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Saúde

Com UTIs lotadas, hospitais franceses penam para recrutar profissionais

Áudio 05:16
Médicos franceses atendem paciente na UT I de Estrasburgo, no leste da França
Médicos franceses atendem paciente na UT I de Estrasburgo, no leste da França AP Photo/Jean-Francois Badias
Por: RFI
11 min

O mês de novembro será exaustivo, anunciou na semana passada o primeiro-ministro francês, Jean Castex, em referência à explosão do número de casos de Covid-19 no país.

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A situação é cada vez mais preocupante nos hospitais franceses. Em 20 de outubro, a taxa de ocupação dos leitos nas unidades de terapia intensiva em Île de France, onde está situada Paris, já era de mais de 60%. Cirurgias que não são urgentes já começam a ser adiadas e pacientes são transferidos para outras cidades.

O país registra cerca de 50.000 contaminações diárias - mas esse número é duas vezes maior, segundo o presidente do Conselho Científico do país, Jean-François Delfraissy. Em Paris, a taxa de incidência do vírus já chegou a 450 casos positivos por 100 mil habitantes. Para que a epidemia possa ser considerada sob controle, esse número não deve ultrapassar 50 casos.

Na UTI do hospital de Laon, no noroeste da França, assim como em outros estabelecimentos franceses, as equipes médicas se questionam como receber e tratar os pacientes. O setor já está lotado de doentes contaminados pela Covid-19. O problema, entretanto, parece ser mais ligado à falta de mão de obra do que de estrutura, como explicou o chefe do setor, Eloi Goullieux.

“Ainda temos vagas. Por outro lado, não temos mais profissionais especializados. Precisamos correr atrás de pessoas suficientemente competentes para gerenciar todas as telas e máquinas", diz Gouilleux. "Para que uma enfermeira possa ficar à vontade em uma UTI, são necessários seis meses. Não temos tempo para isso, então recrutamos nos blocos operatórios. São enfermeiras anestesistas, que têm competência para gerenciar a oxigenação, mas se utilizamos seus serviços, diminuímos nossa capacidade cirúrgica", completa.

A situação atual, diz o especialista, já obriga os hospitais a cancelarem cirurgias. “Quando adiamos uma operação, ligamos para as pessoas e dizemos: sabe aquilo que faz você se sentir mal? Então, vamos ter que esperar para poder aliviar sua dor”, reusme o especialista, que teme que metade das cirurgias sejam canceladas.

Na região parisiense, corrida contra o tempo

Os hospitais da região parisiense se organizam como podem para atender os doentes. No Pronto-Socorro do hospital de Villeneuve, uma região desfavorecida da capital francesa, o estabelecimento manteve a organização criada durante a primeira onda, em março. Em função dos sintomas, as equipes dividem os pacientes – os casos suspeitos são enviados diretamente para o setor Covid-19 e não devem se misturar com os outros doentes.

Os hospitais devem gerenciar todas as emergências e não apenas os doentes graves da Covid-19, como foi o caso da primeira onda, em março. Além disso, independentemente da epidemia, os hospitais já ficam mais sobrecarregados no inverno, como lembra a chefe do setor, Corinne Bergeron.

“Não podemos gerenciar os dois fluxos ao mesmo tempo, pacientes Covid e não-Covid", diz. Ela explica que o hospital adotou um sistema para se organizar durante esse período, em três níveis, que indicam a capacidade do estabelecimento em receber os doentes. O estabelecimento, diz ela, já está no nível 2.

“Vamos chegar rapidamente ao terceiro nível, quando será necessário adiar cirurgias que estavam previstas. Mas, dessa vez, sabemos que não poderemos adiar tudo. Está claro para mim que estamos chegando no limite do nosso sistema. É perigoso”, diz, acrescentando que o outono só começou.

O próprio presidente francês, Emmanuel Macron, explicou à população durante um pronunciamento, em 16 de outubro, porque a situação atual é mais complicada do que na primeira onda. Segundo ele, em março, a região parisiense e o leste da França foram as mais impactadas pela epidemia, o que permitia uma transferência rápida dos pacientes para outras regiões. Não é o caso agora, lembrou o chefe de Estado: todo o território está tomado pelo vírus e a rede hospitalar foi mobilizada em sua totalidade.

Medidas de contenção são suficientes?

Neste contexto, o governo francês tenta evitar ao máximo um novo confinamento geral e multiplica medidas para tentar conter a propagação do SARS-Cov-2. Na tentativa de frear a propagação do vírus, o Executivo decretou, por pelo menos seis semanas, o toque de recolher em 38 regiões francesas, entre 21h e 6h. Apenas serviços essenciais, como hospitais ou farmácias, por exemplo podem ficar abertos. A medida atinge 46 milhões de habitantes. O governo pretende prolongar oficialmente o estado de emergência sanitária no país até fevereiro.

Mas, muitos temem que essas medidas sejam insuficientes. É o caso do médico francês Philippe Klein, radicado em Wuhan, na China, onde o vírus surgiu em dezembro, mas agora está totalmente sob controle, segundo ele. O especialista conta que vive em uma “bolha sanitária” e tentou ajudar o governo francês na gestão da epidemia, sem retorno. Ele se diz decepcionado.

“Essa decepção vale para toda a humanidade. Hoje eu e minha família vivemos em uma bolha sanitária, sem coronavírus, e a vida econômica aos poucos está voltando ao normal. A gente se esforça para retomar o equilíbrio de antes. Mas vejo como o resto do mundo e meu país estão em grande dificuldade, à mercê desse vírus, e franceses que já estão em dificuldade e que vão sofrer ainda mais. Em um país com tantas qualidades, é incompreensível.”

(Com reportagem de Laurence Théault, Simon Rozé e Stéphane Lagarde)

 

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