma história de admiração mútua, em especial no século 19. Pequim, indica, é “grata" aos Estados Unidos por ter sido integrada às instituições internacionais – as mesmas que, agora, Trump quer ver pelas costas.

"O presidente Trump foi um grande desagregador de relações internacionais. Tudo aquilo que o mundo construiu para os Estados Unidos, com Bretton Woods, ele está destruindo: críticas severas à ONU, à OMC, à Otan, à sua retirada da OMS e as críticas em relação à União Europeia também”, resume o consultor. “A China quer a hegemonia na Ásia, e não no ocidente, que ela quer como parceiro.”

Falta de estratégica

Nesse contexto, ao se opor à nova ordem global que emerge com o protagonismo americano e chinês, o posicionamento da diplomacia brasileira não faz sentido estratégico. "O governo brasileiro não percebe que o que está em jogo é uma desagregação, em vez de cooperação internacional. Pecamos por isso e acabamos sendo tão criticados por atitudes internas, como as relativas ao meio ambiente”, analisa. "Nos cooptamos com o presidente Trump como se fosse um escudeiro. Mas isso não existe. O Brasil precisa mostrar que é um país confiável – até agora, não mostrou.”

O horizonte asiático, sustenta, é o único que representa um mundo novo para a expansão das parcerias comerciais da União Europeia e do próprio Brasil – e é isso que Donald Trump não aceita, sublinha Lozardo, o autor de "O pensamento econômico de Roberto Campos".

“O mundo precisa de um agregador”, alega o professor. "Joe Biden tem tido um discurso não de repulsa aos chineses, mas de entendimento com a China.”

O consultor relembra que o Partido Democrata americano é, tradicionalmente, um grande entusiasta da globalização desde Bill Clinton. "O Brasil vai fazer parte de um alinhamento global não dos Estados Unidos, mas dos Estados Unidos, Europa e China”, destaca.

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