Um pulo em Paris

Covid-19: Feriado da Páscoa tem potencial de alto risco de contaminações na França

Áudio 07:18
Parisienses tomam sol ao longo do Canal Saint-Martin sem respeitar o distanciamento físico.
Parisienses tomam sol ao longo do Canal Saint-Martin sem respeitar o distanciamento físico. AP - Christophe Ena

Os franceses aproveitam o último fim de semana de tolerância para viagens no interior do país, após o anúncio de um mês de novas restrições de circulação válidas para todo o território até 2 de maio. O feriado prolongado da Páscoa é um dos mais aguardados do ano e, em meio à terceira onda da Covid-19, tem forte potencial de contaminações.

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Diferentemente do Brasil, a sexta-feira da Paixão é um dia trabalhado para os franceses, que folgam na segunda-feira depois do domingo de Páscoa. Esta tradição foi instaurada por um acordo proposto por Napoleão Bonaparte ao papa em 1801 e dura até hoje.

O comércio não essencial irá fechar em todo o território francês por quatro semanas a partir deste sábado (3), quando entram em vigor as novas medidas para frear a epidemia do coronavírus. Porém, as autoridades serão tolerantes com viagens neste fim de semana. 

Até a noite de segunda-feira (5), os franceses ainda podem circular de uma região para outra, depois será proibido. Como as escolas vão fechar, muita gente está indo para casas de campo ou de praia, a fim de encarar o trabalho em home office em locais mais próximos da natureza e espaçosos para crianças. 

Os católicos praticantes estão mais satisfeitos do que no ano passado, porque as missas do domingo de Páscoa estão autorizadas, com um público limitado nas igrejas e um protocolo sanitário rígido para garantir o distanciamento físico e evitar contaminações. O policiamento será reforçado pelo risco de atentados terroristas.

Mas há muitas incertezas com respeito às novas medidas de restrição. Elas serão suficientes para frear a terceira onda da epidemia? 

Comunicação vacilante e incoerente

A comunicação do governo tem sido muito vacilante, em alguns momentos incoerente. O próprio presidente Emmanuel Macron fala num "confinamento em locais abertos", estimulando as pessoas a saírem de casa para arejar, correr, andar de bicicleta, fazer piquenique nos parques, desde que respeitem um máximo de seis pessoas reunidas. 

No pronunciamento que fez na quarta-feira (31), Macron disse que as pessoas já sabem o que fazer para não se contaminar e devem ter responsabilidade individual quanto a se proteger e proteger os outros. O presidente declarou que se baseou em três critérios para decretar as novas restrições: segurança sanitária, a fim de evitar um colapso no sistema hospitalar; equilíbrio, no sentido de se preservar a saúde mental dos cidadãos; e responsabilidade. 

O pico da terceira onda de Covid-19 deve ser atingido nos próximos 7 a 10 dias, segundo o primeiro-ministro Jean Castex, mas ninguém confia mais nessas projeções. Esta semana houve um aumento de 12% nas contaminações, com 38 mil novos casos positivos na comparação com os sete dias da semana anterior.

Uma pesquisa do instituto Odoxa Backbone Consulting feita depois do pronunciamento de Macron mostra que 70% dos franceses aprovaram as medidas que visam diminuir os contatos sociais, as aglomerações nas escolas e nos transportes. Mas quase a metade, 46%, dizem que vão transgredir as novas regras. Entre os jovens, a desobediência vai a 60%. Por isso, há muita desconfiança no sucesso desse terceiro lockdown, que vai fechar 150 mil lojas e custar € 11 bilhões (R$ 73 bilhões) aos cofres públicos.

Os limites do policiamento

As punições por infração às regras sanitárias são elevadas, mas muita gente prefere correr o risco de pagar € 135 de multa, cerca R$ 900, por infração do toque de recolher noturno, depois das 19h, ou por aglomeração de mais de seis pessoas nas vias públicas. A única multa de efeito realmente coercitivo é a de organização de festas clandestinas: até um ano de prisão e € 15 mil (R$ 100 mil) para os organizadores. Apesar do elevado valor, celebrações acontecem.

Na terça-feira passada, uma festa selvagem com 300 pessoas na margem do rio Saône, em Lyon (sudeste), não teve intervenção da polícia. Depois da repressão aos coletes amarelos, o governo tem muito medo de atiçar novamente um clima de revolta urbana, ainda mais colocando em risco a vida de jovens. Para inibir aglomerações festivas, a venda e o consumo de álcool nas vias públicas serão proibidos até 2 de maio.  

Vacina da AstraZeneca/Oxford

A ministra francesa encarregada da Indústria, Agnès Pannier-Runacher, declarou nesta sexta-feira (2) que a França poderá deixar de utilizar a vacina de Oxford, assim que as entregas de outras vacinas aumentarem. Segundo ela, o país ainda precisa do imunizante para acelerar a campanha de vacinação e vencer a terceira onda da doença. Mas tanto os problemas de negociação com o laboratório quanto a menor recomendação de uso, somente para pessoas com mais de 55 anos, devido aos raros problemas de trombose registrados, fazem o governo francês evocar essa tendência.

Até o dia 18 de março, nove casos de trombose atípica foram comunicados à vigilância sanitária depois da administração da vacina da AstraZeneca, e pelo menos três mortes registradas. 

O país alcançou a marca de mais de 10 milhões de pessoas vacinadas, o que representa 11,2% da população maior de 18 anos, anunciou nesta sexta-feira o ministro da Saúde, Olivier Véran. Mas apenas 2.653.261 receberam as duas doses necessárias. O governo aguarda a entrega de 13 milhões de doses em abril, com um reforço de produção da Pfizer/BioNTech, para começar a controlar a epidemia. 

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