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RFI Convida

Ainda não se sabe quanto tempo dura a imunidade à Covid-19, afirma epidemiologista

Áudio 07:02
Nuno Faria - epidemiologista -,Imperial College
Nuno Faria - epidemiologista -,Imperial College © Arquivo Pessoal
Por: Vivian Oswald
16 min

Um dos países com o maior número de casos de Covid-19 no mundo, o Brasil tem sido objeto de estudos constantes nesta pandemia. Nuno Faria, coordenador do Cadde (Centro Conjunto Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus), falou com a RFI sobre a pesquisa que aponta que 76% da população de Manaus já teve Covid-19, enquanto em São Paulo a taxa foi de 29%. O epidemiologista português sublinha, no entanto, que ainda não se sabe a duração da imunidade contra o coronavírus e reforça a necessidade de mantermos as medidas de proteção contra o vírus.

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Vivian Oswald, correspondente da RFI em Londres

Faria é um dos co-autores do estudo publicado na revista científica Science que mostra que 76% da população de Manaus foi contaminada pelo novo coronavírus entre março e outubro deste ano, enquanto na capital de São Paulo esse percentual foi de 29%. Os índices, no entanto, não garantem que essas pessoas estejam imunes a uma nova contaminação pelo coronavírus, segundo ele. 

Confira as principais partes desta conversa:

RFI - Este estudo compara a quantidade de contaminações por Covid-19. nas cidades de Manaus. Por que tanta diferença? Um município se protegeu mais do que o outro, as condições da população são muito distintas?

Nuno Faria - Manaus é a maior cidade da Amazônia, com 2,2 milhões de habitantes, e tem um aeroporto internacional. Pensa-se que recebeu várias linhagens importadas de outros lugares, se comparada com São Paulo. O primeiro caso tratado foi de 13 de março, um caso importado da Inglaterra. Em 24 de março, houve a primeira morte por Covid-19 em Manaus. Em outubro, a capital do Amazonas tinha cerca de quase 3.800 mortes, o que corresponde a 1.710 [mortes] por milhão de habitantes.

Em contraste, São Paulo é a maior cidade do hemisfério sul, com 12,35 milhões de pessoas, com um PIB per capita que é o dobro de Manaus praticamente. Os primeiros casos de São Paulo foram os primeiros da América Latina, em 25 de fevereiro. Esse paciente viajou da Itália. No dia 17 de março, foram registradas as primeiras mortes em São Paulo. O município tinha [em outubro] mais de 20 mil mortes causadas por Covid-19, o que é 1.650 mortes por milhão de habitantes da cidade. A proporção de mortos nestes dois municípios é três vezes maior do que nos Estados Unidos e no Reino Unido, por exemplo.

O que encontramos recorrendo a testes de sorologia, que detectam a infecção prévia em doadores de sangue, pessoas em geral na faixa etária de 16 e 30 anos, é que a taxa de infecção é muito mais alta em Manaus, 76% da população, do que em São Paulo, 29%. Os resultados confirmam que, de uma forma geral, quando a epidemia não é tão controlada, a Covid-19 pode se espalhar muito rápido, em alta proporção da população e causar uma alta mortalidade.

Mas São Paulo e Manaus são muito diferentes. Esta última tem uma população muito mais jovem, o que explica que, independentemente de estas taxas de infecção serem tão distintas entre as cidades tenha havido um número de mortes por habitante relativamente semelhante nas duas. Há vários outros fatores adicionais que justificam essa diferenças. Um deles é as condições sócio-econômicas. O PIB per capital de Manaus é muito inferior ao de São Paulo, o que obviamente determinada o acesso a cuidados de saúde. É muito mais difícil uma pessoa vivendo no estado do Amazonas, por exemplo, deslocar-se a um local onde possa ter acesso a médicos.

RFI - A infraestrutura é mais difícil?

Sim. Vimos também que há um maior número de pessoas vivendo sob o mesmo teto em Manaus que em São Paulo. Elas dependem muito mais de viagens de barco, o que oferece altos índices de risco de transmissão. Tem muita gente fazendo viagens muito longas de barco, o que aumenta as chances de transmissão. Às vezes são três dias, com 150 pessoas num barco. Sabemos pelo Diamond Cruise e outros cruzeiros que essas viagens funcionam como acelerador de contaminação. É possível também que essa população mais jovem de Manaus seja mais móvel, viaje mais e que tenha baixa imunidade pré-existente para SARS-CoV-2.

RFI - Alguns estudos dizem que negros são mais contaminados, pela questão social, por conta das desigualdades históricas no Brasil. Isso foi identificado em Manaus?

Não investigamos ainda esta hipótese, que será vista num estudo subsequente. Mas populações vulneráveis são obrigadas a trabalhar de alguma forma durante a pandemia, têm menos possibilidades de ficar em casa. A pandemia acaba acentuando essas diferenças sócios econômicas que vemos pelo mundo inteiro.

RFI - Como minimizar os efeitos dessas diferenças? Há algo que governos e as populações possam fazer para conter essas contaminações?

Nós geramos dados de forma científica, não damos as diretrizes. O que é feito politicamente com essa informação está fora do nosso controle. Mas existem três medidas principais de controle. As chamadas intervenções não-farmacêuticas: o distanciamento social, o isolamento e quarentena de casos confirmados, os cuidados de lavar as mãos e cobrir a face. Existem também medidas ambientais, como limpar as superfícies e promover a ventilação dos espaços fechados. Há ainda as medidas sociais, como as restrições ao máximo de viagens nacionais e internacionais, fechamento de locais de trabalho, que podem funcionar online, e restrição a grandes eventos, religiosos ou não. Estamos tão perto da vacina, e esta semana foi especialmente boa, o Reino Unido começa a imunizar seus primeiros pacientes….

A estratégia do Reino Unido é começar com o pessoal que trabalha na área de saúde e asilos, além dos idosos. No Brasil, há três vacinas que foram compradas e que, em breve, também vão começa a ser administradas na população: a da Universidade de Oxford/AstraZeneka, Gamaleya e a Sinovac, que está sendo produzida pelo Instituto Butantan.

RFI - No Brasil, essas vacinas precisam ser aprovadas ainda, antes de serem distribuídas. Ou seja, até lá o único remédio é continuar com as restrições, não é? 

Claramente. Isso é muito importante. Estamos quase lá. Todas essas estratégias de intervenção não farmacêuticas, é imperativo continuar com todas elas, sejam elas pessoais, ambientais e sociais, para diminuir transmissão até que a vacina chegue a todos.

RFI - O índice de contaminação em Manaus faz pensar num conceito que se discutiu muito no início da pandemia, o da "imunização de rebanho". Se muitas pessoas fossem contaminadas, isso seria uma garantia de imunização da população como um todo. Isso aconteceu em Manaus? 

Isso é um ponto bastante importante. Não sabemos exatamente qual a proporção da pessoas que já foram infectadas e podem ser infectadas novamente. E não sabemos o intervalo de tempo em que isso pode acontecer. Pode ser que uma pessoa seja infectada agora em dezembro e, depois, novamente em março, ou abril do ano que vem. 

Normalmente, quando uma pessoa é infectada, há replicação viral, e há produção também, passadas uma, duas semanas, de vários tipos de anticorpos. E esses anticorpos são aqueles que conseguimos medir com em nosso trabalho. Alguns deles estão associados com a resposta e imunidade protetora contra uma nova infecção. Quanto tempo dura essa imunidade ainda é um ponto desconhecido.

O conceito de imunidade de rebanho está ligado à vacinação. É um conceito-base na epidemiologia. Só conseguimos chegar a imunidade de rebanho quando uma pessoa infectada numa população gera menos do que um caso secundário, em média. Estamos falando aqui do famoso número de reprodução efetivo da epidemia, o “R”, que é o número médio de pessoas infectadas a partir de um caso único. Mas o R varia muito de acordo com as populações, varia ao longo do tempo, e depende da natureza e do número de contatos entre os indivíduos, e de outros fatores, como os ambientais. Na ausência dessas medidas de controle, as condições para atingirmos essa imunidade de rebanho são um percentual específico, que está diretamente relacionado ao R. Esse valor para o SARS-CoV-2 é de cerca de 67% ou até 80% da população. O que isso significa? Que precisaríamos vacinar esse percentual da população para que deixasse de haver uma epidemia e para que, em média, uma pessoa infectada passasse a infectar menos de uma pessoa, em média no futuro.

O que nós vimos que, em Manaus, é que, na ausência de vacina, esse limite da imunidade de rebanho já foi atingido. Mas, o que nós também vimos, e é um resultado importante e preocupante, tem a ver com uma perda de anticorpos. Detectamos a perda de anticorpos ao longo do tempo, tanto na população de Manaus quanto na de São Paulo, o que indica que existe alguma perda de imunidade que vai acontecendo após a infecção.

RFI - Em teoria chegar a esse percentual de imunização não significa que a população está protegida.

Exatamente. Se nós olharmos para outros coronavírus, porque existem outros quatro que circulam frequentemente em populações humanas (SARs, H1N1, 229e ac43). Esses quatro coronavírus têm uma sazonalidade anual. Ou seja, todos os anos eles podem infectar os mesmos indivíduos. Em vários estudos, viu-se que eles reinfectam todos os anos o mesmo indivíduo. Não há nada de tão diferente neste coronavírus, o SARS-CoV-2, que nos faça acreditar que seria de outra maneira.

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