Saúde

Em novo livro, neurocientista francês ensina a “domar” pesadelos, que aumentaram com a Covid-19

Áudio 06:06
Capa do livro "Manual de Cura dos Pesadelos", do neurocientista francês Benjamin Putois
Capa do livro "Manual de Cura dos Pesadelos", do neurocientista francês Benjamin Putois © Foto: (Divulgação)

A epidemia de Covid-19 não só tirou o sono de muitos franceses, mas também aumentou em até 6% a frequência dos pesadelos na população, mostram estudos realizados pelo Inserm (Instituto Francês de Pesquisa Médica), logo após o primeiro lockdown, entre março e maio de 2020.

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Taíssa Stivanin, da RFI

O contexto sanitário favoreceu o desequilíbrio emocional, aumentou a incidência de doenças mentais, piorou as pré-existentes e afetou o sono da população em todas as idades, mas existem métodos para driblar algumas dessas dificuldades.

A RFI Brasil conversou sobre o assunto com o neurocientista francês Benjamin Putois, especialista no tratamento dos pesadelos. Ele acaba de lançar o livro “Manuel de Guérison des Cauchemars”, ou “Manual para curar os pesadelos”, em tradução livre. Na obra, ele descreve o método que transforma vivências oníricas negativas em experiências inofensivas. Os pesadelos são um sintoma comum de vítimas do estresse pós-traumático, por exemplo.

Durante o lockdown, o pesquisador francês acompanhou pacientes tratados pela terapia há alguns anos e constatou que, apesar das circunstâncias, eles ainda eram capazes de controlar seus sonhos. “Eles tiveram um pouco mais de pesadelos durante a epidemia, ou o lockdown, mas não tanto quanto no passado”, detalha.

Apenas um medicamento é conhecido para tratar o problema: a Prazosina, um remédio usado para controlar a hipertensão. Seu uso, entretanto, é restrito em função do estado de saúde do paciente. “Mas, para tratar os pesadelos a longo prazo, a única terapia reconhecida pela academia americana de Medicina do Sono, até agora, é a Imagery Rescripting Therapy, ou releitura das imagens mentais visuais”, lembra o especialista francês. Este é o método que ele descreve em detalhes em seu novo livro, que consiste em ensinar o paciente a editar o próprio pesadelo e dar a ele o desenrolar e o desfecho mais convenientes.

O treinamento é cotidiano e feito durante alguns meses, explica o pesquisador. No início, o paciente é recebido no consultório para a chamada “exploração das imagens mentais". Nessa fase, com a ajuda do terapeuta, ele cria roteiros alternativos baseando-se no pesadelo inicial. A ideia é incorporar elementos positivos à sua história e registrá-la de forma consciente.

A segunda fase da terapia é o treinamento diário do roteiro elaborado durante as consultas, por vários minutos, com os olhos fechados, criando universos visuais. Normalmente, todos os indivíduos são capazes de realizar esse exercício, mas, dependendo da situação, ele é mais complexo.

"É preciso se colocar no lugar de pessoas que sofrem de estresse pós-traumático ou pesadelos crônicos”, observa o pesquisador. Essas pessoas, explica, quando fecham os olhos, vão reviver um acontecimento traumático em suas vidas: a perda de um ente querido, um acidente ou uma agressão. "Eles são invadidos por imagens negativas. É uma fase importante para que as pessoas retomem o controle de seu espaço visual”, completa. Esse período do tratamento, explica o neurocientista, dura algumas semanas.

O neurocientista francês Benjamin Putois, autor do livro "Manual de Cura dos Pesadelos"
O neurocientista francês Benjamin Putois, autor do livro "Manual de Cura dos Pesadelos" © Divulgação

Terapia ativa rede neuronal usada durante o sono

Os pesadelos são fabricados em uma rede situada do córtex cerebral, que cria a chamada memória visual. Essa mesma rede neuronal á ativada durante a terapia. Os sonhos ruins acontecem durante o chamado sono paradoxal, ou fase REM (Rapid Eyes Mouvement), caracterizado por movimentos oculares rápidos, relaxamento muscular e respiração e ritmo cardíaco irregulares.

Na terceira fase do tratamento, os pacientes vão escolher um pesadelo e isolar o momento que, para eles, é mais angustiante, incorporando momentos positivos, guardando elementos visuais ou mudando radicalmente o roteiro do sonho. Ele lembra que muitas pessoas conseguem se tratar sozinhas, seguindo a metodologia em um livro. Mas, no caso de pesadelos ligados a experiências traumáticas, em geral é necessário um acompanhamento.

Os pesadelos também ocorrem com certa frequência em crianças de 8 a 12 anos, que podem beneficiar do mesmo tratamento, explicou o neurocientista à RFI Brasil. Ele lembra que o advento de sonhos ruins ou pesadelos são comuns e ajudam o cérebro a digerir emoções mal vividas.

O problema é quando eles se tornam muito frequentes, atrapalham o sono e se tornam patológicos. “Hoje sabemos que os sonhos servem para digerir os problemas, as preocupações e outras coisas horríveis que acontecem conosco no cotidiano”, analisa. A partir de um pesadelo por semana, diz, é preciso buscar tratamento.

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