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Sputnik: "Errado é colocar no cronograma antes de uma posição da Anvisa", diz especialista em imunizantes

Áudio 07:03
Uma seringa diante da propaganda da vacina russa Sputnik V
Uma seringa diante da propaganda da vacina russa Sputnik V © Magic-RM

A decisão da Anvisa de não autorizar a aplicação da vacina Sputnik V por falta de garantias de segurança frustrou a expectativa de muitos estados e municípios que contavam com o imunizante russo para acelerar a vacinação contra a Covid-19. A postura da agência nacional foi elogiada pela Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), que aponta como erro planejar o uso de uma vacina antes do aval da entidade responsável pela vigilância sanitária do país.

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"A Anvisa não está errada em não licenciar a Sputnik. Errado é colocar no cronograma antes de uma posição da agência. É gerar uma expectativa falsa e mais uma frustração" na população, lamenta Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, entidade sem fins lucrativos que reúne profissionais de diferentes especialidades interessados no tema.

Na segunda-feira (26), a Anvisa decidiu por unanimidade não autorizar a importação da Sputnik V por "falta de dados consistentes e confiáveis". O Fundo Soberano russo responsável pelo desenvolvimento da Sputnik considerou a decisão de barrar o imunizante "tendenciosa" e acusou a agência brasileira de ter motivações políticas, argumento que a SBIm refuta.

"Não acredito. Tudo está sendo politizado e confunde muito a população, e todos nós. A Anvisa é um órgão regulatório muito sério, sempre foi. Se ela detectou uma falha de segurança na produção, ela não pode deixar. Qual país do mundo deixaria a vacina ser implantada?  A gente espera que a Rússia consiga mudar e comprovar [a segurança]. Mas se não há a mínima segurança, não dá para o Brasil, por pior que seja a urgência, ter mais um problema de saúde para a população", afirma Isabella.

Problemas com a falta de vacinas

Problemas o país já tem de sobra, garante Isabella Ballalai, que considera o Brasil no "pior momento da pandemia". 

"Em relação à vacinação, apesar de toda a nossa infraestrutura para colocar em prática, infelizmente falta a vacina. Nesse momento, a campanha não consegue evoluir porque precisa ir devagar na medida em que a vacina chega", afirma.

Segundo a vice-presidente da SBIm, a percepção do brasileiro em relação à vacinação é excelente, já que menos de 5% dizem que não querem tomar a vacina contra a Covid-19. "Apesar das fake news, da desinformação, inclusive com o próprio exemplo de autoridades públicas, o brasileiro gosta de se vacinar, mas temos essa situação de falta de vacinas em quantidade adequada", lamenta.  

Outro problema que agrava a situação no país é a  "desorganização" em relação às medidas de flexibilização das restrições sanitárias adotadas pelos governantes, afirma a especialista.   

"Com o cansaço da pandemia, a população entende a flexibilização como uma volta ao normal. Está difícil convencê-la de que não tem nada normal", afirma. "É inacreditável que mesmo estando em todas as mídias, a vontade de voltar ao normal é tão grande que quando as autoridades dizem que podem sair, ir à praia, o povo vai, e está difícil de controlar", acrescenta.

A vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, Isabella Ballalai
A vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, Isabella Ballalai © Magic-RM

Falta de controle torna Brasil ameaça global 

Desde o início da pandemia, o Brasil já acumula 395 mil mortes, sendo metade nesses primeiros meses do ano, lembra a especialista. E sem a aceleração da vacinação, o Brasil, já considerado um celeiro de variantes, pode se tornar cada vez mais uma ameaça global. 

"Já temos pelo menos duas variantes circulando à vontade no país e outras estão surgindo. Enquanto a gente não tiver minimamente um controle nessa flexibilização e uma vacinação rápida, mais variantes o Brasil vai produzir para o mundo, e isso é muito triste para a gente", alerta. 

"O que estamos vivendo hoje é muito complicado. Queríamos o mundo do nosso lado, ajudando o Brasil a sair dessa situação. Há vários movimentos, o Brasil pede vacinas, o Brasil pede medicamentos, pede muita coisa. Não confunda o Brasil com o brasileiro, pois o brasileiro está tentando", afirma.

Há pouca previsibilidade sobre uma melhoria no cenário atual para a chegada das vacinas e aceleração da campanha de imunização. Todas as promessas têm esbarrado no que Ballalai chama de acidentes de percurso, como o recente caso da Anvisa sobre a vacina Sputnik V.  

"Temos promessas de chegar vacina, mas a cada promessa, um acidente de percurso, um atraso. Não conseguimos ter uma percepção de médio prazo. A longo prazo, sim, vamos ter uma situação confortável, porque o Brasil será fabricante de duas vacinas, mas até lá é difícil de acompanhar essas perspectiva. E os acidentes de percurso atrasam aquilo que a gente esperava", conclui.

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