Saúde

Como os estudos sobre o HIV aceleraram a descoberta da vacina contra a Covid-19

Áudio 04:52
Tecnologia do RNA mensageiro, usada na vacina da Pfizer contra a Covid-19, pode ajudar no desenvolvimento de uma imunização contra o HIV.
Tecnologia do RNA mensageiro, usada na vacina da Pfizer contra a Covid-19, pode ajudar no desenvolvimento de uma imunização contra o HIV. Fred TANNEAU AFP/Archivos

A epidemia de HIV nos anos 1980 representa um marco para a Ciência. Os tratamentos eficazes que surgiram ao longo das últimas quatro décadas são fruto de uma cooperação científica inédita e do trabalho de pesquisadores que ainda hoje tentam entender o vírus e suas mutações.

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A estrutura utilizada nos 40 anos de estudos dedicados à descoberta de uma vacina contra o HIV, lembra Roger Tatoud, diretor-adjunto dos programas HIV na IAS (International Aids Society), que organiza a Conferência Mundial sobre a Aids na Suíça, sustentou as pesquisas e o sucesso que resultaram na descoberta dos imunizantes contra o SARS-Cov-2.

“Muitos dos centros clínicos onde foram realizados testes para a Covid-19 eram utilizados para a pesquisa do HIV. Os cientistas envolvidos nas pesquisas com a Covid-19 são os mesmos que trabalhavam em estudos sobre o HIV”, explica

Além do investimento massivo, houve também um engajamento coletivo do mundo científico no combate à Covid-19, com aumento da cooperação e compartilhamento de dados, o que permitiu avanços em tempo recorde. Os organismos que financiam as pesquisas sobre o HIV também são os mesmos que investem nos estudos sobre o SARS-Cov-2, lembra o representante da International Aids Society.  

“Houve um enorme suporte, que deve ser reconhecido, de 40 anos de investimento no HIV, que permitiu uma resposta rápida à Covid-19."

Na entrevista à RFI Brasil, Roger Tatoud disse esperar que essa mesma “energia”, seja utilizada, no futuro, na busca por uma vacina contra o HIV. Há projetos em andamento, dificultados pela complexidade do vírus, mas uma das esperanças é a utilização do RNA mensageiro, adotada com sucesso nas vacinas contra a Covid-19. Essa tecnologia poderia “driblar” a alta capacidade de mutação do HIV, fazendo com que o organismo produza anticorpos independentemente da cepa.

O pesquisador explica que o HIV é um vírus muito mais sofisticado do que o SARS-Cov-2, com cepas de diferentes famílias, o que dificulta o desenvolvimento de uma vacina.

“Como vírus da Aids varia muito, bem mais do que o vírus da Covid-19, e tem muito mais variantes, os anticorpos, isolados, não reconhecem todas as cepas”, explica Tatoud sobre a dificuldade de criar uma vacina utilizando métodos clássicos, onde vírus inativados ou enfraquecidos provocam uma reação do sistema imunológico que protegem o corpo.

Os cientistas detectaram até agora cinco novas variantes para o SARS-Cov-2: a britânica, a sul-africana, a brasileira, a nigeriana e a originária de Nova York. Essas mutações são esperadas e normais, explica o pesquisador.

“A natureza é assim. Os vírus mudam, alguns mais do que outros”, diz. É o caso do HIV, mas também do vírus da gripe, por exemplo. “Por isso é necessário criar uma vacina diferente todos os anos, porque a cepa muda de um ano para outro. O HIV é assim, muda muito, dependendo da população e da área geográfica.”

A triterapia, ou o famoso coquetel anti-HIV, ainda é tratamento mais eficaz no combate às cepas existentes, segundo ele. Mas há casos de resistência, que obrigam os cientistas a adaptar as moléculas para tratar os pacientes.

Novas pistas de tratamento

A IAS apresentou em janeiro resultados preliminares de um estudo que mostra que injeções regulares de um tipo específico de anticorpos monoclonais, chamado de VRC01, podem prevenir a contaminação.

A pesquisa incluiu 4.600 homens e transgêneros no Brasil, Peru e Estados Unidos e mulheres na África subsaariana. Mas, mesmo tendo um amplo espectro, os anticorpos não reconhecem todos os vírus existentes. “Talvez seja necessário fazer mais estudos ou combinar diferentes anticorpos, para ver se funciona melhor”, explica o pesquisador.

Roger Tatoud acredita também que a mudança da percepção coletiva em relação à gravidade do HIV influenciou os investimentos e as pesquisas. A imagem dos doentes em estado terminal nos hospitais, que aterrorizou o mundo nos anos 1980, ficou para trás.

O coquetel faz com que os pacientes possam levar uma vida praticamente normal e novos medicamentos evitam a contaminação em caso de exposição. O HIV passou a ser visto como uma doença crônica. Além disso, a transmissão hoje pode ser totalmente evitada, diferentemente da Covid-19.

“Todo mundo pode ser atingido, todo mundo pode ser contaminado e todo mundo tem medo. Já em relação ao HIV, existe um certo distanciamento”, ressalta. Roger Tatoud lembra que o vírus que gerou uma das piores epidemias do século 20 continua sendo uma doença que mata 800.000 pessoas por ano.  

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