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Coronavírus: “Cuidado em casa com o animal deve ser o mesmo de um filho”, diz pesquisadora que comprovou primeiro caso de pet com Covid no Brasil

Áudio 06:42
A pesquisadora brasileira Valéria Dutra, professora da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), com a gatinha, um filhote de seis meses, sem raça definida, chamada Saori.
A pesquisadora brasileira Valéria Dutra, professora da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), com a gatinha, um filhote de seis meses, sem raça definida, chamada Saori. © Fotomontagem RFI
Por: Valéria Maniero
15 min

O primeiro caso de animal de estimação com Covid no Brasil foi comprovado no mês passado por ela: a pesquisadora brasileira Valéria Dutra, professora da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT). Em entrevista à RFI, a cientista, que também foi convocada para testar pessoas no hospital universitário de Cuiabá, fala, entre outras coisas, sobre os cuidados que as pessoas que estão com coronavírus devem ter com os animais de estimação da casa.

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Valéria Maniero, correspondente da RFI na Suíça

Além da gatinha, outros dois cães testaram positivo no Brasil: a Universidade Federal do Paraná (UFPR) informou nesta segunda-feira (23)  que foi confirmada a presença de SARS-CoV-2 em dois animais de Curitiba: um da raça buldogue francês e outro sem raça definida. 

Segundo a UFPR, o primeiro caso de cachorro testado positivo se trata de um animal adulto, cujo dono, de Curitiba, estava com coronavírus. Ele contou à equipe de pesquisa que percebeu uma discreta secreção nasal no cão, que dormia na mesma cama que ele. Num segundo teste, o tutor negativou, mas o cachorro estava positivo, com uma quantidade pequena de vírus no organismo. 

O segundo caso foi de um cão macho, adulto, sem raça definida, cuja dona também testou positivo para SARS-CoV-2. 

Segundo o professor Alexander Biondo, coordenador do estudo, estes dados serão registrados junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Todas as amostras estão sendo enviadas para confirmação no TECSA Laboratório Animal, para que sejam testadas em outro laboratorio de referência. 

Na entrevista à RFI, a pesquisdora Valéria Dutra ressaltou a importância de  “mostrar que no Brasil a gente faz pesquisa e que as mulheres também estão na ciência”.  

Confira abaixo os principais trechos da entrevista:

Que animal é esse e como foi descoberto esse primeiro caso?

Esse animal é uma gatinha, um filhote de seis meses, sem raça definida, chamada Saori. Como eu estou no hospital universitário humano realizando testes de Covid há muitos meses, a gente teve, então, essa ideia de tentar buscar os animais com pessoas que estivessem com uma alta carga viral. Se esses animais também estariam infectados, como vimos em outros países. A gente vinha procurando desde junho. Depois de algumas coletas, conseguiu detectar esse primeiro gato infectado pelo SARS-CoV-2.

A gata apresentou sintomas da doença? Como ela contraiu o coronavírus?

A gatinha não apresentava sintomas. Os dois donos adultos, sim, com testes positivos; a criança da casa, de 7 anos, testou positivo, mas também assintomática. Os donos tinham uma carga viral alta e ficaram isolados. A gatinha ficava, principalmente, ao lado da tutora, com contato mais próximo. Como ela ficou o tempo todo do isolamento no quarto junto com ela, provavelmente, foi aí que adquiriu o vírus.  

O que devem fazer as pessoas que estão em casa com coronavírus e têm animais de estimação? Elas devem ficar distantes dos bichos?

A gente sempre recomenda que tenham cuidado com os pets. Como não tem evidência de ele transmitir para o ser humano, não há necessidade de abandono de animais, isso é muito importante dizer, bem pelo contrário. As evidências são de que nós transmitimos para eles. Os cuidados que a gente tem que ter são os mesmos que a gente teria com um familiar em casa: evitar o contato mais próximo. Isso evitaria uma possível infecção do nosso gato ou cachorro. O mesmo cuidado que a gente tem com um filho a gente deve ter com o nosso animal em casa.

O animal foi testado por qual exame?

Ele foi testado pelo RT-PCR, que é um teste molecular, através da extração de RNA de coleta nasal e oral. Deu positivo. Sete dias após, ele foi testado novamente e já estava negativo. Catorze dias depois, a gente fez outro teste para ter certeza que não tinha mais nenhuma partícula viral. Coletamos também um soro para fazer um segundo teste em que será detectado se esse animal produziu anticorpos contra o vírus e, paralelamente a isso, estão fazendo o sequenciamento do genoma viral do gato e do tutor. Aí nós teremos certeza se é o mesmo vírus ou não.  

Você poderia falar um pouco sobre o estudo que está sendo feito no Brasil para investigar o coronavírus em animais de estimação?

A gente tem um estudo, coordenado pelo professor Alexander Biondo, do Departamento de Medicina Veterinária da Universidade Federal do Paraná (UFPR), financiado por uma agência de fomento, CNPQ, e pelo  Ministério da Saúde no Brasil, onde serão coletados cães e gatos de seis capitais. Num primeiro momento, então, serão realizados os testes moleculares (RT-PCR) desses animais e, num segundo momento, será testada a sorologia para ver se os mesmos formaram anticorpos contra o SARS-CoV-2. Essas coletas nessas seis capitais começaram na semana passada. Nós havíamos iniciado um pouco antes, em junho. Talvez por isso a gente tenha detectado antes e também por uma particularidade: a nossa capital aqui teve uma alta mortalidade por essa doença, uma grande quantidade de pessoas infectadas. É uma das maiores taxas do mundo de infecção. Talvez por isso a gente tenha encontrado antes. Eu acredito que logo as outras começarão a encontrar também.

A gente pode esperar, então, por mais notícias de animais de estimação positivos para a Covid?

Provavelmente teremos mais animais no decorrer das coletas.

Podemos dizer que esse foi o primeiro caso confirmado de animal de estimação afetado por transmissão direta no país?

Isso. Esse foi o primeiro caso confirmado aqui na América do Sul. Esse foi o primeiro caso relatado e notificado pela OIE (Organização Mundial de Saúde Animal). A gente repetiu o teste em mais uma universidade (Federal do Paraná) e num laboratório particular.

Há outros casos em estudo de animais de estimação infectados pelo coronavírus?

Esse projeto deve encontrar mais animais positivos nos próximos meses. Até porque a Covid está voltando com força total. Tivemos uma queda nas mortes, nas infecções diárias, mas há uns 15 dias, vem aumentando bastante. A gente já tem hospitais lotados em algumas capitais, acredita que novamente vai ver o que viveu há alguns meses e, provavelmente, comece a detectar mais animais.  

Na China, um estudo mostrou que gatos podem transmitir a doença para outros felinos.  E o que mostram os estudos a respeito da transmissão do vírus de animal para ser humano?

Na China, essa infecção experimental – não foi natural – mostrou essa capacidade de um gato transmitir para o outro. Foi comprovado. Até o momento, não existe evidência dessa infecção natural de gato e cachorro e nem de transmissão para humanos.

O que mais a preocupa nesse momento?

O que mais me preocupa é a volta desse número alto de infecções diárias no Brasil, a taxa de mortalidade elevada. A pandemia está aí. A gente ainda não tem vacina. As pessoas relaxaram muito com as medidas de proteção. A gente sabe que o mundo tem que andar, que todo mundo precisa trabalhar, mas aglomerações desnecessárias devem ser evitadas. Temos visto nos últimos 15 dias um aumento grande no número de internações diárias nos hospitais. E sabemos que a nossa estrutura de saúde não comporta todas essas internações. E agora teremos as festas de fim de ano. Provavelmente, haverá mais aglomeração e quando chegar janeiro, a situação vai piorar ainda mais. E a gente tem um grande problema no Brasil que é a testagem muito baixa. Não testamos todas as pessoas for falta de testes. Isso agrava a nossa situação aqui.  

Apesar de ser veterinária, você foi convocada para testar pessoas num hospital de Cuiabá, onde faz parte de um grupo de estudos em testes de PCR. Como está sendo essa experiência?

Eu já venho trabalhando há muito tempo em diagnóstico, fazendo esse conceito de saúde única. Alguns testes que eles não conseguem desenvolver no hospital humano, a gente desenvolve aqui, no hospital veterinário, porque temos uma parte molecular mais estruturada. Temos dado esse apoio em algumas doenças, como hanseníase, por exemplo. Essa parceria vem de alguns anos. Como eu já tinha uma experiência nesse teste molecular utilizado para Covid, quando a pandemia surgiu, recebi o convite para integrar o laboratório deles e passei a fazer esses testes também.

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