Saúde

Covid-19: família e amigos influenciam comportamento na pandemia, mostra estudo

Áudio 04:23
Máscaras e distanciamento social são respeitados em função do comportamento de amigos e parentes
Máscaras e distanciamento social são respeitados em função do comportamento de amigos e parentes REUTERS/Rafael Marchante

Uma equipe de pesquisadores franceses publicou recentemente uma pesquisa na revista científica British Journal Psychology mostrando que o respeito às medidas de proteção contra a Covid-19 depende principalmente da influência da família e dos amigos.

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Os cientistas franceses analisaram dados de 114 países, através de questionários preenchidos por mais de 6.674 pessoas. O resultado confirmou a hipótese dos pesquisadores. A maneira como as pessoas mais próximas adotam o distanciamento social e o uso de máscaras, por exemplo, é mais determinante do que as próprias convicções sobre o respeito às regras.

A atitude também muda em função do risco pessoal ou de um amigo ou familiar desenvolver uma forma grave da doença. De acordo com o pesquisador do Instituto francês CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica), Guillaume Dezecache, um dos autores do estudo, a ideia de uma pesquisa que buscasse entender porque a população aderia ou não ao lockdown surgiu durante o primeiro bloqueio na França, entre março e maio de 2020. “Tínhamos uma situação com um interesse psicológico muito forte”, diz o especialista francês.

Segundo ele, na época, ficou claro que o chamado perfil cognitivo tinha uma forte influência na adoção das medidas de proteção. “Há pessoas que tendem a seguir o que os outros fazem, e outras não”, explica. “Por isso colocamos essa questão: o que realmente influencia o respeito à medidas de proteção? O que a pessoa acha que é certo fazer ou o que os outros em torno dela pensam?”

O questionário distribuído em várias línguas e países, entre abril e novembro, permitiu à equipe entender o que de fato influenciava o comportamento das pessoas. “Nós pedíamos para que explicassem até que ponto era normal pedir que seguissem uma regra, pensando em seu próprio ponto de vista, na opinião das pessoas próximas e no mundo de um modo geral”, detalha.

O objetivo inicial do estudo era constatar o nível de adesão às medidas restritivas, o que resultou na descoberta sobre qual o perfil do cidadão que seguirá as regras estabelecidas, e de que maneira. Algumas características foram observadas nos países onde o distanciamento social é mais respeitado, explica o pesquisador francês, como o coletivismo, que permite agir em nome do bem do grupo. “Temos traços culturais como o coletivismo, que são preditivos, e vão determinar o respeito às normas” ressalta.

Ele lembra que na França, por exemplo, que tem fama de ter uma população refratária às regras, muitas pessoas não respeitaram o distanciamento e o uso das máscaras no início da crise sanitária, e tinham dificuldade em perceber a velocidade de propagação do vírus. Esse tipo de atitude, diz, deriva de traços “quase psicológicos”, de egoísmo ou falta de informação sobre como enfrentar uma epidemia. Mas, ao mesmo tempo, os humanos são seres sociais, justifica, e essa recusa é compreensível.

"Humanos precisam de contato social"

Para o professor francês de Psicologia, a população do país, de um modo geral, respeita bastante as medidas de proteção. “É impossível pedir às pessoas que não tenham contato social físico durante mais de um ano. Somos seres humanos, extremamente sociais, simplesmente não podemos pedir esse tipo de coisa para humanos. Neste contexto, não podemos esperar que as pessoas respeitem esse distanciamento dentro de um prazo tão longo, e gestos tão restritivos para o bem-estar psicológico. ”

Segundo Dezecache, apesar das dificuldades que isso pode gerar, as pessoas acabam seguindo as regras, apesar delas serem contrárias às necessidades fundamentais de um indivíduo. O pesquisador lembra, ainda, que aqueles que estão em situação mais precária acabam pagando o preço maior pelas restrições e perdas econômicas associadas à epidemia. Trabalhadores, por exemplo, que não podem fazer home-office, acabam ficando mais expostos à contaminação. “A epidemia com certeza aumentou a desigualdade", frisa.

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