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Livro retraça mais de 40 anos de vida de uma amazonense em Paris

Áudio 07:01
A escritora Marilza de Melo Foucher
A escritora Marilza de Melo Foucher © Arquivo Pessoal

Um mosaico de histórias. Assim a escritora Marilza de Melo Foucher resume o resultado de seu novo livro “Fragmentos de tempos vividos” (Ed. Valer), lançado apenas virtualmente por causa da pandemia. Na obra, a amazonense conta em estilo livre e biográfico suas experiências de mais de quatro décadas de vida na capital francesa.

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“Esse livro surge num momento especial, quando eu tive uma fragilidade de saúde e tinha apenas 10 minutos autorizados pelo meu médico para ficar na frente do computador. Foi um livro que me serviu de terapia”, conta Marilza ao justificar a opção pelo estilo de crônicas dessa segunda obra. “Eu passava 10 minutos e vinha a inspiração, como se eu estivesse escrevendo poemas, mas não era a sonoridade das palavras, e sim das lembranças de momentos vividos”, define.

O livro não respeita uma ordem cronológica, mas tem início com sua chegada a Paris no final dos anos 1970 para fazer um doutorado na área de Economia. “Na época, acho que era a única pessoa que tinha vindo da Boca do Acre, com muito orgulho. Eu pertencia à sociedade da canoa e aprendi com a sociedade do metrô a organizar melhor meu tempo, porque eu nunca usei relógio, só vim usar aqui em Paris. Já começa por esses parâmetros. As lembranças foram vindo e eu comecei a escrever”, conta.

A costura dos “retalhos de vida”, como prefere chamar, resultou em um livro com 37 crônicas, recheadas de histórias curtas que relembram aspectos pessoais e vivências “que foram surgindo sem nenhuma autocensura”. “O computador passou a ser meu psicanalista. Com ele comecei a dialogar com o mundo das lembranças e o mundo de Paris, da minha vivência e do meu contato com uma cultura completamente estranha para mim”, recorda.

Nesse mergulho, Marilza destaca a relação com seu primo, o poeta e escritor amazonense Thiago de Melo, que lhe ajudou a vir à França e lhe abriu as portas de sua imensa rede de contatos com intelectuais e artistas. “Foi essa rede que me protegeu. E quando falo rede, eu penso na Amazônia. Eles me embalaram nessa rede, com a ajuda do Tiago. Mas depois eu ganhei asas e quis ser eu mesma e descobri uma outra Paris a partir do meu olhar caboclo”.

Na nova fase, desvinculada dos laços formados com a ajuda do famoso parente, Marilza afirma se permitir a trilhar outros rumos, embalados por uma sociedade que vivia ainda sob a influência das conquistas de Maio de 68.    

“Eu era uma subversiva reprimida. Aqui eu passei a ser uma subversiva liberta. A palavra liberté (liberdade, em francês) foi a primeira que aprendi e fiz uso dela. Era um período em que tinha a minha geração que chega aqui e (se encontra) com a geração francesa que viveu 68 e que libera seu grito de liberdade e libertinagem. Cada um dava seus próprios limites”, conta.

Liberdade e engajamento político

Em seu livro, Marilza diz contar o seu cotidiano e sua realidade com inteira liberdade, sem autocensura. Por isso, algumas passagens poderão chocar alguns brasileiros, particularmente no atual contexto de uma sociedade fortemente influenciada por um forte conservadorismo de costumes e polarizada politicamente.

“Pode chocar esse espírito de liberdade que me fez amar duas pessoas, que me levou a estudar o marxismo para entender minhas próprias contradições. Não fui uma marxista só para entender as diversas correntes do pensamento político, mas para entender também a dialética, entender minhas contradições e agir em consequência”, explica.

Na sua trajetória acadêmica e profissional, Marilza de Melo Foucher conviveu com instituições e entidades que atuavam com o desenvolvimento econômico e social de países emergentes, o que levou também a uma intensa atividade política em círculos de esquerda.

“Eu frequentei várias correntes, mas não queria ser enquadrada dentro dos partidos nem de tendências políticas porque já tinha meus valores humanistas de esquerda. Eu era um elétron livre”, teoriza.

Capa do livro Fragmentos de tempos vividos da escritora Marilza de Melo Foucher.
Capa do livro Fragmentos de tempos vividos da escritora Marilza de Melo Foucher. © Arquivo Pessoal

 

Na entrevista à RFI Brasil, Marilza lembrou que frequentou diferentes grupos, como o Comitê Brasil Anistia: movimentos de reflexão marxista, “para entender mais do ponto de vista filosófico”, diferentes tendências trotskistas e até comunistas dissidentes que não haviam ainda se livrado do stalinismo. Os grupos também incluíam anarquistas e educadores populares inspirados em Paulo Freire e a Teologia da Libertação, mais conhecida na França como esquerda cristã. “Eu levava isso como um aprendizado enorme, dessa pluralidade de pensamentos”, afirma

Segundo ela, seu trabalho não visa oferecer uma visão aprofundada ou crítica da atuação política da esquerda latino-americana em Paris nas últimas décadas. “Eu me restrinjo a uma experiência vivida. Eu não vou julgar os bastidores da esquerda. Para mim o maior aprendizado foi ter participado, por exemplo, como membro do movimento fundador do PT. Eu não nego. Eu não sou dessas pessoas que quando o barco, afunda, sai do barco. Foi um aprendizado político que até hoje dura,” garante.

As histórias, que segundo ela foram surgindo de maneira espontânea durante seu “diálogo com o computador” e escritas sob o impacto da "emoção de cada dia", conquistaram seus amigos, que a incentivaram a publicar o livro.

Marilza diz ter tomado conhecimento pela imprensa da publicação da obra pela editora Valer, de Manaus, apesar do contexto difícil causado pela pandemia. “Ficar sabendo que uma cidade está sendo asfixiada é muito duro. Perdi muitos amigos lá. Na minha editora, todos tiveram a Covid. O livro só vai ser lançado depois de passar a pandemia, mas já está disponível para venda no ambiente virtual. Eu não esperava essa busca grande pelo livro, ele serviu de terapia para mim e não esperava essa aceitação que está tendo”, conclui, emocionada.

 

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