Saúde

Covid-19: é possível adaptar as medidas de restrição às novas cepas?

Áudio 04:58
A Covid-19 vaccination centre set up in an exhibition hall in Nice, France.
A Covid-19 vaccination centre set up in an exhibition hall in Nice, France. AFP - VALERY HACHE

Desde o início da epidemia, o esforço científico coletivo permitiu a criação de vacinas eficazes, testes e tratamentos contra a Covid-19. Um ano depois, o que os cientistas sabem ou desconhecem sobre o SARS-Cov-2 e sua propagação? Uma conclusão é certa: há fatores imprevisíveis que influenciam na disseminação do vírus e um deles é o aparecimento de novas variantes.

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O epidemiologista francês Arnaud Fontanet, chefe da unidade de Epidemiologia e Doenças Emergentes do Instituto Pasteur, é membro do Conselho Científico francês, o órgão criado pelo governo para orientá-lo na gestão da crise sanitária. Ele diz que, durante o primeiro ano de epidemia, os cientistas aprenderam que era possível controlar a circulação da cepa histórica do vírus com diversas medidas. Entre elas, o toque de recolher, em vigor na França há mais de seis meses.

Foi o que ocorreu em novembro de 2020, durante a segunda onda epidêmica. O governo francês conseguiu, sem adotar um lockdown rígido, manter as escolas abertas e diminuir o número de casos. Mas, com a chegada das novas cepas, a gestão da epidemia se tornou mais complicada, explica o pesquisador francês.

“Enfrentamos agora a famosa cepa britânica, que sabemos, é 60% mais transmissível e também 60% mais letal. Isso significa que o risco que temos de morrer é 60% maior em comparação ao vírus histórico”, ressaltou o cientista em entrevista ao programa Priorité Santé, da RFI.

Mais contagiosa, a cepa se espalhou rapidamente e hoje domina o território. Medidas como o toque de recolher, diz Fontanet, se tornaram insuficientes para controlar a propagação da epidemia. Por essa razão, o país hoje, em plena terceira onda, se viu obrigado a fechar as escolas e limitar o movimento da população para controlar as contaminações.

O aumento das temperaturas durante a Primavera e o Verão também devem ajudar a diminuir a circulação do vírus, acredita o epidemiologista, já que os vírus respiratórios, de maneira geral, se propagam mais rapidamente no frio.

Além disso, o avanço da vacinação, priorizando os pacientes mais frágeis, permitirão ao governo francês debelar a terceira onda, acredita. “Nós estamos em uma corrida entre essas variantes e a vacina”, diz o cientista, explicando a dificuldade de imunizar rapidamente a população sem que as doses necessárias estejam disponíveis ou sofram atrasos na entrega.

Os incidentes envolvendo a vacina da AstraZeneca também geraram problemas no calendário estipulado pelo governo francês. Há, ainda, a desconfiança em relação ao imunizante, agora reservado aos maiores de 55 anos. O epidemiologista lembra que é normal surgirem efeitos colaterais, mesmo graves, durante as campanhas de vacinação, e que eles geralmente são raros.

No caso da vacina da Oxford, até agora, essas reações atingiram principalmente pessoas mais jovens. “O que é importante, é ser transparente”, diz o epidemiologista. Ele lembra também que, quando aparece um problema desse tipo, cria-se um efeito de bola de neve, e as autoridades de saúde dos países tendem a observar com mais atenção efeitos colaterais similares.

Imunidade coletiva é sonho distante

A imunidade coletiva sem vacinação ainda está distante, lembra o representante do Instituto Pasteur. Ele ressalta que o vírus não atinge de maneira igualitária todo o território francês. Isso se deve a diversos fatores, como localização, clima e densidade populacional. Na região parisiense, por exemplo, a expectativa é de que pelo menos 30% da população já tenha sido contaminada.

O epidemiologista também lembra que fatores climáticos certamente têm um papel na propagação da Covid-19, e cita o caso do Camboja, um país poupado pelo SARS-Cov-2, mas que enfrentou uma epidemia de gripe, o que prova que vírus respiratórios circulavam no território. “Tudo não pode ser explicado pelas medidas restritivas adotadas pelo governo”, lembra.

Há também o mistério sobre pessoas que não são infectadas em contato direto, como membros de uma família que dividem o mesmo tempo. “Acredito pouco nas variações imunitárias individuais. O único elemento que temos atualmente é que as crianças de menos de dez anos são duas vezes menos propensas à contaminação. Não temos muitos outros elementos para explicar isso”, declara.

Anticorpos monoclonais

Os tratamentos também avançaram,com o uso de anticoagulantes e corticoides, além da melhor administração do oxigênio, mas ainda não há remédios milagrosos, lembra Fontanet.

Há esperança, com o advento dos anticorpos monoclonais, como explica Bernard Vanhove, diretor científico e de operações da start-up francesa Xenothera, que criou um tratamento à base de anticorpos policlonais, o Xav-19.

“Eles têm a potencialidade de baixar brutalmente a carga viral dos pacientes. Isso imita naturalmente o que acontece no corpo de um paciente contaminado, mas mais tardiamente, duas ou três semanas após a infecção”, diz.

Os anticorpos devem ser administrados no início dos sintomas. Há também o risco deles perderem a eficácia diante de novas variantes, mas os laboratórios trabalham para que esse problema possa ser superado. O medicamento está sendo testado nos hospitais e poderá em breve ser adotado nas unidades Covid-19 dos estabelecimentos franceses.

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