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Reconhecimento da Unesco consagra obra de Burle Marx e amplia debate ambiental, diz especialista

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O acervo botânico-paisagístico de mais de 400 mil m² abriga uma diversidade de cerca de 3,5 mil espécies de plantas.
O acervo botânico-paisagístico de mais de 400 mil m² abriga uma diversidade de cerca de 3,5 mil espécies de plantas. Livia Comandine/Getty Images

O Sítio Burle Marx, no Rio de Janeiro, passou a ser reconhecido como Patrimônio Mundial da Unesco nesta terça-feira (27), ampliando para 23 o número de bens brasileiros que integram a prestigiosa seleção da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. O acervo botânico-paisagístico de mais de 400 mil m² abriga uma diversidade de cerca de 3,5 mil espécies de plantas.

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“A Unesco é a organização internacional mais importante da área de cultura no mundo. A lista do patrimônio mundial é o elemento mais conhecido da entidade. Integrar essa lista é algo bastante prestigioso. E o propósito da lista é a proteção desse patrimônio considerado mundial. É um bem do Brasil, mas considerado de valor universal. É um reconhecimento de valor extraordinário, ao ponto de ser colocado em um hall de bens de interesse de todos os países do mundo”, explica César Barrio, especialista em patrimônio material da missão Sítio Burle Marx, em entrevista à RFI.

Ainda que seja mais conhecido pelos seus belíssimos jardins, de flora exuberante e plural, o sítio também possui um importante acervo museológico de mais de 3 mil itens, que inclui coleções de arte latino-americana, pré-colombiana, sacra e popular brasileira, além da coleção de obras do próprio paisagista.

“Para o sítio é um extraordinário reconhecimento. É um reconhecimento a toda a obra do Burle Marx. Ele já é um grande arquiteto paisagista conhecido em todo mundo, mas é mais uma consagração da sua obra. E para o Brasil também é muito bom. Esse é um reconhecimento do que o país tem a aportar da sua cultura ao mundo em suas diversas dimensões”, acrescenta Barrio, que integra a delegação permanente do Brasil na Unesco.

César Barrio, da delegação permanente do Brasil junto à Unesco e especialista em patrimônio mundial da missão Sítio Burle Marx.
César Barrio, da delegação permanente do Brasil junto à Unesco e especialista em patrimônio mundial da missão Sítio Burle Marx. © Arquivo Pessoal

Aprovação em todos os quesitos

Mesmo a beleza e a diversidade arrebatadoras do sítio não significam tudo. Para figurar entre os patrimônios mundiais da Unesco, foi preciso um grande empenho de requalificação para torná-lo elegível. Por meio da Lei de Incentivo à Cultura, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) investiu cerca de R$ 5,4 milhões em intervenções para valorizar espaços de visitação, garantir acessibilidade e potencializar ações de pesquisa.

“O trabalho começou pelo Iphan, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, que administra o sítio. Foi um belíssimo trabalho tanto na administração do bem quanto na montagem do dossiê. Um dossiê completo, de mais de 600 páginas, muito bem elaborado. E tanto, que recebeu aprovação em todos os quesitos necessários”, destaca Barrio.

Esta 44ª sessão do Comitê de Patrimônio Mundial da Unesco acontece virtualmente, sediada na cidade chinesa de Fuzhou, depois do adiamento da edição do ano passado em função da pandemia da Covid-19. Uma vez que o dossiê seja apresentado, este é analisado pelo Conselho Internacional de Monumentos e Sítios, órgão de assessoramento do comitê na área de cultura. “É um belíssimo patrimônio, não foi difícil reconhecer”, sublinha o conselheiro da delegação.

Plantas raras e quase extintas

Situado em Barra de Guaratiba, cercado pela Mata Atlântica e preservado pelo Parque Estadual da Pedra Banca, o Sítio Burle Marx preserva espécies vegetais de todo o mundo, inclusive plantas raras e ameaçadas de extinção. O reconhecimento como Patrimônio Mundial atesta também sua importante contribuição para ampliar o debate sobre a preservação ambiental.

“É um reconhecimento muito oportuno justamente neste momento em que tantas coisas estão em debate na área de mudanças climáticas, preservação da biodiversidade. Burle Marx era botânico e também artista, e conseguiu fazer uma ponte entre a arte e a ciência, conseguiu unir cultura e preservação do meio ambiente. É uma mensagem muito positiva nesse momento em que estas conversas estão bastante no ar”, conclui Barrio.

Reconhecido em todo o mundo como um dos mais importantes paisagistas do século 20, Burle Marx viveu no sítio entre 1973 e 1994. Em 1985 o local foi doado para o governo federal, com o propósito de assegurar a continuidade das pesquisas e permitir a visitação pública.

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