RFI Convida

"Garrincha poderia ser mais valorizado”, diz autor francês de uma biografia sobre o ex-craque de futebol

Áudio 07:10
O autor do livro Garrincha, Marcelin Chamoin
O autor do livro Garrincha, Marcelin Chamoin © RFI

Apaixonado pelo futebol brasileiro, o francês Marcelin Chamoin lançou em plena pandemia o livro "Garrincha" (Ed. Lucarne Opposée), uma biografia do ex-craque, que segundo ele, ainda é pouco conhecido do público de seu país.

Publicidade

“Na França tem poucas coisas sobre Garrincha. Sabemos que ele tinha as pernas tortas, que ganhou a Copa do Mundo de 62 quase sozinho, e do triste fim da vida dele. Mas as outras conquistas com a seleção, com o Botafogo e sua história amorosa com Elza Soares não são conhecidas”, justifica Marcelin sobre os principais motivos que o levaram a mergulhar na vida de um dos maiores nomes do futebol mundial.

“Quando era criança, tinha vídeos da Copa do Mundo e gostava muito do Garrincha, Pelé, Didi e de outros jogadores. Para mim, Garrinha foi um dos maiores jogadores da história do futebol”, disse na entrevista à Rádio França Internacional

“Ele era um jogador incrível, mas também uma pessoa incrível. Tinha muitas histórias sobre ele e sua personalidade muito simples. Quis mostrar o quanto ele era humilde e simples”, acrescenta o francês.

Pesquisas e visitas ao Brasil para escrever o livro

Marcelin, estatístico de profissão e cronista sobre futebol sul-americano para um site esportivo francês, foi ao Brasil três vezes para recolher dados e informações para escrever a biografia de Manoel Francisco dos Santos, nome de Garrincha.  

Ele também recorreu à bibliografia relacionada ao ídolo, como “Estrela solitária” de Ruy Castro, “Elza”, de Zeca Camargo, “O jogo bruto das Copas do Mundo”, de Teixeira Heizer, livros de Carlos Ferreira Vilarinho sobre a história do clube carioca Botafogo, e documentários para conhecer melhor o universo e a trajetória do homem que também ficou conhecido como a “Alegria do Povo”.  

Além dessas obras, Marcelin Chamoin fez visitas e entrevistas no Museu do Futebol, em São Paulo, e na sede do Botafogo, no Rio de Janeiro. Mas foi Pau Grande, terra natal de Garrinha, onde ele falou com familiares e amigos de infância do ex-craque, o local que mais o marcou.

“Ele morreu há muito tempo, em 1983, mas quando estive lá em Pau Grande, ainda se sente a presença do Garrincha. As pessoas se emocionavam quando falavam dele. Isso me marcou muito porque mostra bem a personalidade dele, a proximidade dele com as pessoas, com o povo”, contou.

A história de Garrincha com Elza Soares

Além de relatar os feitos de Garrincha nos gramados com a seleção brasileira e os clubes de futebol por onde passou, o escritor francês dedicou boa parte do livro para contar a relação amorosa do jogador com a cantora Elza Soares. O relacionamento, destaca ele na obra, foi marcado por muita paixão, mas também dificuldades, rejeição por parte da sociedade brasileira e também por tragédias.  

“Muitas pessoas se esquecem o quanto foi muito difícil para Garrincha. Uma história muito complicada porque ele era casado, tinha sete filhas. A história não era aceita. Foi o mais triste porque o Garrincha era a ‘alegria do povo’. Mas também foi difícil com os jornalistas, com o Botafogo, e também com o povo. A relação dele foi difícil em muitos momentos, e isso às vezes é esquecido”, comenta.

Apesar de todas as suas histórias polêmicas e tristes, como a dependência do álcool, que provocou sua morte precoce, aos 49 anos, o francês Marcelin Chamoin observa que pela contribuição à história do futebol do Brasil, Garrincha deveria ter seu nome melhor reconhecido.

“Ele poderia ser mais valorizado. Poderia ter mais coisas sobre o Garrincha. Tem o livro do Ruy Castro, um filme, mas poderia ter mais. Em Pau Grande tem um museu com peças com a história dele, mas outras desapareceram. Por isso é importante manter esse museu para preservar sua história”, opina.

Expectativa com traduções para outros países

Marcelin Machoin espera que seu livro, que ainda tem crônicas traduzidas de Nelson Rodrigues e João Saldanha, além do prefácio assinado por Zagallo, seja traduzido para o português e também para outras línguas e países. Segundo ele, editoras no Brasil estão analisando a obra, mais “condensada”, sobre a vida do craque das pernas tortas e dos dribles desconcertantes.

Mas seu maior objetivo no momento é despertar o interesse dos franceses por esse personagem ímpar do futebol mundial. “Há pessoas que seguem o futebol brasileiro que podem se interessar por esse ídolo. Muita gente pode estar mais interessada no futebol atual, mas acho que tem sim muitos que podem ter interesse por esse livro”, conclui.

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.