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Um pulo em Paris

Crise causada pela epidemia de coronavírus agrava situação de mulheres na França

Áudio 07:07
Mulher isolada e sem teto dorme na rua em Paris.
Mulher isolada e sem teto dorme na rua em Paris. AFP - JOEL SAGET
13 min

Com o outono no hemisfério norte e o segundo lockdown contra a epidemia do coronavírus, que entrou em vigor em 30 de outubro, ONGs francesas que trabalham com pessoas sem teto, dão assistência médica e fazem distribuição gratuita de alimentos à população carente dizem nunca ter visto um aumento tão repentino da precariedade. Tem muito mais gente perdendo a casa ou o apartamento e precisando de ajuda para comer. Um público diferente do que as ONGs atendiam até o momento e que inclui, particularmente, mulheres e crianças.

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Doze ONGs que integram a Federação dos Atores da Solidariedade – incluindo a Fundação Abbé Pierre, o Samusocial de Paris e a Unicef França – alertam para a degradação da situação dos sem-teto. Todas as noites, 700 crianças dormem com seus pais, muitas vezes apenas com suas mães, nas ruas em Paris.

Em toda a região metropolitana da capital, que inclui dezenas de subúrbios na periferia, 20 mil menores são acolhidos atualmente em quartos de hotel alugados pelo Estado, em condições extremamente precárias, por falta de um alojamento permanente, afirmam as ONGs. "Com frequência, mulheres que acabaram de dar à luz são enviadas às ruas com seus recém-nascidos", denunciam as ONGs.

O dado de 1 milhão de "novos pobres" começou a circular no início de outubro na França, com a advertência feita por grandes associações humanitárias francesas – Médicos do Mundo, Secours Catholique, ATD Quarto Mundo e Emmaus. Elas anteciparam as consequências da crise econômica causada pela epidemia do coronavírus, que criou novos desempregados e agravou as dificuldades de pessoas que já viviam na precariedade. O país deve ultrapassar rapidamente a marca de 10,3 milhões de franceses que vivem abaixo da linha da pobreza, ou seja, com menos de € 1.063 por mês, cerca de R$ 6.980, segundo levantamento do Instituto Nacional de Estudos e Estatísticas (Insee), de 2018, o equivalente francês do IBGE no Brasil.

Dados oficiais do Insee, indicam que 38% dos sem-teto são mulheres e apenas um quarto delas encontram refúgio nos albergues de emergência, porque a maioria deles foram construídos para receber homens. Atualmente, 60% das mulheres que buscam os serviços sociais de emergência não encontram uma solução para passar a noite. As autoridades dão preferência para famílias, mulheres com crianças, mas nem assim têm dado conta de atender o aumento da demanda.

ONG encontra moradias de longa duração para mulheres sem teto

A ONG Solinum desenvolveu há quatro anos o programa "Merci pour l'invit" ("Obrigada pelo convite", em tradução livre) para mulheres sem abrigo. Essa organização trabalha apenas com hospedagem de longa duração, de seis meses a um ano. A proposta da associação é colocar em contato um morador que se disponha e receber uma mulher sem teto ou refugiada. É um público que corre mais risco de abusos sexuais e agressões, justifica a ONG, que já conseguiu retirar 36 mulheres isoladas das ruas. Durante esse período de acolhimento na casa de um particular, essas mulheres assinam uma convenção de direitos e deveres e recebem o apoio dos serviços sociais do Estado visando sua reinclusão, seja por meio de uma formação ou um emprego.  

As associações que trabalham com a população carente também notam um aumento da pobreza entre estudantes do ensino superior, filhos de famílias de baixa renda. Eles não encontram mais trabalhos avulsos para complementar o mês. Com o dinheiro da bolsa de estudos, eles conseguem pagar a moradia nas residências universitárias, mas perderam a receita que era dedicada à alimentação e, agora, precisam de ajuda para comer. Os universitários pobres são cada vez mais numerosos nas filas de distribuição gratuita de alimentos.

Além dessas duas categorias, muitos autônomos e microempresários que sempre trabalharam – e nunca precisaram de ajuda social – se veem, com o segundo lockdown, completamente sem recursos.

Faltam alojamentos para pessoas de baixa renda

As associações reconhecem que o problema não é financeiro. O que faltam são alojamentos perenes para o número crescente de pobres que necessitam morar em conjuntos de habitação popular, com aluguéis subsidiados pelo Estado. Nas últimas três semanas, o governo francês abriu mais 9.000 vagas nos centros de emergência de acolhimento noturno, mas faltam vagas em hotéis, um sistema complementar que a administração utiliza para abrigar o número flutuante de sem-teto.

Na região parisiense, onde vivem 12,2 milhões de habitantes, as 130 mil vagas oferecidas pelo Estado para os sem-teto passarem a noite estão saturadas. A central telefônica que controla a distribuição dos leitos tem recebido uma média de 1.000 a 1.300 chamadas por dia, mas 800 pessoas que buscam abrigo ficam diariamente sem um local para dormir. Isso em um momento em que as temperaturas caem na madrugada abaixo de 10 graus. Com as ruas vazias à noite por causa do lockdown, esses "novos pobres", invisíveis na maior parte do dia, ficam totalmente visíveis para as câmeras de televisão nas filas de sopão popular.  

Hotel em Montmartre abre as portas para os sem-teto

Nesta semana, um hotel duas estrelas de Montmartre, um bairro turístico de Paris, propôs seus 42 quartos para utilização de pessoas sem teto durante o período de um ano. A iniciativa foi aplaudida, porque vem num momento de escassez de vagas nos albergues tradicionais. A gestão desses leitos vai ser administrada pela ONG Emmaus.

Em 48 horas, 60 pessoas foram recolhidas para esse hotel. O estabelecimento ainda vai receber mais 25 pessoas neste fim de semana. Segundo a Emmaus, a maioria dos "hóspedes" são homens da faixa etária de 40 anos, que foram parar na rua por uma ruptura social, familiar ou uma experiência traumática de exílio. São pessoas que estão com a saúde fragilizada. Alguns trabalhavam na construção civil e em restaurantes, mas perderam o emprego. Nesse hotel, que tem o curioso nome de "Hotel do Futuro" (Hôtel Avenir de Montmartre), uma enfermeira acompanha os hóspedes 24 horas e faz a ligação com os demais serviços sociais do Estado.

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