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Brasileiro conta como Wuhan conseguiu vencer o coronavírus: "um por todos e todos por um”

O pesquisador brasileiro José Renato Peneluppi Junior atua na área de administração pública em Wuchang, um dos três distritos principais de Wuhan, na China.
O pesquisador brasileiro José Renato Peneluppi Junior atua na área de administração pública em Wuchang, um dos três distritos principais de Wuhan, na China. © Arquivo Pessoal

Desde maio de 2020, a cidade chinesa de Wuhan, onde se originou a epidemia de coronavírus, não registra casos de Covid-19 – pelo menos é o que afirma o regime comunista. O pesquisador José Renato Peneluppi Junior é um dos poucos brasileiros que restaram na região de Hubei. Ele confirma o quanto as medidas sanitárias rígidas em vigor possibilitaram o controle da pandemia, que só piora nos países ocidentais.

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Uma equipe de especialistas da Organização Mundial da Saúde (OMS), está na cidade para investigar as causas do início da pandemia. A disseminação do coronavírus começou na megalópole chinesa e se espalhou pelo mundo há mais de um ano.

Advogado de formação, Peneluppi Jr. mora há mais de 10 anos na China e atua na área de administração pública. “Aqui, as pessoas adotaram o lema do 'um por todos, todos por um’. Desde que o governo fechou a cidade de Wuhan, foi declarada uma guerra popular. Todos estão sempre seguindo os avisos, neste que é um combate de todos”, relata o brasileiro.

Natural de São José dos Campos (SP), ele conta que “da mesma forma que você não sai na rua sem calças, você não sai sem máscara” na China. E não é qualquer máscara: as de tecido, consideradas pouco eficientes, são raras nas ruas do país, onde os cuidados com a proteção contra o vírus são levados à risca.

É por isso, em Wuhan como no restante do país, a vida voltou quase ao normal, não fossem as adaptações sanitárias para evitar à expansão do vírus. O home office, por exemplo, não é mais necessário, já que a maioria dos prédios oficiais ou empresariais adotaram medidas de proteção, como checagem de temperatura na entrada, uso de máscaras e, principalmente, de um aplicativo  nacional de rastreamento de casos.

Segurança sanitária em troca de informações pessoais

Peneluppi destaca que a pandemia se tornou uma ocasião para o governo expandir uma série de tecnologias que eram testadas e aplicadas em outros setores, e se mostraram cruciais para identificar os casos, advertir os contatos e isolar os doentes. Os habitantes são incitados a utilizar a ferramenta no celular, que permite alertar quando estão em contato com locais ou pessoas a risco.

Apesar da ameaça às liberdades individuais que a tecnologia representa, o advogado não tem dúvidas de que, no fim das contas, a segurança sanitária compensa a eventual “intrusão" do Estado no cotidiano das pessoas. "É uma opção que a sociedade faz, para garantir a sua própria segurança. No meu caso, optei por ceder os meus dados, sim, porque é uma forma de eu estar sempre recebendo informações que me privilegiam.”

A fiscalização dos viajantes em direção ao país também é rígida: passageiros devem apresentar teste negativo para o coronavírus e passar por uma quarentena obrigatória e controlada, antes de poderem circular pela China.

"O próprio debate da vacina é muito raro aqui, porque os casos são raros, localizados. O governo desenvolveu uma forma muito rápida de combater o vírus”, observa o brasileiro. “Se você mesmo e o povo não entenderem que estamos em guerra contra um vírus e esse vírus só pode ser derrotado pelo coletivo, as pessoas acabam sempre tentando proteger só a si mesmas. É essa crise de ideias que o Ocidente tem vivido: a gente quer muitos direitos, mas não garante os nossos deveres, que nos permitem preservar os nossos direitos”, constata o pesquisador.

“200 mil não precisavam ter morrido no Brasil"

Nesse sentido, é "com muita tristeza” que o advogado acompanha a tragédia sanitária no Brasil. Ele participou da operação de resgate de cidadãos brasileiros em Wuhan, promovida pelo Itamaraty no fim de janeiro do ano passado.

“A China providenciou um diálogo direto com o governo brasileiro. Poucos governos do mundo tiveram essa oportunidade. Na época, gastamos milhões para aprender sobre a quarentena e como evitar que o vírus entrasse e se espalhasse no país. Mas, então, pensaram: “vamos deixar passar o Carnaval e depois a gente vê”. Todo aquele investimento foi rasgado”, lamenta Peneluppi. "Mais de 200 mil pessoas não precisavam ter morrido [no Brasil] porque, naquele momento, a gente já sabia como fazer”, constata o pesquisador.

Para ouvir a entrevista completa, clique no podcast no alto do página ou, na foto, assista à gravação em vídeo.

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