Saúde

Toque de recolher e home-office: como a Covid-19 atrapalha o sono dos franceses

Áudio 05:49
A pandemia do coronavírus mexeu com o sono de parte da população mundial.
A pandemia do coronavírus mexeu com o sono de parte da população mundial. iSTock / kasinv

A diminuição da atividade física, o uso intenso das telas e a pouco exposição à luz solar são consequências diretas das medidas restritivas aplicadas durante a pandemia da Covid-19. A psiquiatra francesa Sylvie Roland Parola é presidente da rede Morphée, um grupo de profissionais que se dedica aos estudos sobre os distúrbios do sono e ajuda os pacientes a dormirem melhor.

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A pandemia de Covid-19 mudou o ritmo de vida de boa parte da população mundial. Acordar, ir para o trabalho, deixar as crianças na escola, encontrar os amigos e ir para a academia são atividades que desapareceram do cotidiano da maior parte das pessoas. A casa se tornou o escritório, a sala de aula e praticamente o único espaço social onde máscaras e distanciamento não são obrigatórios. Como essas mudanças, que agora são duradouras, alteraram o relógio biológico?

A rede Morphée realizou um estudo sobre o tema após o primeiro lockdown na França, entre março e maio de 2020. A conclusão é que 47% dos 2.000 entrevistados tinham problemas de sono – quase 17% mais que nos períodos anteriores à epidemia.

Um dos motivos, explica Sylvie Roland Parola, é que as pessoas dormiam e acordavam cada vez mais tarde. Esse tipo de comportamento, explica, é observado em períodos de isolamento temporário. “O tempo passado diante das telas também aumentou de forma dramática, em todas as faixas etárias, e principalmente à noite, o que atrapalha o sono”, analisa.

Após o primeiro lockdown, a situação se tornou mais heterogênea, explica a psiquiatra. A partir de setembro, a adoção de medidas menos restritivas pelo governo francês, como o toque de recolher às 18h, por exemplo, e a reabertura das escolas, gerou fenômenos diferentes no sono da população. Alguns passaram a se deitar mais cedo, outros tarde demais, e muitos acumularam insônia e noites mal dormidas.

Pais com crianças pequenas, frisa a psiquiatra, estão sobrecarregados desde o início da epidemia por conta dos protocolos sanitários que diminuem o acesso às atividades para os filhos, e devem se dividir entre o trabalho, as tarefas domésticas e as crianças.

“Os comportamentos são mais dispersos. Não existe um efeito de grupo. Não temos a impressão de ter uma tendência, mas que cada um, no fim, se adapta um pouco em função de seus horários e obrigações, sobretudo familiares”, diz.

Ela lembra que o home-office permitiu uma maior flexibilidade, principalmente na região parisiense, onde o tempo passado no transporte público para ir e voltar do trabalho pode chegar a duas ou três horas diárias. Mas, esse ganho de tempo teve pouco impacto na qualidade do sono, como mostram outros dados recentes, destaca.

Fuso horário trocado

Os relatos mostram que muitos franceses se sentem como se vivessem atualmente em um fuso horário diferente. “Houve uma perda de referência. A vida ficou mais limitada a um espaço fechado, há menos exposição à luz natural e outras situações que fazem parte de uma vida normal, como o trabalho dentro de uma estrutura”, reitera, se referindo às empresas.

Ela cita a importância do efeito de grupo para o ser humano, sensível ao que os cientistas chamam de sincronizador social. O ritmo da organização da vida cotidiana e principalmente do trabalho é um elemento fundamental para um indivíduo. Os horários regulares são marcadores do tempo que enviam sinais para que o organismo possa funcionar corretamente e entender quando deve estar em alerta ou em repouso.

“Esses elementos estruturam o tempo, fornecem informações importantes para nosso relógio interno ajudam a equilibrá-lo, e para que ele possa fazer a diferença entre o dia e a noite, os dias da semana e o final de semana”, completa.  Ela lembra que algumas pessoas, dependendo da condição, ficaram totalmente privadas desses marcadores do tempo desde o início da pandemia.

A psiquiatra cita os universitários como exemplo, que durante quase um ano permaneceram em cursos à distância. Ou ainda funcionários de setores como o dos restaurantes, há meses em desemprego parcial.

Há ainda, ressalta, o estresse vivido por algumas pessoas de maneira aguda. “Estamos em uma situação sobre a qual não temos controle, sem previsão de fim, e um vago sentimento de perigo, latente e de maneira permanente”, frisa a psiquiatra. A ansiedade é um transtorno, lembra, que afeta diretamente o sono e aumenta a sensação de cansaço, e difícil de controlar em um período como o atual. 

Para melhorar o sono neste período epidêmico, Sylvie Roland Parola recomenda uma rotina de horário para se deitar e levantar e sair todos dias para se expor à luz natural, por pelo menos meia horas. Com a generalização do home-office, lembra, muitas pessoas passam o dia todo trancadas em casa, e é importante se obrigar a sair.

O ideal é incorporar no cotidiano uma atividade física, por no mínimo 20 minutos, de preferência pela manhã. E, para finalizar, estabelecer regras próprias no uso das telas. A regra é bani-las pelo menos uma hora antes de dormir.

Beliscar o dia todo, sem horário fixo para as refeições, também é um mau negócio. O ideal, diz a psiquiatra, é jantar no máximo às 20h. A disciplina, conclui, é essencial para atravessar esse período pandêmico da melhor forma possível.

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