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Sergio Moro foi o principal derrotado com anulação da condenação de Lula, afirma analista político

Áudio 07:06
O cientista político, Alexandre Bandeira.
O cientista político, Alexandre Bandeira. © Arquivo Pessoal

Alexandre Bandeira, diretor da Associação Brasileira de Consultores Políticos, afirmou que os últimos capítulos dessa disputa jurídico-eleitoral beneficiaram o ex-presidente Lula e o presidente Bolsonaro, que desde já polarizam o debate de 2022, dificultando uma terceira via. Em entrevista à RFI o cientista político disse que o ex-juiz foi o maior derrotado até aqui.

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Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília

“Lula está elegível, poderá ser candidato a presidente. Bolsonaro tem agora seu arquirrival na briga, o que lhe favorece na disputa. Já Sergio Moro não é mais juiz, não é mais ministro e ainda carrega o processo por suspeição nas ações contra Lula. Foi sem dúvida o ator mais prejudicado de toda essa história até aqui”.

Ao anular as condenações de Lula proferidas em Curitiba, muitos entenderam que o ministro Edson Fachin tentou preservar a Lava Jato e evitar que o Supremo Tribunal Federal julgasse uma possível atuação política do então juiz. Mas a reação veio em seguida e a segunda turma da corte, capitaneada por Gilmar Mendes, começou a analisar a atuação do ex-ministro, que pode sair derrotado. A conclusão foi interrompida por um pedido de vista do ministro Nunes Marques.

“Acredito que uma porteira inteira pode se abrir para beneficiar outros condenados na Lava Jato. Todos sabem que o caso em análise é exclusivo de Lula, mas o que os advogados querem é um precedente para apresentar seus pedidos”, constata o analista. Politicamente, ele diz que o ex-juiz terá de dar explicações para tentar se viabilizar como um nome na disputa eleitoral.

“Se a atuação de Sergio Moro for considerada parcial, ele terá de dar explicações políticas sobre sua conduta. Ele, que era tido como um nome forte para o próximo pleito, perdeu muita força”. Para Alexandre Bandeira, o clima deve esquentar nas redes sociais entre seguidores de Bolsonaro e os apoiadores de Lula, num clima antecipado de eleições, o que dificulta a formação de uma terceira via competitiva hoje. “A eleição à presidência da Câmara, com Rodrigo Maia não conseguindo eleger seu candidato, e agora essa decisão de Fachin, trazendo de vez Lula para a disputa, impõem mais obstáculos à ideia de uma terceira via. Em 2020 havia vários candidatos, mas a reta final foi entre Bolsonaro e Haddad, do PT, nome escolhido por Lula”.

Ele diz que presidenciáveis como o governador de São Paulo, João Dória, terão de se mostrar uma alternativa viável a uma massa de 40% do eleitorado que, em tese, não é Bolsonaro nem Lula, mas pode ir com algum deles a depender de circunstâncias econômicas e sociais. “Historicamente esses eleitores já escolheram Fernando Henrique, Lula, Dilma, Bolsonaro. É um eleitorado que não é ideologicamente estático a nenhum dos lados e já transitou nos dois. É comum na nossa história brasileira que fatores como a situação econômica pesem de forma decisiva.”

Na avaliação de Bandeira, “Dória, Ciro Gomes, Luciano Hulck e qualquer outro que quiser se viabilizar como a terceira via terá de mostrar um discurso que seja contrário tanto a Lula quanto a Bolsonaro e terá de fazer oposição aos dois”.

 

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